sábado, 28 de dezembro de 2019

O RELÓGIO ART-DECÒ

Por: Sérgio Perazzo
PSIQUIATRIA

O que tem em comum uma caneca de estanho, uma valsa de Debussy e um relógio art-déco? Aparentemente nada.
Visto pela fresta da janela, pelo lado de dentro, esse resto de sol, vindo do poente, bate que bate em cheio na caixa do relógio, tangenciando a alma. Retificando cada movimento circular dos ponteiros e com isso aplainando o espírito e desdobrando o dia no seu suspiro final, arremate dos males, ressurreição das boas coisas, de permanente lembranças. Uma overture em sol maior.
Relógio que foi presente de aniversário ali, pelos idos de 1938, design art-déco combinando com os lustres do teto e a luminária daquele canto, como era moda, a tampa de vidro que se abria toda manhã ou quase toda manhã, pra dar corda com a chavinha fixada na fechadura, permanentemente, a portinhola de vidro abaulada permitia abrir e fechar sem arranhar o vidro.
Desde que me entendo por gente, era o pai que dava a corda no relógio, sempre deixando dez minutos adiantado, tal o medo de chegar atrasado seja onde for, eliminando com este estratagema, a angústia do tempo, as coisas de última hora. Eu esperava o arremate. Dada a corda, o relógio tocava um pequeno trecho de uma valsa de Debussy como sinal de dever cumprido e se calava ao mesmo tempo que o café se tomava na caneca de estanho que eu imaginava ser rescaldo de velhas estalagens, daquelas com viga no teto e cortina florida na janela, com direito aos Três Mosqueteiros e tudo, transportando o colar da rainha, espadas na bainha.
Era uma casa de vila distante meia quadra da Ponte de Tábuas, entre o Jardim Botânico e a Vila Hípica. Sempre me pareceu uma visão de braços abertos e um chão antiderrapante mesmo se grama molhada que nos permitia, nós, crianças, correr em segurança até o portão por onde entravam as visitas, movimentando as tardes de domingo.
Só uma vez me lembro que escorreguei. Corria para receber o padrinho. Era carnaval e estava fantasiado de holandês. Fantasia de cetim com botões dourados, mais uma proeza de minha mãe que a cada ano inventava uma fantasia nova: pirata, caubói, cigano, marinheiro, tirolês, rumbeiro, escravo de Bagdá e, dessa vez, holandês, a única que repetiu dois anos seguidos. Acho que morrera uma bisavó em pleno carnaval e não houve ânimo para invenção nova, falta de dinheiro não era. Só sei que a calça do holandês, azul, o colete era vermelho e a camisa branca,  ganhou um remendo caprichado para dar conta do tamanho da perna que tinha crescido de um ano para o outro. Mas o tamanco de madeira, de bico arrebitado, tamanco holandês, era o mesmo e estava bem apertado no pé. Sai correndo em busca do padrinho no portão. Escorreguei dessa vez, ralei o joelho e a fantasia bem na hora de ir à matinê com meus irmãos e a prima. Confesso que chorei. Mais pela fantasia e pelo vexame que pelo joelho. É claro que a mãe engenhosa que era, pintou o arranhão com mercúrio cromo e costurou os joelhos da fantasia deixando duas cerziduras que ficaram como cicatrizes marcando essa viagem de velhos carnavais, tulipas bordadas, colo de mãe e abraço do padrinho. De resto, o salão de baile onde deságuam todas as lágrimas, todos os dez minutos adiantados da minha vida marcados pelo velho relógio e o cachimbo de holandês, adereço da fantasia pendurado na boca, que saiu meio torto, meio tremido na desbotada fotografia de um fevereiro perdido em art-déco e calendário de folhinha.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

NATAL DE 2018

Por: Evandro Guimarães de Sousa
PNEUMOLOGIA

Nas semanas que antecederam o último Natal encontrei, na frente de um conhecido shopping de São Paulo, um gigante boneco vestido de Papai Noel e, pasmem, no lugar de sua conhecida e tradicional vestimenta vermelha com pele branca nos punhos e na gola, estava usando uma camiseta branca com estampa de bolas vermelhas.
Aí, fiquei matutando. Será que as altas temperaturas registradas na região da Lapônia durante este ano, interferiram na indumentária do bom velhinho? Ou talvez, teriam as despesas com a ração das renas, os honorários do Veterinário, o custo do IPVA do trenó ou os encargos trabalhistas de seus ajudantes motivado a venda do seu uniforme natalino tradicional?
Quando voltei ao shopping na véspera deste Natal, o Papai Noel já estava convenientemente trajado com sua roupa vermelha e branca, inclusive com o conhecido gorro, apesar do calor insuportável que tem feito nesta cidade. Descobri, então, que na minha passagem anterior os decoradores estavam na fase inicial de colocar sua vestimenta e, felizmente, o boneco ficou pronto de acordo com a tradição para alegrar a criançada que lá passava.
Depois do Natal, para minha surpresa, ao passar novamente em frente ao mesmo shopping, observei que Papai Noel agora estava vestido com uma camiseta verde, em posição de yoga, todo zen e rodeado de palmeiras artificiais.
Nada mais justo que um descanso, depois da exaustiva distribuição de presentes por este mundo afora na véspera do Natal. Imaginei ele, agora, curtindo uma praia à sombra de palmeiras, sorvendo uma água de coco geladinha para se refrescar, não antes de se besuntar com protetor solar!
Sabemos que o verde representa a esperança que todos nós temos para 2019. Esperança de um país melhor, mais justo, com melhorias na educação, no atendimento aos pacientes, com mais segurança e com políticos dedicados à causa pública e não mais atuando em benefício próprio.
Portanto, tenho certeza de que ele usou roupas no tom verde durante o Réveillon da passagem para 2019, assistindo a tradicional queima de fogos na praia de Copacabana.
Também acho que o vi no meio da multidão, durante a posse do atual mandatário desta nação, trajando vestes nas cores verde e amarelo, mesmo porque não seria recomendável utilizar seu costumeiro traje vermelho. Nesse dia, Papai Noel, com toda sua sabedoria secular, logo sacou que o melhor mesmo era se vestir adequadamente e garantir seu passe livre no céu de Brasília, para as costumeiras entregas de presentes no Natal de 2019. Concordam comigo?

sábado, 21 de dezembro de 2019

FAGULHAS

Por: Márcia Etelli Coelho
MEDICINA DO TRABALHO

(dedicado a Lygia Fagundes Telles)

Eu sou meio tom, crepúsculo, incerteza.
Às vezes sobrado, por vezes, porão.
Encontro no simples a minha grandeza.
Ciranda de pedra, eu sou solidão.

Menina que escolhe as próprias histórias, 
que antes do baile é bem mais feliz.
Coração ardente, inventando memórias. 
Noturnas histórias... Não sei ser matriz.

Nos poucos achados e muitos perdidos, 
escrevo uma crônica em cada viagem.
Mistério e segredos de beijos partidos 
nos vastos jardins de uma praia selvagem.

Quando há Lua cheia, as horas são nuas.
Convivo com armas e vozes fraternas.
Sou chama que logo se torna fagulhas,
fagulhas que sonham com luzes eternas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

VESTIDOS DE LUZ

Por: Marcos Gimenes Salun
JORNALISMO

Olha o tronco daquela árvore!
Olha o papai-noel de plástico!
Olha outro naquele telhado!
Olha alí um de verdade! 

Estão todos vestidos de luz.
Há um mar dessas pequenas centelhas 
piscando.
São milhares, são milhões, acendendo, 
apagando.
Nas portas, nas mulheres, nas vitrines
Nas janelas, nos pacotes, nos meninos...
Veja só como brilham esses meninos!
Estão lindos assim, vestidos de luz!
São milhares nas esquinas, cintilando,
Refletindo esse brilho, circulando 
Entre os carros que refletem 
a cidade vestida de luz.

Olha o panetone naquela loja!
Olha a bicicleta que eu te falei!
Olha o brinquedo movido a pilha!
Olha a tv colorida e também vestida de luz!

Há um turbilhão de apelos faiscando.
São milhares, são milhões, acendendo, 
apagando.
Nas vitrines, nos pacotes, nas janelas
Em mil bocas nas esquinas e favelas.
Há no ar a perspectiva de uma festa
Acendendo, apagando, refletindo, 
iluminando.
Há meninos nas esquinas esperando
Um pouco mais do que o simples brilho
da cidade vestida de luz.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

DEPRESSÃO

Por: Roberto Antonio Aniche
ORTOPEDIA

A solidão caminha pelas ruas sonolentas, silenciosa pela noite adentro. Não pergunta nomes, não bate nas portas nem precisa que elas se lhe abram. A solidão caminha silenciosa, como a névoa que alcançou todos os primogênitos, mas muito mais cruel, sem se preocupar em quem cairia em suas armadilhas.
Como um animal peçonhento esgueira-se pelas sombras, age e ataca no silêncio quando se torna ainda mais forte, longe da luz. A solidão é uma dama de veludo que sem o menor pudor beija a face desprotegida com o beijo maldito que envolve e dissolve todos os sonhos da vida.
Não há limites em sua busca frenética pela desgraça, vai de pensamentos a alcovas, de palavras a silêncio, da vida e da morte, sempre, independente de quem seja, abalar o coração, derrubar a alma. E de repente a solidão invade a distância e o tempo, torna as pessoas sem rosto, sem voz, sem sonhos.
...
Sozinho no banco da praça, debaixo da luz amarela de um poste antigo, o homem pensa em como se deixou iludir, como perdeu seus momentos de lucidez que o levariam ao paraíso etéreo que almejara desde menino. Gostaria de falar, mas não havia quem o ouvisse, não havia pessoas ao seu lado, nem na praça nem em qualquer outro lugar.
Envolvido pela névoa ele descobriu que não tinha mais palavras, as perdera todas no caminho de tantos anos até chegar àquele banco da praça. Ninguém o notava, tornara-se invisível como a avó de um texto lido no passado. Deixara-se tornar invisível, a solidão o tornou invisível num ataque de surpresa na linha do tempo de sua vida.
Era noite, como convém à solidão para entrar no coração das pessoas, envolvê-las em seus próprios pensamentos escuros tornando-as cada vez mais, seres únicos num mundo coletivo, tão únicos que não mais se enxergam.
Olhou para a luz amarela do poste e uma garoa fina começou a cair tornando a atmosfera mais fria, mais úmida, mais triste. Ninguém havia notado a sua ausência que já se tornara um tempo quase que eterno, ninguém havia notado a falta de sua voz contando estórias, pouco ou nada se lembravam de seu sorriso.
E quando ele buscava alguém na lembrança a tristeza o envolvia mais ainda, ele havia se tornado anônimo em sua própria casa, um paria do tempo perdido. Levantou-se e começou a caminhar, passos lentos, em direção a qualquer lugar. Lembrou-se de uma frase que dizia que a quem não tem um destino, qualquer caminho serve.
Talvez aquela rua jamais sentiria seus passos novamente, a lua encoberta não se lembraria mais de tê-lo visto, seus livros não seriam mais folheados buscando uma frase sequer.
Lentamente, encurvado e com os ombros caídos foi caminhando em direção a lugar nenhum, ou ao fim de todos os seus caminhos. Não havia mais nada a fazer, nada mais a dizer, nada mais a pensar. O coração se contraiu amargurado enquanto a tristeza tomava conta dos seus pensamentos.
Era um desconhecido numa fotografia velha e amassada. Nenhum recado, nenhuma saudade. Não restava mais nada a fazer, a não ser andar. Esgotara a sua cota de sacrifícios, esgotara todas as suas tentativas de se encontrar e encontrar tantas outras pessoas, não havia mais ambição, iniciativa ou sonhos. Ninguém perde o que não tem e ele tinha a certeza de que, depois de perder tudo ele atingira o estado do nada, apenas isso, um nada no meio da multidão. Lembrou-se do tempo de menino e um soluço doloroso emergiu de seu âmago. Parou, voltou-se e olhou na direção de onde viera.
E não viu nada, porque não havia mais nada. Mais nada…

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A ESCOLA PARA ASSALTANTES




Por: Helmut Adolf Mataré
ANESTESIOLOGIA
(in memoriam)
1917-2016

O sistema carcerário brasileiro é uma academia de crimes. Os batedores de carteira são profissionais. Existe um brasileiro que nunca teria ouvido estas opiniões? O mais importante é a instrução oficial: “Não reaja, se for assaltado, porque o assaltante está sob tensão nervosa. Ele pode assustar-se e  exagerar na violência”.

Esta é a opinião que os delegados da polícia representam, de acordo com a experiência deles, porque eles anotam as ocorrências. Eles analisam cada caso com vista aos possíveis desdobramentos e avaliam os perigos que um assalto conjura. 

A grandeza do perigo exprime-se em porcentagem, de acordo com as regras da estatística. A  pergunta é: com que probabilidade acontece o efeito em apreço, se está presente a condição desencadeante?

Este modelo de pensamento vale na física, na tecnologia, na astronomia e meteorologia, mas não vale (nesta forma simples) na psicologia, porque o ser humano é capaz de aprender. Nenhum criminoso faz somente uma tentativa de seqüestro ou de assalto em sua vida. Quando ele está na fase da experiência, seu modo de agir e de reagir pode mudar em cada caso. Não é só a experiência que modifica a reação do criminoso, mas também seu estado alimentar, sua vigília, bem como as oscilações do caráter, freqüentemente causadas por substâncias psicotrópicas.

De suma importância para o assaltante é a previsão que ele se faz sobre a reação da vítima. Quanto mais pacífica a vítima, tanto maior a tentação de proceder ao assalto. Criminosos têm orgulho e espírito corporativo. Muitos formam uma organização atuante e disciplinada. Para os líderes destas corporações não existe maior triunfo que um regulamento público que proíbe as vítimas de se defenderem. Orgulhosos eles podem declarar uma Guerra Santa contra a má distribuição da renda, sem perigo de baixa em suas fileira, matando à vontade.

A advertência dos delegados de polícia que nenhum cidadão deve defender-se, criou um quarto poder público. Ao lado dos poderes executivo, judiciário e legislativo, temos agora o poder dos assaltantes.

O famigerado “movimento contra a violência” dá sua bênção a cada roubo ou seqüestro que decorre sem algazarra, porque poupou-se o mais precioso que existe, a vida humana. Certamente, a vida humana é um grande valor, mas não é o único valor. A vida da mãe terra, por exemplo, ultrapassa em valor uma vida humana. E existe ainda uma moral que conhece muitos outros  valores e que coloca o valor da vida de um criminoso num escalão inferior ao da vida de um cidadão honesto.

A moral obriga-nos a educar-nos mutuamente. A permissividade, a conivência com crimes são atitudes imorais. Ainda que uma vida humana esteja em jogo, não se extingue o dever de pugnar contra o crime e de fazer tudo que é em nosso poder, para desestimular os criminosos ou para ajudar a puni-los. A sociedade que ignora estas imposições morais transforma-se em gigantesca academia de crime.

Se a polícia acha que não convém que os cidadãos dêem lições aos criminosos, ela deveria armar ciladas em todos os pontos críticos (coisa que é impraticável) e imediatamente abaixaria o número de assaltos e seqüestros.

Nunca na história da humanidade existia um povo que prescindia do princípio da expiação do crime, mas nossa democracia permite aos partidos políticos propaganda demagógica que coloca a moralidade ao segundo plano, em benefício da promessa de comodidade e de conforto imediato.

domingo, 1 de dezembro de 2019

O BANDEIRANTE nº 325 - DEZEMBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 325 - Dezembro de 2019

Editorial: 

É Natal

O mês de dezembro prenuncia confrater-nizações, presente de amigo secreto e, princi-palmente, a celebração do Natal. Mesmo quem não é adepto à crença cristã, sente-se integrado nas mensagens de paz mundial.
Com certeza as artes de um modo geral se apropriam do tema natalino e contribuem para a beleza da época que se vê iluminada.
Não há quem não se emocione com a canção “Noite Feliz” (“Stille Nacht no original alemão) escrita pelo padre Joseph Mohr, musicada por Franz Gurbber e executada pela primeira vez na Missa do Galo na Igreja São Nicolau na Áustria em 1818 e que foi considerada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2011.
Grandes mestres da pintura retrataram a natividade e os presépios são uma atração à parte, pois desde a sua idealização por São Francisco de Assis em 1223 vem sendo confeccionados com os mais diversos materiais. 
Nessa época é costume visitar o Museu de Arte Sacra em São Paulo que abriga o deslumbrante presépio Napolitano composto por 1600 peças italianas do século 18.  E talvez também rever o cultuado filme “A Felicidade Não se Compra” que comprova a importância dos nossos atos na vida das outras pessoas.
Na Literatura merece destaque “Um Conto de Natal” de Charles Dickens no qual um homem rico e avarento recebe a visita de três fantasmas (do Passado, do Presente e do Futuro), determinando uma mudança de atitude perante a vida.
E na poesia? Se a voz de Cora Coralina convida a “enfeitar a árvore de sua vida com guirlandas de gratidão”, Fernando Pessoa reforça a fé pois “a Criança Nova que habita onde vivo dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe”.
Todas essas expressões artísticas transmitem a mensagem de que o verdadeiro espírito de Natal consiste na fraternidade. 
Que ela, então, possa permanecer conosco em todos os dias do Ano Novo.

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - DEZEMBRO 2019

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

PRIMAVERA

Por: Mércia Lúcia de Melo Neves Chade
MEDICINA DO TRABALHO

Em setembro
Começa a primavera
Não tenho só
Uma primavera

Tenho muitas primas
Chamadas Vera
E também
Uma tia e muitas amigas Vera

Que não são
Primas
Umas nem se conheceram
Nem se verão

Eu também tenho
Muitas primaveras
Já passei pelo verão
Outono

Nos anos
Estou mais
Para Outono e Inverno
Que inferno!

Agora decidi manter
Meu parecer
Sempre na primavera
Viver

Com as primas
As amigas e todas as Veras
Até um dia 
Quando morrer e desaparecer sem elas

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

1666

 Por: Walter Whitton Harris
ORTOPEDIA

Há mais de três séculos, uma cidade foi assolada por 
uma catástrofe sem precedentes, que culminou em uma bênção para a Nação...

Fatídica noite de setembro
Mil seiscentos e sessenta e seis,
Do negrume surgem as primeiras labaredas,
em pontos diversos da metrópole de reis.

Londres fedorenta e malcheirosa,
Casas de madeira de sacadas estreitas
Imundície absurda por toda parte,
Infestação de ratos, as ruelas mal feitas.

Avançam pela cidade as chamas
Lambendo, lambiscando, ruindo
Tornando-se grande a conflagração
Tudo pelo seu caminho, destruindo.

Presença funesta nas casas e porões
Londres é partidária do mal,
Transmissores da peste negra
Doença de grande sacrifício mortal.

Calor intenso, poucas vítimas fatais,
Quatro, de fato, em duzentos mil.
Incontáveis ratos mortos no fogo
E afogados no Tâmisa; é a morte do vil!

Igrejas, prédios do governo,
Treze mil casas tombadas,
Inclusive a Catedral de São Paulo,
E renasce nova Londres daquelas queimadas.

Na reconstrução de Londres, levou-se em conta o que fora a cidade anteriormente
 e  procurou-se aprimorá-la.  Esta é a Londres que se conhece hoje...

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

IMIGRANTE

Por: José Francisco Ferraz Luz
DIREITO

Falar do imigrante é voltar a História Sagrada,
nos idos tempos do Êxodo do povo hebreu,
em direção a Terra Prometida aos pais de nossos pais.

O povo do século XXI está a caminho da felicidade,
prometida no Paraíso na criação do mundo em Gêneses.
Porém os poderosos abatem os humildes estrangeiros.

Os refugiados de sua pátria são perseguidos politicamente,
quando não, carente de suas primeiras necessidades humanas.
Carentes de apoio social, de tratamento médico-hospitalar.

As nações prezam mais os animais domésticos ante o ser humano.
O governo subsidia os bens de consumo, em detrimento do alimento.
Os impostos penalizam os assalariados em benefício do capitalista.

O comunismo sobrevive até que o capital privado desvanece.
Os imigrantes fogem do comunismo como o diabo da cruz!
Pois eles sabem que viver todos por um é sustentar um por todos.

O povo carece de dignidade, princípio da sobrevivência social,
e pela dignidade percorrem terras e mares a procura do ideal.
Acolhimento da pessoa e da família são princípios basilares do Direito.

Quem ama o próximo, ama a Pátria, a família, enfim, ama a Deus.
Princípio basilar da convivência: “amar o próximo como a si mesmo”.
Dar de si é acolher o próximo como sua semelhante criatura do Criador.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

MINHA PRIMEIRA VISÃO DE MUNDO

Por: Juarez Moraes de Avelar
CIRURGIA PLÁSTICA

Quando nasci, a humanidade já sofria há três anos as terríveis atrocidades da II Guerra Mundial, período dos mais sangrentos de sua história. Naquela época, os meios de comunicação eram rudimentares, precários e lentos. Quando a notícia de um episódio sangrento chegava até o povo, outros de maior gravidade já haviam acontecido. Com efeito, as informações de que se dispunha nunca refletiam a situação do momento.
Contudo, a notícia do fim da Guerra, em agosto de 1945, com a assinatura da rendição japonesa aos americanos, foi recebida por todos com alívio. Portanto, três anos após minha chegada ao mundo, o anúncio do fim das hostilidades bélicas repercutiu rapida-mente em todos os cantos do país.
Quando me esforço para acessar informações sobre minha vida precoce, deparo-me com alguns episódios marcantes. A II Guerra Mundial é um deles com as páginas de tristeza e sofrimento. Entretanto, o primeiro registro armazenado em minha memória é a maravilhosa imagem de minha mãe grávida, com o meu irmão caçula, Jozimar, em seu volumoso ventre, quando eu ainda tinha três anos de idade. Minha saudosa mãe era dotada de boa estatura física, pele clara, olhos castanhos, cabelos não muito longos, que alcançavam os ombros; trajava vestes alvas, longas, abaixo dos joelhos, em que sobressaía o abdome proeminente. Em minha visão infantil, ela apenas parecia mais “gorda” que as demais pessoas. Contudo, certo dia, para surpresa minha e de meus irmãos, ela entrou em casa sem a aparência opulenta. Nos braços, trazia um bebê envolvido em uma coberta branca com detalhes azuis. Poucos dias antes daquele memorável episódio, eu havia completado quatro anos, e me lembro de nossa alegria com o nascimento do quinto filho de meus pais. Assim, em nossa família, éramos sete: papai, mamãe e nós, cinco irmãos.
Ainda cedo foi embalada por sonhos de futuro. Cada um de nós sempre demonstrou desejo de estudar e concluir cursos uni-versitários. Para meus pais, tais desejos ensejavam elucidativas conversas sobre atividades como Engenharia, Medicina, Direito, Pedagogia, Economia, Veterinária e Agronomia, que eram as profissões disponíveis aos jovens interessados na universidade. Essas profissões eram temas de debate, e nós, crianças, anunciávamos que escolheríamos esta ou aquela faculdade. No meu caso, ainda precocemente, cada vez mais se acentuava o desejo de tornar-me médico.
Enquanto meus irmãos mais velhos frequentavam o grupo escolar, eu, em razão da pouca idade, ficava em casa em companhia de mamãe, no desempenho das obrigações domésticas. Assim, desde minha infância já me identifiquei com o trabalho, razão pela qual sempre envidei esforços para realizar as tarefas com dedicação e empenho. Essa convivência com mamãe despertou em mim a curiosidade pela fita métrica, instrumento valioso para o trabalho exercido por meus pais. Inicialmente aprendi a ler os números da fita; em seguida, memorizei sua sequência, e depois aprendi a dobrá-la para obter a soma de suas metades e entender o significado da multiplicação. O mesmo ocorreu com as operações de divisão e subtração. Coisas elementares, mas para um garoto de cinco anos, fora do ambiente escolar, tais descobertas eram semelhantes à mágica. Minha curiosidade e o desejo de ajudar mamãe levaram-me a tentar algumas anotações, sendo alfabetizado por ela. Que alegria rememorar aqueles momentos de aprendizado, de descobertas tão importantes em minha vida!
Meu vínculo formal com a escola começou aos oito anos de idade e, graças às aulas de minha mãe, pude ingressar no segundo ano do curso primário (hoje chamado Ensino Fundamental). Com alegria, em companhia de Jomázio e Maria Helena, que carinhosamente chamava de Ena, apelido que se mantém até hoje, punha-me a caminho do grupo escolar. Durante o curto trajeto invadia-me um turbilhão de sentimentos, uma incrível sensação de felicidade, ao constatar que frequentar a escola era o passaporte que me levaria, um dia, a cursar uma Faculdade de Medicina, desde que me empenhasse para isso.
Como foi bom ser embalado por sonhos! O caloroso ambiente familiar era orquestrado por meus pais, que não mediam esforços para alimentar nossos sonhos infantis. Eles nos fizeram entender que para alcançar nossos projetos de vida era necessária dedicação aos estudos. Assim, fomos orientados a encontrar nas salas de aula e nos livros as respostas para nossas inquietudes na busca de conhecimento. No meu caso em especial, percebi que estudar com afinco era etapa indispensável para realizar o sonho de ser médico. Felizmente, após mais de seis décadas, posso constatar que meus objetivos foram alcançados. Melhor ainda é vivenciar a concretização de sonhos trans-formados em realidade pelo meu trabalho, um veículo para levar uma mensagem de fé a meus semelhantes que necessitam de meus conhe-cimentos, habilidade manual e arte para realizar a transformação física e psicológica de que necessitam.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

VIDAS EM JOGO

Por: Aldo Cesar Ribeiro Carpinetti
MEDICINA DO TRABALHO

Ele teve um pressentimento de que aquele plantão seria agitado; o suor já abria caminhos em seu tórax.
— Boa noite doutor, tudo bem? O movimento está bombando. Já tem duas crianças febris para o senhor avaliar, a mãe acha que a filha está com meningite. São todas dramáticas,
— Pode deixar, vou vê-las. Pede para a Dona Terezinha trazer uma caneca de café forte, para não perder o costume.
 — Eu peço. Ah, seu colega da emergência pediu para avisá-lo que vai atrasar, para o senhor segurar a barra até a chegada. Trânsito ruim de novo.
— É sempre assim. Bem, vamos ver. Com este calor o povo sai para tomar uns drinques e fazem besteira na rua, com carro ou moto.
— Verdade, daqui a pouco aparece os bebuns, isto se não aparecerem os acidentados.
— Vira esta boca para lá, Claudinha.
Ele entra na ala das crianças.
— Boa noite senhora. O que houve com esta lindinha, toda pálida?
— Ah doutor, o dia todo vomitando, só deu febre uma vez, já olhei na internet e vi que pode ser muita coisa.
— Verdade, mas vamos com calma, vou examiná-la e pedir alguns exames.
— E o garoto aqui, de uniforme de Batman? Já vi que está febril também.
— Tá sim doutor, febre desde ontem, não come nada.
Aparece na sala Claudinha.
— Doutor, estão te chamando na emer-gência de adultos. Um professor aposentado, 92 anos, parece bala perdida, está sangrando e um rapaz de 22 anos, trazido pela polícia, troca de tiros, dizem que tentou violentar uma criança.
— Vamos ver quem está mais grave.
— Os dois estão, não vai dar tempo de atender, tem que escolher um deles.
— O critério vai ser o de sempre, aquele que tem mais tempo de vida e sobrevivência.
— O senhor é quem sabe. Salvar aquele traste de indivíduo, sabendo que mais tarde, vai aprontar de novo?
— Claudinha, nossos plantões na periferia tem sido assim e eu não posso mudar esta realidade.
— Eu sei doutor, a mesma história de sempre. Então tá, eu e as colegas da enfer-magem só vamos obedecer seus procedimentos. Prometo que não vou dar opinião.
— O caso do rapaz é cirurgia urgente, pela perfuração pegou alguma artéria importante, avise a equipe.
— Já estão preparando a sala, vamos subir com ele. Ah, acabou de chegar uma paciente com parada cardíaca, o que fazemos? A recepção disse que é uma usuária de drogas.
— O meu colega ainda não chegou? Vou ver se ainda dá tempo de ver aquele senhor.
— Não se preocupe com ele, já acabou. As crianças estão esperando.
— Eu sei.
— Ah, sua esposa mandou mensagem, quer saber se o senhor prefere pizza de mussa-rela ou portuguesa para entregar.
— Qualquer uma, Claudinha. Não estou com cabeça para escolher.
— Então tá, vou pedir portuguesa sem cebola, eu não gosto.
— E o meu café? Esqueceram de mim?
— A dona Terezinha saiu correndo para casa, o marido passou mal, está sozinho.
Ele não estava gostando de nada disto.  Atender sem café... parece que faltava alguma coisa, tipo assim, um estímulo para continuar tudo aquilo.
Alguns minutos depois, chega seu colega de plantão:
— E aí, tudo bem? Desculpe, este trânsito é um inferno. Ah, nosso time está jogando, já viu na TV quem está ganhando?

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 324 - NOVEMBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 324 - Novembro de 2019

Editorial: 

A morte na literatura 

Logo no início do mês de novembro, reverenciamos os entes queridos falecidos e a morte retorna como tema de reflexão.
Na Literatura ela constitui um importante instrumento de dramatização e por vezes determina o sucesso de um livro. Com certeza a história de amor de Romeu e Julieta não teria o mesmo impacto se os enamorados fossem felizes para sempre.
A morte pode ser narradora como em “A Menina que Roubava Livros” de Markus Zusak. Ou estar associada à solução de crimes nas tramas que consagraram Agatha Christie e Arthur Conan Doyle e nos mistérios de Edgar Allan Poe.
O poder criativo de Machado de Assis deu voz a um personagem morto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” enquanto Liev Tolstoi nos conduz a refletir sobre o sentido da vida no livro “A Morte de Ivan Ilitch”.
A morte é tão necessária que José Saramago em “As Intermitências da Morte” aponta os problemas de um mundo em que ninguém morre. Na poesia, não há como não se emocionar com João Cabral de Melo Neto em que “a morte severina ataca em qualquer idade e até gente não nascida”.
A morte de fato é um enigma “que chega cedo pois breve é a vida” (Fernando Pessoa), “um poderoso vento” (Cecília Meireles), “um regaço como clausuro de paz” (Casimiro de Abreu) “que vem de longe do fundo dos céus” (Vinicius de Moraes) e que “talha as estátuas e a engendra a glória” (Guilherme de Almeida).
Manuel Bandeira ouviu a morte sorrateira batendo à porta, provocando medo, mas que no fundo “era a doçura da amada que amara com mais amor”. Fazendo parte do ciclo natural da existência, a morte é bem-vinda na Literatura.
Mas a temida “morte em vida” também pode ocorrer com os livros. É quando eles ficam em um canto sem terem sido lidos, às vezes nem sequer folheados. Depende de nós evitar que isso aconteça. Por isso, neste mês de novembro em que refletimos a importância de viver o dia a dia, vamos colaborar para que cada livro também cumpra o seu destino? Vamos?

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - NOVEMBRO 2019

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

EXTRAORDINÁRIO - A FAMÍLIA

Por: Suzana Grunspun
PSIQUIATRIA
     
      A família de August, o menino do filme Extraordinário, tem uma boa convivência, mas quando as dificuldades aparecem mostram-se ambivalentes, pois trocam afeto entre si e ao mesmo tempo se mostram disfuncionais. Não podemos esquecer do relevante papel da mãe, pai e irmã; solidários, porém, protetores diante das dificuldades. Acompanhamos o quanto esse núcleo promove uma certa infantilização em Auggie que amadurece ao longo de sua jornada. Sua volta para casa, no primeiro dia de aula é turbulenta e sofrida. Muito bem ilustrada na cena do diálogo com os pais, eles lhe dão a possibilidade de desistir da escola por entenderem as grandes dificuldades inerentes à aparência do filho. A decisão do filho é de continuar; ele sente a necessidade de crescer e se desenvolver e admite que precisa afastar-se de sua vida em casa, da professora –  mãe e ter novos professores.
Os pais dispensam muita atenção ao Auggie que é o centro do universo e sacrificam um olhar mais cuidadoso para a irmã Olivia, na intimidade chamada de Via, que é colocada na situação de compreensiva e que pode abandonar suas próprias necessidades em detrimento das necessidades imperiosas do irmão.
A mãe deixou de lado sua vida profissional de desenhista e sua pós graduação, passa só a fazer figuras do menino, tudo por causa de Auggie. Ela também sente não estar dando conta do seu projeto familiar com receio dos possíveis fracassos do filho, no entanto, eles com seu amor são também modelo para outras crianças, como uma menina, a melhor amiga de Via, que se afasta por inveja desse núcleo familiar de muita ternura e cumplicidade.
Esse amparo familiar transmite segurança para Auggie enfrentar, nos dias que seguem, a agressividade dos colegas da classe ou o isolamento que sente durante o intervalo das aulas. Na escola ele evoca personagens do clássico filme Star Wars, de George Lucas. Esses personagens permeiam muitas cenas e inserem questões importantes para se refletir. Ora ele se depara nos seus devaneios com personagens que representam o mal, ora com personagens que são representantes do bem e com todos eles se identifica por serem figuras estranhas mas também heróis consagrados do cinema. Esses personagens que são ligados às brincadeiras com o pai aparecem em sua mente como apoio para situações conflitivas e facilitam a sua elaboração para um caminho da superação bem como no seu empenho em se socializar.
Aos poucos a família se ajusta à nova condição e acontece uma modificação na vida  de todos. A separação de Auggie do núcleo familiar gera individuação da mãe e de Via, cada uma com suas conquistas. A finalização da tese da mãe e a apresentação de Via no teatro da escola, ocasião em que  todos vão reconhecer e aplaudir sua encenação, como a reaproximação da melhor amiga e também a conquista de um namorado. Auggie também amplia sua socialização e consegue expandir seu grupo de amizades, sendo reconhecido como amigo e companheiro  de viagens.
O filme é um convite para se refletir como os aspectos emocionais podem expressar-se positivamente se houver apoio para as crianças superarem suas dificuldades e melhorarem sua auto estima. Finalizo lembrando que a inclusão de uma criança quando bem trabalhada pelo ambiente facilita o reconhecimento e iden-tidade de cada uma, proporcionando desen-volvimento dos potencias herdados e das capacidades adquiridas e auxiliando dessa forma na realização humana.
________·
*O filme Extraordinário, dirigido por  Stephen Chbosky, é a história de um menino, August Pullman (Auggie) de 10 anos que é portador da Síndrome Treacher Collins.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

DESEJO E AMOR

Por: Mário Nilton Pinto Werneck
CARDIOLOGIA

Tens o meu amor
Tens o meu desejo
Tens a minha carne
Tens a minha alma
Somos dois em um.

Miro em seus olhos
O amor do universo infindo
Aguardo em seus braços
Aconchego da paixão desenfreada

E me encontro
Nesse sentimento intenso
Onde a lua e o sol realizam seu amor
Já há tanto descoberto.

És a consecução da imagem divina
E por fim, és a minha morte
Em cada destempero do gozo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O DIA DO MÉDICO

Por: Manlio Mario Marco Napoli
ORTOPEDIA

      O dia dezoito de outubro está intimamente ligado à evocação de Lucas, médico, pintor e santo. São Jerônimo (século V) atribui distribuição dos símbolos pelos Evangelistas, segundo as características dos seus diferentes trabalhos: a São Matheus, o querubim de aspecto humano; a São Marcos, o leão; a São João, a águia e, finalmente, a São Lucas coube o touro, porque seu Evangelho começa com o sacrifício de Zacarias e demonstra o Sacrifício de Jesus pela Humanidade, sendo o touro o emblema do sacrifício entre os povos da Antiguidade.
      Para Antonio Castilho Lucas, citado por Eurico Branco Ribeiro, o maior cultor de São Lucas entre nós, o touro evoca a paciência para o trabalho, a constância e a força, assim como a sua ruminação do alimento significa a meditação das ideias.
      Neste dia dedicado aos médicos, cujo patrono é São Lucas, alguns pensamentos vindos de um indivíduo prestes a encerrar sua carreira médica e universitária, necessariamente devem ser voltados aos jovens médicos, mesmo porque certamente são os mais indefesos às mudanças ou novas proposições.
      Assim, dirijo-me aos jovens colegas, na esperança que eles possam ainda reformular e tentar a mudança na nossa atual não confortável situação de médicos:
     “Sejam pacientes em seu trabalho, auscultando, compreendendo e perdoando antecipadamente qualquer desobediência, inconstância ou falta de responsabilidade de seus clientes, familiares ou de pessoas que os cercam. Sejam constantes em sua faina diária e jamais abandonem os que procuram sua arte”.
     “Sejam fortes perante os embates que fatalmente virão em suas carreiras e os enfrentem. Ruminem suas ideias, porque meditando sobre suas condutas, talvez errem ou prejudiquem menos seus pacientes”.
    “Enfim, sejam humanos e sintam que na área da Medicina deve haver, fundamentalmente, o amor ao próximo, o desprendimento e o saber sofrer junto”.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

SAUDADES

      
Por: Aida Lúcia Pulin Dal Sasso Begliomini
ENGENHARIA

      Subi os seis andares já quase sem fôlego; no penúltimo descansei um pouco e mudei a sacola de mão.
      Foi a terceira vez esta semana que o elevador parou de funcionar. Xinguei calado o porteiro, o síndico e até mesmo meu vizinho de porta que acabara de colocar seu lixo fedorento no hall dos apartamentos. A semana estava só começando e tudo estava dando errado. 
  Meu carro estava no conserto, o metrô lotado que peguei parou na estação por algum acidente no trajeto... Parece que alguém se atirou nos trilhos e a continuidade da viagem estava sem previsão em médio prazo, me obrigando a chamar um Uber. 
Eu e uma grande parte dos passageiros tivemos a mesma ideia e adivinhem... Mais tempo de espera e aumento do valor da corrida... Fazer o quê... Seria o mais viável no momento.
Quando chegou, sentei e descobri que o motorista era um engenheiro que havia perdido o emprego devido a idade, mais de cinquenta anos e estava com dificuldades em conseguir nova colocação, optando por esse trabalho por necessidade financeira e flexibilidade de horário.  Bem humorado, me ofereceu água e ainda comentou que hoje em dia tinha mais engenheiro trabalhando no Uber do que pagando o CREA.  Achei graça e relaxei um pouco apesar do tráfego intenso.
Da janela observava como a cidade estava esburacada e feia. Gente perambulando pelas ruas, mal vestidas, sujas, algumas envoltas em cobertores apesar do calor, nitidamente drogadas. Outras sentadas no chão cozinhando em improvisados fogões, rodeadas por crianças e cachorros. Lamentei que uma cidade do porte de São Paulo estivesse tão maltratada, mesmo após a mudança do partido político e ideologia. Perto de casa lembrei que a geladeira estava vazia e passei no mercado para comprar alguma coisa.
Enfim... tentei abrir a porta , forcei um pouco e a chave quebrou. Que azar! Era só o que me faltava. Porém para minha sorte lembrei que hoje era o dia da faxineira e que ela sempre deixava a chave na portaria. Chamei o zelador pelo interfone do hall e pedi que me trouxesse a chave e também me ajudasse a retirar o pedaço que restou dentro da fechadura.
Meia hora depois estava abrindo a porta e sendo recebido entre pulos e latidos pelo Bob, fiel companheiro que adotamos meses atrás após ele ter nos acompanhado quadras e quadras em uma caminhada num domingo cinza e frio.
Depositei as compras na pia da cozinha, troquei a água e completei a ração, lembrando então da pilha de correspondência que não tinha sido aberta e estava acumulada num canto da mesa.
Olhei em volta. Tudo permanecia igual. Os mesmos quadros na parede, plantas no terraço, flores na bancada ao lado da mesa de jantar, almofadas soltas e coloridas nos sofás. 
Pela janela entreaberta uma brisa fresca percorreu o ambiente e senti sua ausência, seu perfume, sua alegria espontânea e seu beijo ardente atiçando o meu desejo. Quanto tempo fazia que você partiu, horas, dias....não tinha certeza... . Sua falta se fazia notar em cada detalhe. Até os pequenos defeitos que eu vivia reclamando, agora não importavam mais. A saudade era imensa. 
Escolhi um bom vinho tinto de minha adega e fui para a varanda e de lá me distraí com a movimentação de carros no constante vai e vem. A noite veio chegando apressada como a vida é e no aconchego de nossa casa me senti protegido. O celular tocou. Olhei o horário no relógio e automaticamente converti para o fuso horário local e rapidamente atendi. Milhares de quilômetros distantes, separados por um oceano imenso pela tela vi você sorridente, feliz, escutei a sua voz carinhosa, saudosa e percebi quanta falta você me faz.
— Volta logo, querida...

sábado, 5 de outubro de 2019

GRATIDÃO CONSCIENTE

Por: Fátima Mendonça Jorge Vieira
DERMATOLOGIA

No momento presente tudo tenho.
Faço do agora o meu lar.
Inspiro, estou vivo.
Expiro, sinto gratidão.
Sou livre no agora!
Do passado, tenho o aprendizado.
No futuro, procuro a superação do Eu.
Ao acordar abro os olhos... eu enxergo! 
Sinto meu corpo entrando em movimento... 
tenho pernas, tenho braços, 
tenho um coração que bate no meu peito...
Inspiro e tomo consciência 
da minha primeira respiração.
Estou vivo!!!
Tomo consciência da minha existência.
Gratidão pelos meus ancestrais 
e todos que contribuem 
para minha existência na Mãe Terra.
Gratidão pelo meu corpo, 
receptáculo que a Terra 
me fornece para esta existência...
Gratidão pela família, pelos amigos, 
pelo trabalho, pela mãe natureza, 
pelos animais,...
Gratidão pelo alimento material 
e pela energia espiritual, 
que nutrem meu corpo e minha alma...
Tenho tudo de que necessito!
Tenho vida no momento presente.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 323 - OUTUBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 323- Outubro de 2019

Editorial: 

Medicos Escritores Famosos

No mês em que se comemora o dia dos médicos, este editorial homenageia os que, além de se formarem em Medicina, escolheram auxiliar as pessoas por meio da Literatura. 
Neste universo de grandes talentos, podemos citar Guimarães Rosa (Grande Sertão Veredas), Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), Jorge de Lima (Invenção de Orfeu), Moacyr Scliar (O Centauro no Jardim), Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos), Dráuzio Varella (Estação Carandiru), Içami Tiba (Quem Ama, Educa), Flávio Gikovate (Sobre o Amor e a Solidão), Roberto Shinyashiki (Sucesso É Ser Feliz), Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes), Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas), Archibald Joseph Cronin (Cidadela), Irvin D. Yalom (Quando Nietzsche Chorou), Michael Crichton (Parque dos Dinossauros), Oliver Sacks (Tempo de Despertar), Robin Cook (Coma), Tess Gerritsen (Gravidade), Michael Palmer (Medidas Extremas), W. Somerset Maugham (O Fio da Navalha), Fernando Namora (Retalhos da Vida de Um Médico), entre outros.
Não podemos também esquecer os consagrados poetas William Carlos Williams e Martins Fontes, o grande memorialista Pedro Nava, o excelente contista Anton Tchekhov e o premiado Antônio Lobo Antunes.
Mas, principalmente, este editorial homenageia os médicos filiados à SOBRAMES que, mesmo sem alcançar a fama mundial, persistem na difícil missão de conciliar os atendimentos médicos com a arte de escrever.
Sim! Existem vários caminhos para a promoção da saúde e a Literatura, com certeza, é um dos mais significativos. Um livro amplia o conhecimento, desperta emoções, alivia a solidão e auxilia o leitor a levar a vida com mais beleza.
Pois como afirma o também médico Aldir Blanc: “A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar.”



Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - OUTUBRO 2019

domingo, 29 de setembro de 2019

O MEU BAÚ

Por: Josias Pereira dos Santos
CARDIOLOGIA

Coisas da alma tenho eu guardadas
Num baú da saudade, envelhecido.
Mas que se adapta bem para as sagradas
Recordações de um tempo já perdido.

Recolhi todas elas espalhadas,
Recupero-as com amor enternecido, 
E me renovo delas suscitadas
O coração há muito umedecido.

Neste baú, difícil é escolher
Uma lembrança,  aquela que me traia
E me leve ao remorso de a perder.

É mentira... se bem eu as espraia
Cada uma por si é um bem querer
Que revive a minha alma que desmaia.   
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