quinta-feira, 28 de abril de 2022

VIDA MODERNA

  


Comemoramos 100 anos da Semana da Arte, evento considerado importante na cidade de São Paulo, com propostas renovadoras e ambiciosas em todos os aspectos das artes. A antropofagia, termo cunhado na época, seria uma metáfora de um processo digestivo, como ingerir o trabalho artístico estrangeiro, assimilar, deglutir e expelir com características próprias dos artistas em busca de identidade nacional. Esse movimento atingiu múltiplos cenários da cultura brasileira na busca de autonomia e desenvolvimento.

Nesse século que nos separa desse movimento marcante, o planeta passou por grandes transformações que nos atingem e nos ameaçam. Guerras movimentos separatista, globalização, expansões tecnológicas, problemas climáticos; tivemos avanços e retrocessos, enfim uma gama incontável de inquietudes.

Qual seria nossa preocupação atual, para estarmos calibrados com as necessidades sociais e culturais contemporâneas?

O grande artista Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos, em 1936, impactou o público com humor, romantismo e astúcia. Encenou a aceleração do homem com advento da Revolução Industrial. Chaplin mostrou os caminhos do estresse dos trabalhadores diante da produção esperada com as novas máquinas automáticas. Os movimentos repetitivos decorridos desse tipo de trabalho foi uma demonstração artística de um processo de  esvaziamento da mente humana,  tornando-nos alheios à nós mesmos, condição que segue até os dias de hoje em muitas atividades.

A vida moderna trouxe sim muito progresso com a tecnologia da informática, no entanto, a velocidade gerada pela agilidade que as comunicações são processadas via internet nos colocou na correria de alcançar o tempo, e esse nos escapa. A fluidez dos momentos, como bem descreveu o sociólogo Bauman em 2006, nos torna pessoas sem atenção, com dificuldade de vínculos, seres solitários e altamente individualistas.

Nessa aceleração fugidia, onde se encontra nossa sensibilidade, nossa humanidade? Penso não termos respostas prontas, contudo essas preocupações desencadearam ações muito realistas e pontuais.

No ensino fundamental estimulam as crianças com figuras para distinguirem faces alegres das tristes, diferenciarem faces de raiva das calmas. Será esse um caminho natural? Têm-se aulas de humanidades nas escolas médicas que sensibilizam estudantes a entrarem em contato e recuperarem suas vivências e sentimentos profundos. Compaixão, empatia, são agora ensinadas em aulas com presença obrigatória.

A vida moderna nos sequestrou características tão peculiares e próprias do ser humano, conseguiremos a tempo restaurar nossa humanidade ?


SUZANA GRUNSPUN

 (Texto vencedor da Super Pizza de fevereiro de 2022 com o tema “Vida Moderna) 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

PRÊMIO BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS 2020

 Na reunião online da SOBRAMES SP realizada em 17 de julho de 2021 foi revelado os vencedores do Prêmio Bernardo de Oliveira Martins para as melhores poesias apresentadas nas Pizzas Literárias em 2020.

Melhor Poesia: De Bomfim Paulo Boas Vindas – Luiz Jorge Ferreira

Primeira Menção Honrosa: empate entre O Sentido da Vida e Um Simples Coral – ambas de Márcia Etelli Coelho

Segunda Menção Honrosa – Somos Palavras – Pedro Durães Serracarbassa


A SOBRAMES SP agradece os avaliadores: José Rafael de Oliveira (MA), Paulo Pereira Fontes Martins (MA) e Jaqueline Doring Rodrigues (PR).


 

DE BOMFIM PAULO BOAS VINDAS

 

"Minha cidade amanheceu cobertas de nuvens. Empino um pensamento colorido..."

E com ele crio um sol sorridente que acorda os Bem-te-vis, faz cócegas nos Sábias, e puxa as orelhas dos cães vadios que cochilam debaixo das estátuas nas Praças, onde uma chuvinha de nada criou lindas poças d'água.

Minha cidade cresceu demais, ficou barulhenta, se fez ficar com um sotaque... Nipohebraicoitaloportugues...

Minha cidade é de todas as idades, de todos os costumes, de todos os temperos, de todos os desmazelos, de todas as danças, de todas as transas, de todas as prosas, de todas as rosas, de todos os abraços, de todos os beijos, de todos os queijos, de todos os credos, de toda a fé, de todo o Axé, de todos os Deuses.

E porque te quero, e porque me queres, não te dou adeus, quando eu for de vez, eu me abrigarei para sempre em teu chão, ou queimarei, e como tua fumaça subirei ao céu poluído que te abraça.

Mas hoje feliz, meu coração Ipiranga grita...

Minha cidade amanheceu coberta de nuvens.

Empino um pensamento colorido...

E tal qual como se tecesse um vestido de rendas, cubro São Paulo.

 

LUIZ JORGE FERREIRA

Melhor Poesia – Prêmio Bernardo de Oliveira Martins 2020

O SENTIDO DA VIDA

 


O momento era de crise

e eu ali parado, neutro, inerte.

Sonolência estranha, deslize.

Razão sem asas, marionete.

 

Na selva escura sem saída ou alento

minha alma se cala, anoitece.

A glória se vai com o sopro do vento.

A mente ofuscada, tenta, mas esquece.

 

Será que o inferno é a cruel impotência

de andar sempre a esmo, sem rumo ou porquê?

Será que é angústia de negar a essência

do eu verdadeiro em troca... de quê?

 

Será o paraíso o enxergar formosura

nas flores mais simples do imenso jardim?

Se eu despojar o rancor e a censura

será que haverá uma chance pra mim?

 

O tempo, o destino e a Mãe Natureza,

ao verem que estou entre o sim e o talvez,

respondem sorrindo, divina certeza,

que a vida é a ciência do tentar outra vez.

 

MÁRCIA ETELLI COELHO

Primeira Menção Honrosa

Prêmio Bernardo de Oliveira Martins 2020

 

SOMOS PALAVRAS

 

Somos todos poetas

Fazer-se a si mesmo em papel branco

É sim construção poética

Ainda que construída em pranto

Mesmo aqueles que nada escrevem

Ou que pouca graça vêem na palavra

Criam sentido no caos do mundo

E isso só pode ser poesia

Se procurar a palavra singela

Será mais poeta e mais bela a vida

Assim como o verso que trilha

por variadas idas e vindas

Encontrará a felicidade

em poucas palavras

e o sofrimento em longas estrofes

Haverá momentos de pausa

De retorno ao antes escrito

De apagar a palavra posta

De negar o que nunca foi dito

Basta criar e recriar

Mas nunca perder

A vontade quase insana

De viver e de escrever.

 

PEDRO DURÃES SERRACARBASSA

Segunda Menção Honrosa

Prêmio Bernardo de Oliveira Martins 2020

UM SIMPLES CORAL

 


(poema inspirado na obra de Cora Coralina)

 

O tempo me ensinou a ver flores no caminho,

a remover as pedras do destino

que em todas as minhas vidas

teimam me desafiar.

 

Na velha casa da minha infância

tesouros continuam escondidos, aguardando recordações.

No beco da saudade

estórias de cordel, pouco a pouco, ganham vida.

E os meninos verdes que ali brincam me pedem pra voltar.

E eu voltarei...

 

Voltarei, pois vive dentro de mim uma menina.

Menina eu era e ainda sou.

Eu sou a soma do passado e a esperança do futuro.

Sou presente a semear palavras.

Um cântico da Terra que em meias confissões perdidas

descobre a beleza das coisas simples do mundo.

 

Creio que a caminhada é mais importante que a chegada.

Creio nas flores que perfumam o jardim,

no Sol que anuncia o amanhecer,

nas estrelas que iluminam os sonhos,

no sorriso de criança tentando dançar.

 

Então, eu também sorrio.

E um pequeno coral de passarinhos abençoa o dia.

Simples...  Como a vida deveria sempre ser...

 

MÁRCIA ETELLI COELHO

Primeira Menção Honrosa

Prêmio Bernardo de Oliveira Martins 2020

 

 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

PRÊMIO FLERTS NEBÓ 2020

 Eis os vencedores do Prêmio Flerts Nebó para os melhores textos em prosa apresentados nas Pizzas Literárias SOBRAMES SP em 2020.

Melhor Prosa: Atirei no que Vi – Alitta Guimarães Costa Reis

Primeira Menção Honrosa – O Homem da Praça - Izabella Cristina Cunha

Segunda Menção Honrosa – Depressão – Roberto Antônio Aniche

A SOBRAMES SP agradece os avaliadores: Lúcia Elena Ferreira Leite (RJ), Josemar Otaviano de Alvarenga (MG), Amaury Braga Dantas  (PA) e Sílvio Sérgio Pontes Câmara (GO).

Parabéns a todos.

ATIREI NO QUE VI...


Intermináveis dúvidas durante quase dois anos, ela pegou no telefone depois de uma noite agitada. Largou-o, tornou a pegá-lo. “Inferno”, pensou, “ligo ou não ligo?”. Logo saiu para andar, naquela manhã ainda fria e úmida. 

A relação com ele era daquelas de enlouquecer. Não tinha certeza se gostava dele, mas queria gostar, e o queria por perto. Mas não suportava a indiferença dele. Sempre jogavam os mesmos jogos, que terminavam em farpas e silêncio mortal. Pingue-pongue. Pingue-pongue. Precisava encerrar isso com um corte radical. 

Naquela noite agitara-se muito. Tivera um sonho. Muito bom. Tudo muito claro. Solas finas na calçada irregular, ela andou por muito tempo. Parou, respirou fundo. Veio à lembrança a conversa com a amiga, que sempre dizia: “Vê se desencanta!”. A amiga era contra, dizia que era uma relação esquisita, sadomasoquista; que ela pedia um balde cheio e ele só dava um dedalzinho. “Mas que dedalzinho!”, pensava ela, “melhor que nada. E se todas as relações são assim mesmo? Não é infantil acreditar num grande amor?”. Voltou para casa. “O que ele me dá me agrada. E a própria coisa de ficar querendo mais... é excitante. Pena que tenha de rastejar. Mas, no fundo, não dizem que não se tem o que se merece, mas sim o que se negocia? Tudo é troca. É simples assim: é pouco, mas eu quero”. 

No terceiro toque o telefone atendeu. Ela explodiu, falando sem parar. “Eu amo você. Pronto, eu disse. Perdi. Tenho que aceitar o que você quer me dar, sem ficar reclamando, exigindo mais. É duro acordar como hoje, isso me sufoca, ficar sozinha é um inferno, seu desgraçado, você sabe disso, por isso me deixa sofrer. Mas você ganhou. Eu amo você, eu preciso de você, se for preciso fico com as migalhas que sobrarem, você só me quer assim, agora eu topo, viu, danem-se as conveniências, sofrer assim ninguém suporta, você está ouvindo, seu desgraçado, porque não diz nada? Estou morrendo seca, aceito até conta-gotas, me odeio por isso, mas tenho que ser real, você é tudo que eu consegui, não posso perder você só porque me dá muito pouco. Entendeu? Entendeu? Ah, meu Deus, falei tudo! ...” 

Uma pausa breve, tornada imensa pela ansiedade. Ela ouvia a própria respiração agitada. “Ele vai desligar na minha cara”, pensou, detesto quando fico histérica, o que eu faço, ele vai me xingar, ele...” 

 A voz veio mais profunda do que ela esperava: “Quer vir aqui?”, perguntou. “Onde, diz onde e eu vou”, disse ela, a voz tremia, ainda com medo. “Estou na rua tal, fica perto da quadra, entra à direita, anote o número, sabe onde é?” Ela estava confusamente decidida: “Eu acho onde é. Estou indo, por favor, meu amor, não vá embora, eu...” 

O telefone foi desligado. “O maldito vai me castigar de novo. Que endereço é esse? Não vai estar lá. E, se estiver, é capaz de me agredir. Mas preciso ir”. Custou a passar a chave na porta. Desceu às carreiras. O táxi não teve problemas em achar o lugar. No elevador, ela ainda chorava, zangada e esperançosa. Difícil, aquela situação. “Agora ele ouviu o que queria. Está com a faca e o queijo na mão, e eu...” 

Não foi preciso tocar a campainha. A porta estava entreaberta, o homem a aguardava. Aturdida, ela entrou, ele fechou a porta. Ficaram se olhando, como no sonho, ele calado. “Quem... quem é você?” Ela não estava entendendo. A voz era profunda, mais ainda do que havia notado. Olhos calmos. Observadores. Usava gostosos sapatos, velhos como o agasalho macio aberto no peito. Ela não conseguia falar. Ele continuava dizendo alguma coisa: “... tanto amor, eu tinha que saber quem você era. Seu desespero era tão familiar. Você ligou número errado, não parava de falar, e eu comecei a gostar de ouvir, tinha que ver você...” 

Essa história eles contam ainda hoje, muitas vezes, na sala onde se viram pela primeira vez. 

ALITTA GUIMARÃES COSTA REIS

Melhor Prosa – Prêmio Flerts Nebó 2020

 

O HOMEM NA PRAÇA

 


O silêncio era quase mortal.

Ele adentrou a praça vazia. Nunca imaginou que algum dia o pátio da praça sagrada pudesse estar tão oco e tão carregado ao mesmo tempo. 

A mudez e a quietude imperavam na praça que ora já fora templo de agitações, alegrias, bênçãos e renovação. Outros tempos se foram. Agora, do seu lado direito, apenas um único diácono, fiel escudeiro e única testemunha presencial da cena descomunal ali.

Olhou para o seu amigo, como quem diz: é chegada a hora. Balançou a cabeça assertivamente e prosseguiu. Afastou-se em direção ao pedestal no meio da praça.

A quietude era tanta que dava para ouvir o titilar claro de cada passo.

Os pés pisavam o chão semimolhado lentamente, ecoando o toque cálido de suas sandálias, num andar meio arrastado e úmido após a chuva do fim da tarde.

Seu caminhar já não era cheio do vigor de antes. Contudo, os passos seguiam calmos e firmes, um após o outro, mesmo que capengas para a esquerda, sequela das mazelas da idade.

Apesar de parecer cambaleante, o equilíbrio e a força, sempre seus guias, o faziam prosseguir contuso e absoluto em direção ao pedestal.

As sandálias seguiam determinadas, súditas no seu dever de levar aquele corpo para sua nobre missão: enviar uma mensagem de paz para o mundo.

Sabia que, apesar da solitude, milhares de olhos o acompanhavam. Os fiéis poderiam não estar em corpo, se faziam presentes em alma e atenção. O mundo o observava. Até mesmo os de pouca fé e os de deuses divergentes estavam de olho.

O velhote já estava acostumado a ser alvo da atenção alheia e isso não lhe carecia vaidade. Contudo, desta vez, ele tinha consciência de que os olhares eram diferentes. Não havia rostos físicos, mas ele sabia que existiam muitos corações a pesar.

No seu trajeto, apenas um chão frio da mesma terra que enterrava centenas de corpos, junto ao calor das lentes que o acompanhavam com toda gravidade, testemunhas oculares atentas do seu caminhar até o microfone.

O cair do sol entardecer ressaltava ainda mais as luzes do pedestal e das câmeras. Não eram as únicas luzes que brilhavam ali. A luz do homem cintilava, como nunca antes. Um brilho perfeito.

Olhos do mundo no velho homem.

O que dizer de tudo o que acontecia, em plenos tempos de quaresma? Qual mensagem passar ao planeta diante daquela situação de catástrofe mundial?

Em outros tempos, outras considerações seriam importantes.

Teria que fazer aquilo sozinho. Absolutamente único em corpo material. Representar e apresentar ao mundo a instauração sólida de seu novo modo de viver: o isolamento.

Sozinho, ali, naquela praça. 

Longe do toque. Distante de qualquer carinho ou retribuição humana. Longe do calor das comoções e reações. Além do público e das reverberações.

Aquela praça que já fora tão cheia de vida e fiéis, de todos os cantos do mundo, agora representava o vazio das almas perdidas.

O homem foi ao microfone, supérfluo que poderia até ser descartado. Qualquer um do outro lado da praça o escutaria em bom tom. A tecnologia faria seu papel fundamental agora naquela guerra: levar a imagem do homem absolutamente só naquela praça.

O que ele disse, nem prestaram atenção.

Não havia tanto a se dizer.

Bastava a sua presença. Sozinho naquela praça. Ele ali já dizia tudo. Carregava o pesar de mortes e despedidas, os arrependimentos de decisões de outrem. Levava o desespero, a dor, a angústia misturada à esperança em dias melhores e à certeza de que tudo que começa chegaria a um fim. 

Aquele homem, sozinho, naquela praça.

A vida jamais seria a mesma.

IZABELLA CRISTINA CUNHA

Primeira Menção Honrosa - Prêmio Flerts Nebó 2020 


DEPRESSÃO

 



            A solidão caminha pelas ruas sonolentas, silenciosa pela noite adentro. Não pergunta nomes, não bate nas portas nem precisa que elas se lhe abram. A solidão caminha silenciosa, como a névoa que alcançou todos os primogênitos, mas muito mais cruel, sem se preocupar em quem cairia em suas armadilhas. 
Como um animal peçonhento esgueiras e pelas sombras, age e ataca no silêncio quando se torna ainda mais forte, longe da luz. A solidão é uma dama de veludo que sem o menor pudor beija a face desprotegida com o beijo maldito que envolve e dissolve todos os sonhos da vida.

            Não há limites em sua busca frenética pela desgraça, vai de pensamentos a alcovas, de palavras a silêncio, da vida e da morte, sempre, independente de quem seja, abalar o coração, derrubar a alma. E de repente a solidão invade a distância e o tempo, torna as pessoas sem rosto, sem voz, sem sonhos.

...   ...    ...

Sozinho no banco da praça, debaixo da luz amarela de um poste antigo, o homem pensa em como se deixou iludir, como perdeu seus momentos de lucidez que o levariam ao paraíso etéreo que almejara desde menino. Gostaria de falar, mas não havia quem o ouvisse, não havia pessoas ao seu lado, nem na praça nem em qualquer outro lugar.

Envolvido pela névoa ele descobriu que não tinha mais palavras, as perdera todas no caminho de tantos anos até chegar àquele banco da praça. Ninguém o notava, tornara-se invisível como a avó de um texto lido no passado. Deixara-se tornar invisível, a solidão o tornou invisível num ataque de surpresa na linha do tempo de sua vida.

Era noite, como convém à solidão para entrar no coração das pessoas, envolvê-las em seus próprios pensamentos escuros tornando-as cada vez mais, seres únicos num mundo coletivo, tão únicos que não mais se enxergam.

Olhou para a luz amarela do poste e uma garoa fina começou a cair tornando a atmosfera mais fria, mais úmida, mais triste. Ninguém havia notado a sua ausência que já se tornara um tempo quase que eterno, ninguém havia notado a falta de sua voz contando estórias, pouco ou nada se lembravam de seu sorriso.

E quando ele buscava alguém na lembrança a tristeza o envolvia mais ainda, ele havia se tornado anônimo em sua própria casa, um paria do tempo perdido. Levantou-se e começou a caminhar, passos lentos, em direção a qualquer lugar. Lembrou-se de uma frase que dizia que a quem não tem um destino, qualquer caminho serve.

Talvez aquela rua jamais sentiria seus passos novamente, a lua encoberta não se lembraria mais de tê-lo visto, seus livros não seriam mais folheados buscando uma frase sequer.

Lentamente, encurvado e com os ombros caídos foi caminhando em direção a lugar nenhum, ou ao fim de todos os seus caminhos. Não havia mais nada a fazer, nada mais a dizer, nada mais a pensar. O coração se contraiu amargurado enquanto a tristeza tomava conta dos seus pensamentos.

Era um desconhecido numa fotografia velha e amassada. Nenhum recado, nenhuma saudade. Não restava mais nada a fazer, a não ser andar. Esgotara a sua cota de sacrifícios, esgotara todas as suas tentativas de se encontrar e encontrar tantas outras pessoas, não havia mais ambição, iniciativa ou sonhos. Ninguém perde o que não tem e ele tinha a certeza de que, depois de perder tudo ele atingira o estado do nada, apenas isso, um nada no meio da multidão. Lembrou-se do tempo de menino e um soluço doloroso emergiu de seu âmago. Parou, voltou-se e olhou na direção de onde viera.

E não viu nada, porque não havia mais nada. Mais nada…

ROBERTO ANTÔNIO ANICHE

Segunda Menção Honrosa - Prêmio Flerts Nebó 2020

 

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

A MAGIA DAS ENTRELINHAS


    

           Entre os espaços mágicos das entrelinhas que permeiam a nossa existência, o tempo, as décadas da vida, colorem e dão sentido para a monotonia de cada dia.

As descobertas da infância iluminam nossas entrelinhas, o não dito, captado pelas emoções deixam marcas indeléveis e ao mesmo tempo inefáveis!  As entrelinhas nos encantam com devaneios e sonhos que nutrimos a cada instante.

Na transição insidiosa e misteriosa para a adolescência, a sensação de permanência e imutabilidade das horas de criança se evanescem, e a magia das novas descobertas nos incitam às aventuras e realizações nunca imaginadas. Quantas entrelinhas correm no texto da juventude em que o real e o imaginário se mesclam, ora acentuando a realidade, ora prevalecendo a imaginação; e se derramam nos espaços vazios silenciosos das entrelinhas, mas repletos de fantasias.

A vida adulta nos enlaça e deixa a juventude para trás; sem ensaio enfrentamos o cotidiano! Com pressa, dançamos uma música desconhecida, e as entrelinhas das pautas da canção escrita não são pausas, mas soam vigorosas e fortes.

A nova geração aparece e promove instantes preciosos. Os filhos irão expandir inúmeras entrelinhas nas novas páginas da vida. Emoções marcadas pelo trabalho intenso de embalar, cuidar e guiar. Novos sentimentos, ainda desconhecidos, surgem e realçam lembranças que nos transportam de volta para nossa infância com tonalidades atenuadas.

Na convivência com netos, a magia retorna, e traz consigo a meninice escondida, para uma alma vivida, sonhada, amada. Na calmaria entre algumas ondas, do dia a dia, do mar das nossas histórias, nos entregamos aos encontros profundos, certeiros e inesperados.

Convivemos com recordações passadas e comemoramos esse delicioso romance que colore o espaço das entrelinhas das décadas da vida e irradiam muita energia que perdura, mesmo com as entrelinhas não vividas e deixadas para trás, não se perde a magia.

SUZANA GRUNSPUN

Texto vencedor da Super Pizza Literária SOBRAMES SP de fevereiro de 2021 com o tema "Entrelinhas".

sábado, 20 de março de 2021

PRÊMIO FLERTS NEBÓ 2019

 A Pizza Literária on line de 18 de março marcou a entrega do Prêmio Flerts Nebó para a melhor prosa apresentada nas reuniões de 2019: “Vassoura de Sombras” de Sérgio Perazzo. A Primeira Menção Honrosa coube a Helio Begliomini (com o texto “Entrelinhas”), tendo Sérgio Perazzo recebido a Segunda Menção Honrosa (“História de Um Cordão de Sapato”). Os textos podem ser conferidos nesta edição do “O Bandeirante”.

Agradecemos aos avaliadores: Francisco José Soares Torres (regional CE), Arquimedes Viegas Vale (MA) e Paulo Afonso Correia de Paiva (PE).


VASSOURA DE SOMBRAS


            Naquele canto escuro sempre havia um resto de sol que uma vassoura de sombras varria para depois do poente ou para baixo do tapete, conforme o caso.

         Dependia até se era horário de verão, do fuso horário, das tinturas do dia e dos ventos alísios, quer sudeste, quer noroeste, aquele que balançasse mais, sacudindo canoas e veleiros ancorados na baía, naquele braço perdido de mar, antes da lua se tornar espelho daquele fim de tarde.

         Quase todo dia era essa a hora em que nos encontrávamos sem precisar marcar com antecedência, sentados nas pedras em poses pensativas de Rodin, imóveis esculturas embebidas no marulhar das ondas a beijar nossos pés descalços.

         E ali ficávamos permanentemente e, se possível, por toda eternidade, adiando aquele resto de sol teimando em não perder o calor e o brilho.

         Como anteparo de tudo isso, a noite lutava para se impor, para substabelecer seu negrume antes mesmo da vela acesa, do lampião a gás, das lamparinas a óleo, das lâmpadas de mercúrio. Para isso, delineava cada perfil nascido do lusco-fusco, da obscuridade incessante, a imaginação mórbida trazendo de volta o Monstro da Lagoa Negra, do Loch Ness ou Jack, o Estripador, tropeçando no chão pedregoso das docas do cais.

         Só depois, os primeiros fantasmas já acalmados, nos dispúnhamos a esticar as pernas e aspirar profundamente o ar marinho. Só ainda depois, bem depois, as palavras se decompunham sussurradas, indefinidas, descosturando o silêncio. Só então a conversa se fazia presente, integrada à paisagem escura e à harmonia incessante da rouquidão das profundezas do mar, da superfície feita de espumas, descolando a areia de seu berço mole e áspero, amparada por cacos de conchas e escamas abandonadas ao movimento das marés e ao gosto do sal.

         Foi justamente nesta fugaz interposição da noite que, num repente, me deparei com a verdade dos seus olhos de um jeito como nunca tinha visto antes. Um instante de desproteção, uma espécie de estrabismo da alma, fortaleza logo retomada, imediatamente recuperada, prontamente revestida da máscara de sempre, como aquele resto de sol teimando resistir a uma vassoura de sombras. Tive a certeza que naquele momento eu amei e amei como nunca tinha amado, como nunca sonhara amar. Ver como nunca tinha visto. Romper com os limites entre dia e noite, terra e mar, mar e pedra, pedra e areia.

         Há resposta para isso ou só perguntas?  Me explique. Transcendência simplesmente? Exacerbação tipicamente romântica?  Utopia escancarada? Um acontecimento banal sequer arranhando o cotidiano? Uma fotografia em preto e branco? Ou a indescritível sensação do sentimento humano mais profundo, espelho de nós mesmos, neste mergulho abissal de sombra e luz?


SÈRGIO PERAZZO

Prêmio Flerts Nebó Melhor Prosa 2019 

ENTRELINHAS

 Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu.” (Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista ucraniana naturalizada brasileira.)


       Aprendemos que linhas paralelas jamais se cruzam quer dispostas a milhares ou milhões de quilômetros uma da outra, quer a frações de milímetros. Assim são as imaginárias linhas da macroestrutura do globo terrestre – do Equador; dos Trópicos de Capricórnio e de Câncer; e dos círculos polares Ártico e Antártico. Todavia caminhem lado a lado solitárias, quando próximas, ao mesmo tempo se tornam solidárias em suas
origens, em seus misteres e em seus fins.

Embora intangíveis, as linhas paralelas delimitam um espaço entre elas significativo, que não deve se confundido com o vazio do vácuo. Nele podem conter verdades explícitas, bem como albergar segredos inconfessos.

Não é difícil imaginar ao contemplar uma página de um caderno em branco, onde contém apenas um conjunto de linhas paralelas na direção horizontal, a quantidade de informações, lamúrias, suspiros, manifestações de ódio e de amor... que podem, pela mão do artista – escritor ou poeta –, preencher e adornar aquelas entrelinhas. Neste caso as linhas paralelas servem não somente de esteio a que se consigne um enredo, mas, tais quais as margens de um rio, acenam para manifestar uma origem... uma razão... um porquê, assim como conduzem o leitor a um destino... a um desfecho... a uma mensagem.

Certa feita, perguntado sobre como era criar uma obra de arte, o genial escultor, pintor, poeta e arquiteto italiano Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475- 1564), mais conhecido simplesmente como Michelangelo, humildemente respondeu:

“Dentro da pedra já existe uma obra de arte. Eu apenas tiro o excesso de mármore!”.

Se o escultor tira o excesso ou o supérfluo de um bloco de mármore ou de um tosco tronco de madeira para extrair e bem evidenciar a sua arte; o escritor escolhe, acrescenta, justapõe, contrapõe, coteja e concatena palavras, frases e parágrafos para melhor expressar suas ideias e sentimentos, compondo sua obra, dando vida e cores às imaginações contidas nas entrelinhas.

No conjunto de um texto, entrelinhas com poucas palavras ou frases, ou ainda que vazias, não deixam de indicar uma trégua... uma suposição... uma interpelação... uma reflexão... uma mudança de rota... um retorno ao passado ou uma projeção ao futuro.

Sim, as entrelinhas não são inermes ou não estão mortas. Por vezes hibernam à espera de alguém que as preencha, que as alimente. As entrelinhas falam! Elas se comunicam! Elas têm expressão viva e multicolorida não somente na razão direta da arte do escritor, mas também na destreza da introspecção do leitor. Quanto mais sensível ele for... quanto mais inserido no contexto ele estiver – verdadeira transposição ou transmutação de si na realidade que se lhe apresenta –, mais depreenderá e mais usufruirá a mensagem do autor através de suas entrelinhas.

Por entre as entrelinhas preenchidas, concatenada e parcimoniosamente com o cinzel da palavra escrita, estão contidos verdadeiros oceanos de informações, de conceitos, de encantos e de desalentos. Por elas não somente se alimenta a razão, mas também se aguçam os sentimentos e se descortina a vida!

Nas entrelinhas encontram-se também magistral e tacitamente os subentendidos.

Fábio José de Melo Silva, mais conhecido por Fábio de Melo (1971-), sacerdote, escritor e professor universitário, tem um pensamento que bem se aplica nesse particular: “Nas entrelinhas é que dizemos. Bom terapeuta é o que escuta o que omitimos”.

São nas entrelinhas que se encontram o substrato físico do exercício da arte de escrever. Se os trilhos de um trem determinam a origem e o destino de uma composição, são nas entrelinhas de um texto que se encontram – independentemente de seu tamanho –, o desenrolar de um propósito com início, meio e fim, ou até mesmo condensada toda uma saga de um acontecimento notório.

Nas entrelinhas transitam livremente o consciente e o inconsciente; o real e o fantasioso; o verdadeiro e o falso; o pessimismo e o auspicioso; o lógico e o inconsequente; o amor e a ira; o erudito e o chulo; o mensurável e o colossal; o explícito e o suposto; o cronológico e o anacrônico; o real e o fictício; o extraordinário e o banal; o atual e o extemporâneo; a razão e a abstração; o presente, o passado e o futuro!

Aduzo, uma vez mais, um pensamento lapidar e oportuno da renomada Clarice Lispector, já evidenciada em epígrafe: “Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O melhor está nas entrelinhas”.

Assim, nas entrelinhas os escritores não somente são evidenciados, mas também ressuscitados e até eternizados; assumem a ribalta; seguram a batuta; protagonizam o espetáculo; adquirem voz e vez; ecoam suas ideias; são calmamente escutados; avaliados e julgados: glorificados ou repudiados, aplaudidos ou vaiados, mas, sem dúvida alguma, exercem a cidadania e a liberdade de expressão no areópago do tempo!

HÉLIO BEGLIOMINI

Primeira Menção Honrosa doa Prêmio Flerts Nebó 2019

 

 

HISTÓRIA DE UM CORDÃO DE SAPATO


 (Para Clara)

 Tudo tem história. O marreco de madeira em cima do piano, presente de aniversário. O pote de louça na bancada da cozinha, vestígio de uma feirinha de praia de um verão impecável. A correntinha de ouro com santinha pendurada no pescoço, lembrança da madrinha diluída no tempo. Afeto por afeto, carinho por carinho meio embaçado pelos anos, entrevistos pelo vão da tampa da mala de caixeiro-viajante, aquela de fecho quebrado, ainda ostentando o selo turístico do destino de sua última viagem. Um pequeno gesto, um passo em falso, a chuva que caía, o sono que não vinha, o sonho sem desfecho. Tudo tem história.

 Sim, chovia. Não muito, mas chovia. O suficiente para molhar duas pessoas, pai e filha, abrigando-se no mesmo e único guarda-chuva na saída do restaurante e a caminho do estacionamento.

 Nada foi dito, mesmo porque aconteceu muito rápido e durou toda eternidade.

Antes de se abaixar passou gentilmente o guarda-chuva ao pai, abaixou-se sem qualquer previsão e esforço e amarrou o cordão da botinha de camurça do pé direito do pai que estava desamarrado, sem que ninguém tivesse notado, essa música sem orquestra com todos os acordes perfeitamente encaixados. Feito isso, levantou-se e retomou o guarda-chuva dos dois rumo ao pátio do estacionamento.

 A tal botinha estava há anos guardada na prateleira inferior do armário embutido, surpreendentemente ainda nova, mas com um dos cordões meio esgarçado e meio roído, mastigado. Ir ao sapateiro, nem longe era, comprar um novo foi sendo adiado e adiado por pura preguiça, por puro esquecimento, como fazemos com tantas coisas que acabam abandonadas e condenadas ao degredo da memória por pequenos detalhes triviais ou achadas no fundo de uma caixa de papelão em caminhão de mudanças.

 O cordão, que comprei, enfim, por impulso, era novo, portanto, e de vez em quando escorregava sozinho e desamarrava o sapato. Foi numa dessas que a filha notou o pé desamarrado na saída do tal restaurante. Vocês já devem ter adivinhado que o pai e a filha dessa história, sou eu e minha filha na vida real. Daí a dificuldade de transmitir tudo que senti naquele momento abençoado.

 Primeiro, a naturalidade em cuidar de mim sem que eu soubesse, sem que eu pedisse, eu que na vida, já virou mania, estou sempre cuidando dos outros, dentro e fora da profissão. Segundo, porque não me pediu licença e agiu com a naturalidade e confiança de que eu precisava ser cuidado como algo que simplesmente é assim. Faz parte do ciclo vital. Terceiro, porque estou envelhecendo e preciso de ajuda para viver, para tentar entender e me adaptar a este mundo digital que me desafia a todo momento e, por isso mesmo, dependo até de um simples cordão de sapato.

 Mas o que não dá para descrever, por mais que eu tente, porque é coisa entre eu e ela, é a magia do momento, repito, a naturalidade absoluta como tudo aconteceu. Ali, para mim, mudou a vida. Valeu a pena viver tudo de bom e de ruim durante toda a minha limitada existência, para alcançar este momento que resume tudo, tudo que dois seres humanos podem viver entre si, indelével como uma tatuagem mapeando o corpo e delineando a alma sem qualquer maquiagem, pura entrega sem qualquer estardalhaço, um toque de magia da mão da artista amarradora de sapatos em plena concepção da arte como significado em si mesmo ou como o achado da beleza pura.

Uma virada de jogo amarrando a vida com o novo cordão de sapato num simples gesto de amarrar a síntese de um e de outro, o gesto de amor mais bem acabado que envolve a aceitação plena de todas as diferenças e todas as afinidades ocultas no fundo de cada um de nós, um mergulho nas alturas, na alma de todas as coisas, sem túnel de vento e sem paraquedas.

SÉRGIO PERAZZO

Segunda Menção Honrosa Prêmio Flerts Nebó 2019

 

PRÊMIO BERNARDO DE OLIVEIRA MARTINS 2019

 Na Pizza Literária on line de 18 de março de 2021, foi entregue o Prêmio Bernardo de Oliveira Martins de 2019 para a poesia “Ecos Poéticos” de Márcia Etelli Coelho. Houve um empate para a Primeira Menção Honrosa: Luiz Jorge Ferreira (Berro Verde) e Márcia Etelli Coelho (Brumadinho). A Segunda Menção Honrosa destinou-se a Luiz Jorge Ferreira (Guardanapo Lilás).

Nossa gratidão aos avaliadores: Helena Lúcia Sória (PR), Luiz Coutinho Dias Filho (PE) e Hilmar Ribeiro Hortegal (MA). 


ECOS POÉTICOS



Às vezes quando escrevo eu escuto um eco

Ora forte como bichos em fuga,

ora tênue como um canto tristonho.

Não vem do abismo no meio da rua

nem da montanha que encontro em sonhos.

 

Quando o mar sem ondas conhece

o silêncio de ser vespertino,

é aí que ele, de novo, aparece,

despontando, não sei, de qual ninho.

 

Então eu escrevo, lavro palavras,

recrio um mundo, colho ilusões.

Diário de dúvidas, riscos, erratas,

parágrafos plenos de indagações.

 

Eu pergunto e Deus... ou não responde

ou sou eu que não entendo os sinais.

Mas o eco, de certo, sempre me ouve

desde o tempo em que existiam quintais.

 

As palavras ecoam alentos... lentos...

Eu escrevo e a dor descompassa... passa...

pois escuto ao findar o chamado

és amado... amado... amado...


MÁRCIA ETELLI COELHO

Prêmio Bernardo de Oliveira Martins  Melhor Poesia 2019


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