sexta-feira, 29 de novembro de 2019

PRIMAVERA

Por: Mércia Lúcia de Melo Neves Chade
MEDICINA DO TRABALHO

Em setembro
Começa a primavera
Não tenho só
Uma primavera

Tenho muitas primas
Chamadas Vera
E também
Uma tia e muitas amigas Vera

Que não são
Primas
Umas nem se conheceram
Nem se verão

Eu também tenho
Muitas primaveras
Já passei pelo verão
Outono

Nos anos
Estou mais
Para Outono e Inverno
Que inferno!

Agora decidi manter
Meu parecer
Sempre na primavera
Viver

Com as primas
As amigas e todas as Veras
Até um dia 
Quando morrer e desaparecer sem elas

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

1666

 Por: Walter Whitton Harris
ORTOPEDIA

Há mais de três séculos, uma cidade foi assolada por 
uma catástrofe sem precedentes, que culminou em uma bênção para a Nação...

Fatídica noite de setembro
Mil seiscentos e sessenta e seis,
Do negrume surgem as primeiras labaredas,
em pontos diversos da metrópole de reis.

Londres fedorenta e malcheirosa,
Casas de madeira de sacadas estreitas
Imundície absurda por toda parte,
Infestação de ratos, as ruelas mal feitas.

Avançam pela cidade as chamas
Lambendo, lambiscando, ruindo
Tornando-se grande a conflagração
Tudo pelo seu caminho, destruindo.

Presença funesta nas casas e porões
Londres é partidária do mal,
Transmissores da peste negra
Doença de grande sacrifício mortal.

Calor intenso, poucas vítimas fatais,
Quatro, de fato, em duzentos mil.
Incontáveis ratos mortos no fogo
E afogados no Tâmisa; é a morte do vil!

Igrejas, prédios do governo,
Treze mil casas tombadas,
Inclusive a Catedral de São Paulo,
E renasce nova Londres daquelas queimadas.

Na reconstrução de Londres, levou-se em conta o que fora a cidade anteriormente
 e  procurou-se aprimorá-la.  Esta é a Londres que se conhece hoje...

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

IMIGRANTE

Por: José Francisco Ferraz Luz
DIREITO

Falar do imigrante é voltar a História Sagrada,
nos idos tempos do Êxodo do povo hebreu,
em direção a Terra Prometida aos pais de nossos pais.

O povo do século XXI está a caminho da felicidade,
prometida no Paraíso na criação do mundo em Gêneses.
Porém os poderosos abatem os humildes estrangeiros.

Os refugiados de sua pátria são perseguidos politicamente,
quando não, carente de suas primeiras necessidades humanas.
Carentes de apoio social, de tratamento médico-hospitalar.

As nações prezam mais os animais domésticos ante o ser humano.
O governo subsidia os bens de consumo, em detrimento do alimento.
Os impostos penalizam os assalariados em benefício do capitalista.

O comunismo sobrevive até que o capital privado desvanece.
Os imigrantes fogem do comunismo como o diabo da cruz!
Pois eles sabem que viver todos por um é sustentar um por todos.

O povo carece de dignidade, princípio da sobrevivência social,
e pela dignidade percorrem terras e mares a procura do ideal.
Acolhimento da pessoa e da família são princípios basilares do Direito.

Quem ama o próximo, ama a Pátria, a família, enfim, ama a Deus.
Princípio basilar da convivência: “amar o próximo como a si mesmo”.
Dar de si é acolher o próximo como sua semelhante criatura do Criador.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

MINHA PRIMEIRA VISÃO DE MUNDO

Por: Juarez Moraes de Avelar
CIRURGIA PLÁSTICA

Quando nasci, a humanidade já sofria há três anos as terríveis atrocidades da II Guerra Mundial, período dos mais sangrentos de sua história. Naquela época, os meios de comunicação eram rudimentares, precários e lentos. Quando a notícia de um episódio sangrento chegava até o povo, outros de maior gravidade já haviam acontecido. Com efeito, as informações de que se dispunha nunca refletiam a situação do momento.
Contudo, a notícia do fim da Guerra, em agosto de 1945, com a assinatura da rendição japonesa aos americanos, foi recebida por todos com alívio. Portanto, três anos após minha chegada ao mundo, o anúncio do fim das hostilidades bélicas repercutiu rapida-mente em todos os cantos do país.
Quando me esforço para acessar informações sobre minha vida precoce, deparo-me com alguns episódios marcantes. A II Guerra Mundial é um deles com as páginas de tristeza e sofrimento. Entretanto, o primeiro registro armazenado em minha memória é a maravilhosa imagem de minha mãe grávida, com o meu irmão caçula, Jozimar, em seu volumoso ventre, quando eu ainda tinha três anos de idade. Minha saudosa mãe era dotada de boa estatura física, pele clara, olhos castanhos, cabelos não muito longos, que alcançavam os ombros; trajava vestes alvas, longas, abaixo dos joelhos, em que sobressaía o abdome proeminente. Em minha visão infantil, ela apenas parecia mais “gorda” que as demais pessoas. Contudo, certo dia, para surpresa minha e de meus irmãos, ela entrou em casa sem a aparência opulenta. Nos braços, trazia um bebê envolvido em uma coberta branca com detalhes azuis. Poucos dias antes daquele memorável episódio, eu havia completado quatro anos, e me lembro de nossa alegria com o nascimento do quinto filho de meus pais. Assim, em nossa família, éramos sete: papai, mamãe e nós, cinco irmãos.
Ainda cedo foi embalada por sonhos de futuro. Cada um de nós sempre demonstrou desejo de estudar e concluir cursos uni-versitários. Para meus pais, tais desejos ensejavam elucidativas conversas sobre atividades como Engenharia, Medicina, Direito, Pedagogia, Economia, Veterinária e Agronomia, que eram as profissões disponíveis aos jovens interessados na universidade. Essas profissões eram temas de debate, e nós, crianças, anunciávamos que escolheríamos esta ou aquela faculdade. No meu caso, ainda precocemente, cada vez mais se acentuava o desejo de tornar-me médico.
Enquanto meus irmãos mais velhos frequentavam o grupo escolar, eu, em razão da pouca idade, ficava em casa em companhia de mamãe, no desempenho das obrigações domésticas. Assim, desde minha infância já me identifiquei com o trabalho, razão pela qual sempre envidei esforços para realizar as tarefas com dedicação e empenho. Essa convivência com mamãe despertou em mim a curiosidade pela fita métrica, instrumento valioso para o trabalho exercido por meus pais. Inicialmente aprendi a ler os números da fita; em seguida, memorizei sua sequência, e depois aprendi a dobrá-la para obter a soma de suas metades e entender o significado da multiplicação. O mesmo ocorreu com as operações de divisão e subtração. Coisas elementares, mas para um garoto de cinco anos, fora do ambiente escolar, tais descobertas eram semelhantes à mágica. Minha curiosidade e o desejo de ajudar mamãe levaram-me a tentar algumas anotações, sendo alfabetizado por ela. Que alegria rememorar aqueles momentos de aprendizado, de descobertas tão importantes em minha vida!
Meu vínculo formal com a escola começou aos oito anos de idade e, graças às aulas de minha mãe, pude ingressar no segundo ano do curso primário (hoje chamado Ensino Fundamental). Com alegria, em companhia de Jomázio e Maria Helena, que carinhosamente chamava de Ena, apelido que se mantém até hoje, punha-me a caminho do grupo escolar. Durante o curto trajeto invadia-me um turbilhão de sentimentos, uma incrível sensação de felicidade, ao constatar que frequentar a escola era o passaporte que me levaria, um dia, a cursar uma Faculdade de Medicina, desde que me empenhasse para isso.
Como foi bom ser embalado por sonhos! O caloroso ambiente familiar era orquestrado por meus pais, que não mediam esforços para alimentar nossos sonhos infantis. Eles nos fizeram entender que para alcançar nossos projetos de vida era necessária dedicação aos estudos. Assim, fomos orientados a encontrar nas salas de aula e nos livros as respostas para nossas inquietudes na busca de conhecimento. No meu caso em especial, percebi que estudar com afinco era etapa indispensável para realizar o sonho de ser médico. Felizmente, após mais de seis décadas, posso constatar que meus objetivos foram alcançados. Melhor ainda é vivenciar a concretização de sonhos trans-formados em realidade pelo meu trabalho, um veículo para levar uma mensagem de fé a meus semelhantes que necessitam de meus conhe-cimentos, habilidade manual e arte para realizar a transformação física e psicológica de que necessitam.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

VIDAS EM JOGO

Por: Aldo Cesar Ribeiro Carpinetti
MEDICINA DO TRABALHO

Ele teve um pressentimento de que aquele plantão seria agitado; o suor já abria caminhos em seu tórax.
— Boa noite doutor, tudo bem? O movimento está bombando. Já tem duas crianças febris para o senhor avaliar, a mãe acha que a filha está com meningite. São todas dramáticas,
— Pode deixar, vou vê-las. Pede para a Dona Terezinha trazer uma caneca de café forte, para não perder o costume.
 — Eu peço. Ah, seu colega da emergência pediu para avisá-lo que vai atrasar, para o senhor segurar a barra até a chegada. Trânsito ruim de novo.
— É sempre assim. Bem, vamos ver. Com este calor o povo sai para tomar uns drinques e fazem besteira na rua, com carro ou moto.
— Verdade, daqui a pouco aparece os bebuns, isto se não aparecerem os acidentados.
— Vira esta boca para lá, Claudinha.
Ele entra na ala das crianças.
— Boa noite senhora. O que houve com esta lindinha, toda pálida?
— Ah doutor, o dia todo vomitando, só deu febre uma vez, já olhei na internet e vi que pode ser muita coisa.
— Verdade, mas vamos com calma, vou examiná-la e pedir alguns exames.
— E o garoto aqui, de uniforme de Batman? Já vi que está febril também.
— Tá sim doutor, febre desde ontem, não come nada.
Aparece na sala Claudinha.
— Doutor, estão te chamando na emer-gência de adultos. Um professor aposentado, 92 anos, parece bala perdida, está sangrando e um rapaz de 22 anos, trazido pela polícia, troca de tiros, dizem que tentou violentar uma criança.
— Vamos ver quem está mais grave.
— Os dois estão, não vai dar tempo de atender, tem que escolher um deles.
— O critério vai ser o de sempre, aquele que tem mais tempo de vida e sobrevivência.
— O senhor é quem sabe. Salvar aquele traste de indivíduo, sabendo que mais tarde, vai aprontar de novo?
— Claudinha, nossos plantões na periferia tem sido assim e eu não posso mudar esta realidade.
— Eu sei doutor, a mesma história de sempre. Então tá, eu e as colegas da enfer-magem só vamos obedecer seus procedimentos. Prometo que não vou dar opinião.
— O caso do rapaz é cirurgia urgente, pela perfuração pegou alguma artéria importante, avise a equipe.
— Já estão preparando a sala, vamos subir com ele. Ah, acabou de chegar uma paciente com parada cardíaca, o que fazemos? A recepção disse que é uma usuária de drogas.
— O meu colega ainda não chegou? Vou ver se ainda dá tempo de ver aquele senhor.
— Não se preocupe com ele, já acabou. As crianças estão esperando.
— Eu sei.
— Ah, sua esposa mandou mensagem, quer saber se o senhor prefere pizza de mussa-rela ou portuguesa para entregar.
— Qualquer uma, Claudinha. Não estou com cabeça para escolher.
— Então tá, vou pedir portuguesa sem cebola, eu não gosto.
— E o meu café? Esqueceram de mim?
— A dona Terezinha saiu correndo para casa, o marido passou mal, está sozinho.
Ele não estava gostando de nada disto.  Atender sem café... parece que faltava alguma coisa, tipo assim, um estímulo para continuar tudo aquilo.
Alguns minutos depois, chega seu colega de plantão:
— E aí, tudo bem? Desculpe, este trânsito é um inferno. Ah, nosso time está jogando, já viu na TV quem está ganhando?

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 324 - NOVEMBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 324 - Novembro de 2019

Editorial: 

A morte na literatura 

Logo no início do mês de novembro, reverenciamos os entes queridos falecidos e a morte retorna como tema de reflexão.
Na Literatura ela constitui um importante instrumento de dramatização e por vezes determina o sucesso de um livro. Com certeza a história de amor de Romeu e Julieta não teria o mesmo impacto se os enamorados fossem felizes para sempre.
A morte pode ser narradora como em “A Menina que Roubava Livros” de Markus Zusak. Ou estar associada à solução de crimes nas tramas que consagraram Agatha Christie e Arthur Conan Doyle e nos mistérios de Edgar Allan Poe.
O poder criativo de Machado de Assis deu voz a um personagem morto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” enquanto Liev Tolstoi nos conduz a refletir sobre o sentido da vida no livro “A Morte de Ivan Ilitch”.
A morte é tão necessária que José Saramago em “As Intermitências da Morte” aponta os problemas de um mundo em que ninguém morre. Na poesia, não há como não se emocionar com João Cabral de Melo Neto em que “a morte severina ataca em qualquer idade e até gente não nascida”.
A morte de fato é um enigma “que chega cedo pois breve é a vida” (Fernando Pessoa), “um poderoso vento” (Cecília Meireles), “um regaço como clausuro de paz” (Casimiro de Abreu) “que vem de longe do fundo dos céus” (Vinicius de Moraes) e que “talha as estátuas e a engendra a glória” (Guilherme de Almeida).
Manuel Bandeira ouviu a morte sorrateira batendo à porta, provocando medo, mas que no fundo “era a doçura da amada que amara com mais amor”. Fazendo parte do ciclo natural da existência, a morte é bem-vinda na Literatura.
Mas a temida “morte em vida” também pode ocorrer com os livros. É quando eles ficam em um canto sem terem sido lidos, às vezes nem sequer folheados. Depende de nós evitar que isso aconteça. Por isso, neste mês de novembro em que refletimos a importância de viver o dia a dia, vamos colaborar para que cada livro também cumpra o seu destino? Vamos?

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

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O BANDEIRANTE - NOVEMBRO 2019

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

EXTRAORDINÁRIO - A FAMÍLIA

Por: Suzana Grunspun
PSIQUIATRIA
     
      A família de August, o menino do filme Extraordinário, tem uma boa convivência, mas quando as dificuldades aparecem mostram-se ambivalentes, pois trocam afeto entre si e ao mesmo tempo se mostram disfuncionais. Não podemos esquecer do relevante papel da mãe, pai e irmã; solidários, porém, protetores diante das dificuldades. Acompanhamos o quanto esse núcleo promove uma certa infantilização em Auggie que amadurece ao longo de sua jornada. Sua volta para casa, no primeiro dia de aula é turbulenta e sofrida. Muito bem ilustrada na cena do diálogo com os pais, eles lhe dão a possibilidade de desistir da escola por entenderem as grandes dificuldades inerentes à aparência do filho. A decisão do filho é de continuar; ele sente a necessidade de crescer e se desenvolver e admite que precisa afastar-se de sua vida em casa, da professora –  mãe e ter novos professores.
Os pais dispensam muita atenção ao Auggie que é o centro do universo e sacrificam um olhar mais cuidadoso para a irmã Olivia, na intimidade chamada de Via, que é colocada na situação de compreensiva e que pode abandonar suas próprias necessidades em detrimento das necessidades imperiosas do irmão.
A mãe deixou de lado sua vida profissional de desenhista e sua pós graduação, passa só a fazer figuras do menino, tudo por causa de Auggie. Ela também sente não estar dando conta do seu projeto familiar com receio dos possíveis fracassos do filho, no entanto, eles com seu amor são também modelo para outras crianças, como uma menina, a melhor amiga de Via, que se afasta por inveja desse núcleo familiar de muita ternura e cumplicidade.
Esse amparo familiar transmite segurança para Auggie enfrentar, nos dias que seguem, a agressividade dos colegas da classe ou o isolamento que sente durante o intervalo das aulas. Na escola ele evoca personagens do clássico filme Star Wars, de George Lucas. Esses personagens permeiam muitas cenas e inserem questões importantes para se refletir. Ora ele se depara nos seus devaneios com personagens que representam o mal, ora com personagens que são representantes do bem e com todos eles se identifica por serem figuras estranhas mas também heróis consagrados do cinema. Esses personagens que são ligados às brincadeiras com o pai aparecem em sua mente como apoio para situações conflitivas e facilitam a sua elaboração para um caminho da superação bem como no seu empenho em se socializar.
Aos poucos a família se ajusta à nova condição e acontece uma modificação na vida  de todos. A separação de Auggie do núcleo familiar gera individuação da mãe e de Via, cada uma com suas conquistas. A finalização da tese da mãe e a apresentação de Via no teatro da escola, ocasião em que  todos vão reconhecer e aplaudir sua encenação, como a reaproximação da melhor amiga e também a conquista de um namorado. Auggie também amplia sua socialização e consegue expandir seu grupo de amizades, sendo reconhecido como amigo e companheiro  de viagens.
O filme é um convite para se refletir como os aspectos emocionais podem expressar-se positivamente se houver apoio para as crianças superarem suas dificuldades e melhorarem sua auto estima. Finalizo lembrando que a inclusão de uma criança quando bem trabalhada pelo ambiente facilita o reconhecimento e iden-tidade de cada uma, proporcionando desen-volvimento dos potencias herdados e das capacidades adquiridas e auxiliando dessa forma na realização humana.
________·
*O filme Extraordinário, dirigido por  Stephen Chbosky, é a história de um menino, August Pullman (Auggie) de 10 anos que é portador da Síndrome Treacher Collins.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

DESEJO E AMOR

Por: Mário Nilton Pinto Werneck
CARDIOLOGIA

Tens o meu amor
Tens o meu desejo
Tens a minha carne
Tens a minha alma
Somos dois em um.

Miro em seus olhos
O amor do universo infindo
Aguardo em seus braços
Aconchego da paixão desenfreada

E me encontro
Nesse sentimento intenso
Onde a lua e o sol realizam seu amor
Já há tanto descoberto.

És a consecução da imagem divina
E por fim, és a minha morte
Em cada destempero do gozo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O DIA DO MÉDICO

Por: Manlio Mario Marco Napoli
ORTOPEDIA

      O dia dezoito de outubro está intimamente ligado à evocação de Lucas, médico, pintor e santo. São Jerônimo (século V) atribui distribuição dos símbolos pelos Evangelistas, segundo as características dos seus diferentes trabalhos: a São Matheus, o querubim de aspecto humano; a São Marcos, o leão; a São João, a águia e, finalmente, a São Lucas coube o touro, porque seu Evangelho começa com o sacrifício de Zacarias e demonstra o Sacrifício de Jesus pela Humanidade, sendo o touro o emblema do sacrifício entre os povos da Antiguidade.
      Para Antonio Castilho Lucas, citado por Eurico Branco Ribeiro, o maior cultor de São Lucas entre nós, o touro evoca a paciência para o trabalho, a constância e a força, assim como a sua ruminação do alimento significa a meditação das ideias.
      Neste dia dedicado aos médicos, cujo patrono é São Lucas, alguns pensamentos vindos de um indivíduo prestes a encerrar sua carreira médica e universitária, necessariamente devem ser voltados aos jovens médicos, mesmo porque certamente são os mais indefesos às mudanças ou novas proposições.
      Assim, dirijo-me aos jovens colegas, na esperança que eles possam ainda reformular e tentar a mudança na nossa atual não confortável situação de médicos:
     “Sejam pacientes em seu trabalho, auscultando, compreendendo e perdoando antecipadamente qualquer desobediência, inconstância ou falta de responsabilidade de seus clientes, familiares ou de pessoas que os cercam. Sejam constantes em sua faina diária e jamais abandonem os que procuram sua arte”.
     “Sejam fortes perante os embates que fatalmente virão em suas carreiras e os enfrentem. Ruminem suas ideias, porque meditando sobre suas condutas, talvez errem ou prejudiquem menos seus pacientes”.
    “Enfim, sejam humanos e sintam que na área da Medicina deve haver, fundamentalmente, o amor ao próximo, o desprendimento e o saber sofrer junto”.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

SAUDADES

      
Por: Aida Lúcia Pulin Dal Sasso Begliomini
ENGENHARIA

      Subi os seis andares já quase sem fôlego; no penúltimo descansei um pouco e mudei a sacola de mão.
      Foi a terceira vez esta semana que o elevador parou de funcionar. Xinguei calado o porteiro, o síndico e até mesmo meu vizinho de porta que acabara de colocar seu lixo fedorento no hall dos apartamentos. A semana estava só começando e tudo estava dando errado. 
  Meu carro estava no conserto, o metrô lotado que peguei parou na estação por algum acidente no trajeto... Parece que alguém se atirou nos trilhos e a continuidade da viagem estava sem previsão em médio prazo, me obrigando a chamar um Uber. 
Eu e uma grande parte dos passageiros tivemos a mesma ideia e adivinhem... Mais tempo de espera e aumento do valor da corrida... Fazer o quê... Seria o mais viável no momento.
Quando chegou, sentei e descobri que o motorista era um engenheiro que havia perdido o emprego devido a idade, mais de cinquenta anos e estava com dificuldades em conseguir nova colocação, optando por esse trabalho por necessidade financeira e flexibilidade de horário.  Bem humorado, me ofereceu água e ainda comentou que hoje em dia tinha mais engenheiro trabalhando no Uber do que pagando o CREA.  Achei graça e relaxei um pouco apesar do tráfego intenso.
Da janela observava como a cidade estava esburacada e feia. Gente perambulando pelas ruas, mal vestidas, sujas, algumas envoltas em cobertores apesar do calor, nitidamente drogadas. Outras sentadas no chão cozinhando em improvisados fogões, rodeadas por crianças e cachorros. Lamentei que uma cidade do porte de São Paulo estivesse tão maltratada, mesmo após a mudança do partido político e ideologia. Perto de casa lembrei que a geladeira estava vazia e passei no mercado para comprar alguma coisa.
Enfim... tentei abrir a porta , forcei um pouco e a chave quebrou. Que azar! Era só o que me faltava. Porém para minha sorte lembrei que hoje era o dia da faxineira e que ela sempre deixava a chave na portaria. Chamei o zelador pelo interfone do hall e pedi que me trouxesse a chave e também me ajudasse a retirar o pedaço que restou dentro da fechadura.
Meia hora depois estava abrindo a porta e sendo recebido entre pulos e latidos pelo Bob, fiel companheiro que adotamos meses atrás após ele ter nos acompanhado quadras e quadras em uma caminhada num domingo cinza e frio.
Depositei as compras na pia da cozinha, troquei a água e completei a ração, lembrando então da pilha de correspondência que não tinha sido aberta e estava acumulada num canto da mesa.
Olhei em volta. Tudo permanecia igual. Os mesmos quadros na parede, plantas no terraço, flores na bancada ao lado da mesa de jantar, almofadas soltas e coloridas nos sofás. 
Pela janela entreaberta uma brisa fresca percorreu o ambiente e senti sua ausência, seu perfume, sua alegria espontânea e seu beijo ardente atiçando o meu desejo. Quanto tempo fazia que você partiu, horas, dias....não tinha certeza... . Sua falta se fazia notar em cada detalhe. Até os pequenos defeitos que eu vivia reclamando, agora não importavam mais. A saudade era imensa. 
Escolhi um bom vinho tinto de minha adega e fui para a varanda e de lá me distraí com a movimentação de carros no constante vai e vem. A noite veio chegando apressada como a vida é e no aconchego de nossa casa me senti protegido. O celular tocou. Olhei o horário no relógio e automaticamente converti para o fuso horário local e rapidamente atendi. Milhares de quilômetros distantes, separados por um oceano imenso pela tela vi você sorridente, feliz, escutei a sua voz carinhosa, saudosa e percebi quanta falta você me faz.
— Volta logo, querida...

sábado, 5 de outubro de 2019

GRATIDÃO CONSCIENTE

Por: Fátima Mendonça Jorge Vieira
DERMATOLOGIA

No momento presente tudo tenho.
Faço do agora o meu lar.
Inspiro, estou vivo.
Expiro, sinto gratidão.
Sou livre no agora!
Do passado, tenho o aprendizado.
No futuro, procuro a superação do Eu.
Ao acordar abro os olhos... eu enxergo! 
Sinto meu corpo entrando em movimento... 
tenho pernas, tenho braços, 
tenho um coração que bate no meu peito...
Inspiro e tomo consciência 
da minha primeira respiração.
Estou vivo!!!
Tomo consciência da minha existência.
Gratidão pelos meus ancestrais 
e todos que contribuem 
para minha existência na Mãe Terra.
Gratidão pelo meu corpo, 
receptáculo que a Terra 
me fornece para esta existência...
Gratidão pela família, pelos amigos, 
pelo trabalho, pela mãe natureza, 
pelos animais,...
Gratidão pelo alimento material 
e pela energia espiritual, 
que nutrem meu corpo e minha alma...
Tenho tudo de que necessito!
Tenho vida no momento presente.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 323 - OUTUBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 323- Outubro de 2019

Editorial: 

Medicos Escritores Famosos

No mês em que se comemora o dia dos médicos, este editorial homenageia os que, além de se formarem em Medicina, escolheram auxiliar as pessoas por meio da Literatura. 
Neste universo de grandes talentos, podemos citar Guimarães Rosa (Grande Sertão Veredas), Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), Jorge de Lima (Invenção de Orfeu), Moacyr Scliar (O Centauro no Jardim), Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos), Dráuzio Varella (Estação Carandiru), Içami Tiba (Quem Ama, Educa), Flávio Gikovate (Sobre o Amor e a Solidão), Roberto Shinyashiki (Sucesso É Ser Feliz), Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes), Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas), Archibald Joseph Cronin (Cidadela), Irvin D. Yalom (Quando Nietzsche Chorou), Michael Crichton (Parque dos Dinossauros), Oliver Sacks (Tempo de Despertar), Robin Cook (Coma), Tess Gerritsen (Gravidade), Michael Palmer (Medidas Extremas), W. Somerset Maugham (O Fio da Navalha), Fernando Namora (Retalhos da Vida de Um Médico), entre outros.
Não podemos também esquecer os consagrados poetas William Carlos Williams e Martins Fontes, o grande memorialista Pedro Nava, o excelente contista Anton Tchekhov e o premiado Antônio Lobo Antunes.
Mas, principalmente, este editorial homenageia os médicos filiados à SOBRAMES que, mesmo sem alcançar a fama mundial, persistem na difícil missão de conciliar os atendimentos médicos com a arte de escrever.
Sim! Existem vários caminhos para a promoção da saúde e a Literatura, com certeza, é um dos mais significativos. Um livro amplia o conhecimento, desperta emoções, alivia a solidão e auxilia o leitor a levar a vida com mais beleza.
Pois como afirma o também médico Aldir Blanc: “A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar.”



Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - OUTUBRO 2019

domingo, 29 de setembro de 2019

O MEU BAÚ

Por: Josias Pereira dos Santos
CARDIOLOGIA

Coisas da alma tenho eu guardadas
Num baú da saudade, envelhecido.
Mas que se adapta bem para as sagradas
Recordações de um tempo já perdido.

Recolhi todas elas espalhadas,
Recupero-as com amor enternecido, 
E me renovo delas suscitadas
O coração há muito umedecido.

Neste baú, difícil é escolher
Uma lembrança,  aquela que me traia
E me leve ao remorso de a perder.

É mentira... se bem eu as espraia
Cada uma por si é um bem querer
Que revive a minha alma que desmaia.   

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

NINHO PERDIDO

Por: Mário Santoro Junior
PEDIATRIA

       O seu consultório era no andar alto de um prédio, no centro de um bairro nobre da cidade. Ali ela trabalhava diuturnamente, em período integral. Meses antes dos fatos aqui narrados, caro leitor, ela resolvera substituir o sistema de ar condicionado do consultório. Modernos aparelhos foram instalados, muito mais eficientes do que aqueles antigos que ali estavam, modelo dito de parede. Não obstante resolvera, também, mantê-los no local, pois sua remoção exigiria um esforço a mais. Com o passar dos dias começou a perceber ruídos que, ao que parecia, vinham daqueles dispositivos, agora não mais funcionantes. Ruídos estes que foram rapidamente aumentando em intensidade, dando a perceber que era chilrada de pássaros. Verdadeira algazarra a ponto de atrapalhar o atendimento de seus pacientes, pois, médica atenciosa, era bastante diligente em suas funções. Por diversas vezes tentou afugentá-los, mas sem sucesso. Concluiu que era necessário remover as referidas máquinas. Aproveitou uma semana em que por ter que atender outro compromisso não estaria no consultório. Contratou profissionais que retiraram o velho e desgastado aparelho e em seguida repararam a parede além de terem efetuado o novo revestimento dela.
Na data aprazada voltou às suas atividades e gostou do que viu. Porém notou que ao final da tarde, todos os dias, no parapeito de sua janela surgiam três passarinhos que, como espreitando para dentro do consultório, rapidamente fugiam quando ela se aproximava deles. Foi então que lembrou de haver tido sido informada de que, quando da retirada do velho aparelho, havia um ninho de pássaros contendo estes três ovos. Assim, pensou, estariam eles a procura do ninho perdido?
  Num dia em que estava particularmente alegre, pois mais um neto havia chegado à sua família – e a chegada de um neto representa a vida que se pereniza por meio de nossos descendentes- percebeu, como sempre ao final da tarde, que os três passarinhos estavam no parapeito da sua janela. Foi então que ela notou que eles não mais piavam. Tristeza profunda pensou, a ponto de calarem seu canto? E, de repente, afloraram do mais profundo de seu inconsciente sentimentos confusos, uma mistura de culpa, dor e arrependimento. Teria ela sido a causa do que para ela pareceu ser uma tragédia?
Rapidamente lágrimas furtivas rolaram na sua face e ela se prostrou diante da imagem da Santa de sua devoção, imagem que há muitos anos a acompanhava. Baixinho orou e pediu perdão a Deus.
Na tarde seguinte e em muitas outras que se sucederam ela não mais os viu em sua janela.
Aos poucos ela, então, compreendeu sua mensagem.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

MAGIA & ELEVADOR

Por: Sônia Andruskevicius de Castro
MEDICINA INTENSIVISTA

Magia

Um dia 
Tirei da cartola
Um sol amarelo
Que joguei pro alto
E se prendeu no céu.

Depois
Lentamente
A primavera 
Vestida de flores.

Ainda tirei da cartola
O canto de um rouxinol
E um pássaro invisível
Que realmente voou entre as nuvens.

***

Elevador

Com o cabelo escondeu o rosto
Com o desvio do olhar, a lágrima.
Lutando com seus mistérios
Em poucos minutos
Envelheceu alguns anos.
Uma mulher chora de tristeza
Pensamentos silenciosos
Passeiam pelo elevador.

sábado, 14 de setembro de 2019

FALANDO DE RUGAS

Por: Lúcia Edwiges Narbot Ermetice
DERMATOLOGIA

      Desde tempos imemoriais o homem busca o Elixir da Eterna Juventude, bem como a Pedra Filosofal, que transforma qualquer metal em ouro. Eterna juventude e beleza, sonhos da Humanidade.
Nos tempos de antanho, talvez fosse mais fácil manter o aspecto jovem: morria-se jovem! Não havia tempo para que as marcas do existir aparecessem. Ainda assim, utilizavam-se artifícios para embelezar, poções para cuidar da pele. Quem nunca ouviu falar dos banhos de leite aos quais se dedicava Cleópatra?
       Neste século XXI, a expectativa de vida aumentou. Melhorias na Higiene, obras de Saneamento Básico, progressos científicos e tecnológicos na Medicina, propiciam vida mais longa aos que a eles têm acesso. Vive-se mais e, assim, o Tempo agora tem tempo para deixar suas marcas.
       Quem vive mais, é óbvio, envelhece. E o homem quer viver mais, mas não quer envelhecer, isto é, ter a aparência de velho. Por isso, sai à luta para buscar recursos com que resolver o paradoxo.
      Não à toa, uma das indústrias que mais se desenvolveu, foi a da Cosmética. Auxiliada por sua companheira também desenvolvi-díssima, a Publicidade, anuncia seu produtos. “O creme X elimina suas rugas, devolve sua juventude, em apenas sete dias. Experimente e comprove!” Quem não deseja milagres? E o creme X vende mais que pão quente.
        Ora, cuidar do corpo é um dever. Afinal, ele é o instrumento para a interação com o mundo.
      Diziam os antigos: “Mens sana in corpore sano.” O problema, nos nossos dias, é que a mente ficou insana no quesito cuidar do corpo, e a vaidade predomina. Chegou-se às raias do exagero.
      Caras “botocadas”, preenchidas, até deformadas. Muitas enfeiadas, tornadas irreconhecíveis. Sem expressão, sem indivi-dualidade, sem identidade.
    Inevitável o questionamento: como se sentem estas pessoas quando se olham ao espelho? Reconhecem-se ou não?
      Será que vale a pena modificar-se tanto, recusar-se a aceitar o Tempo que se escoa? Cuidar-se, enfeitar-se, sim. Mas há que haver o equilíbrio. Envelhecer é uma das leis da Natureza, e estas não admitem recursos a instâncias superiores. Cumprem-se e pronto, doa a quem doer.
      Rugas, manchas, são marcas que a Vida, em seus embates e alegrias, deixou no corpo humano. São a prova da coragem e da luta no viver, o símbolo da sobrevivência. A única alternativa que o homem tem para não envelhecer, é morrer jovem.
       Na vã tentativa de afastar a velhice, o ser humano busca ao menos apagar seus sinais externos. E haja cremes, procedimentos, cirurgias, seja o que for que lhe prometa o milagre da eterna juventude!
       Mas, há um grande motivo pelo qual o homem não quer aceitar o envelhecer: a velhice traz junto com ela, companhia inevitável, o temível fantasma que nos assombra a todos: a senhora Morte.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NOITE DE LUAR


Por: Flerts Nebó
REUMATOLOGIA
in memoriam 
1920 - 2017

Quando a Lua surgiu, por trás da serra, toda a natureza noturna se alegrou. Era mais uma nova noite e os pirilampos, com seu intermitente iluminar, nos faziam lembrar dos bons tempos onde a luz da iluminação noturna das cidades eram fracas ou inexistentes e desse modo podíamos admirar o faiscar das estrelas longínquas.

Era o Cruzeiro do Sul, as Três Marias ou a Vespertina,  que com seus albedos, nos deixava extasiados ao mirá-las.

As estrelas cadentes, que riscavam o céu num rápido passar e com eles iam nossos pedidos a Deus.

O medo que tínhamos de apontar com nosso indicador alguma estrela, pois poderia nascer uma verruga na ponta do mesmo, fazia com que procurássemos indicar a “estrela” que sempre acompanhava a Lua, com a ponta de nosso queixo, procurando dizer qual era a que deveríamos ver, naquelas noites de luar. Oh!, que saudades...

Diziam que aquela estrelinha vermelha não era uma estrela... (que mentira...), mas que era um planeta, onde morava o deus da guerra. Seu brilho, embora não piscasse como as outras, era permanente e para mim era uma estrela colorida no fundo de um céu gostoso de se admirar.

A Lua ia declinando e pouco a pouco desaparecia aos primeiros alvores do despontar de um novo dia que amanhecia. Fora mais uma noite de luar... que beleza!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

PESADELO

Por: Maria Gertrudes Vagliengo Focássio
MEDICINA DO TRABALHO

      Espontaneamente penetra em meus sonhos, com certa frequência, o Heliópolis, Hospital onde iniciei a minha carreira como médica. Mas. o edifício é outro bem diferente, dentro do qual me perco, tomo o elevador errado, sigo pelo corredor oposto ao que me levaria à saída mais propícia.
Caso me abordem, desconheço a orien-tação espacial para conseguir informar; se os residentes me solicitam discutir um caso, olho para o paciente, trêmula, em intensa sudorese, gaguejo sem lembrar-me de nada a respeito daquele doente da minha enfermaria.
Consigo finalmente repelir esse sonho que me deixa extenuada e, imediatamente, uma porta imensa se abre, empurrada por uma bruxa enorme, pavorosa. Que me persegue. Em seu bolso está um mega crachá escrito: “Receita Federal”.
Corro apavorada, porém ela lança uma rede e me aprisiona, dizendo com sua voz medonha: “Você está literalmente na malha fina. Vai ser multada”.
Quero assumir que vou pagar, porém minha voz é inaudível…
Preciso empurrar esse pesadelo para longe, todavia estou presa na malha fina e não consigo fazê-lo, nem fugir.
Outro pesadelo entra voando pela janela, na forma de um terrível gavião das montanhas e me livra daquela rede com seu bico dilacerador.
Porém não consigo me recuperar do susto do sonho anterior, ao ler o enorme crachá frouxamente pendurado ao pescoço do gavião mal encarado: “CET”. Mas ele se apresenta pomposamente: DETRAN para os íntimos, como você.
— Eu já estava de saída – balbucio, ofegante.
— Não! Não pode me evitar! Veja quantas multas! Noventa pontos na carteira. Vão perder a CNH.
  E minha cabeça fervendo queria oferecer propina, contudo o medo é tanto que me retiro do sonho, trôpega cruzo a praça e estanco antes de atravessar outra rua. Um carro forte freia ruidosamente diante de mim e dele saltam dívidas que me rodeiam e se aproximam ameaçadoras.
— OK, Vou parcelar no cartão.
Saio correndo com a tocha olímpica e botas de sete léguas, adentro o mar, vou nadando com os golfinhos, voando com as gaivotas, até colidir com um foguete identificado com a inscrição “NASA”.
Por favor, implorei, leve-me até um sonho mais “light, cor de rosa e musicado”.
  O foguete me deixa diante de uma vala cheia de dragões apavorantes, porém do outro lado, acenando-me, vislumbro meu príncipe encantado, cavalgando seu corcel branco, mas não pode me alcançar.
Súbito ele grita: — Pégaso!
Imediatamente surge o cavalo alado, meu herói pula-lhe na sela e ambos voam sobre a vala, chegando incólumes.
Quando meu amado segura minhas mãos e me beija, aparece diante de nós um flamboyant ornado com flores douradas luminescentes.

domingo, 1 de setembro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 322 - SETEMBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 322- Setembro de 2019

Editorial: 

Pizza Literárias

Se muitas vezes “tudo acaba em pizza” para a SOBRAMES São Paulo ela foi o começo e desde o início é sinônimo de agradável confraternização. 
Convém lembrar que em 16 de setembro de 1988 a SOBRAMES São Paulo foi fundada na Pizzaria Ilha de Cós, na Vila Clementino, incentivada pela regional do Rio de Janeiro. 
Em 20 de junho do ano seguinte, surgiu a primeira Pizza Literária e a partir de então reuniões mensais sucederam-se, consistindo em um dos atrativos paulistas quando os filiados e convidados se agregam para a deliciosa degustação e para apresentarem seus textos em versos e prosas.
O sucesso é tão grande que muitos sobramistas de outras regionais programam visitar a cidade de São Paulo em data que coincida com a da Pizza Literária para poder apreciá-la. Ela também inspirou encontros similares em outros estados. 
Reuniões ininterruptas, sempre na terceira quinta-feira de cada mês (salvo feriado).
Nem mesmo a triste surpresa ocorrida em 2004 foi motivo de interrupção.
Sim! Em abril daquele ano, ao chegarem na pizzaria Livorno, os sobramistas foram surpreendidos com o local lacrado por motivo de falência. Decepcionados, porém não desanimados, um grupo decidiu pelo menos jantar na pizzaria Bonde Paulista onde se descobriu um salão propício para continuar as reuniões.
E lá estamos comemorando neste mês de setembro 350 Pizzas Literárias sendo 186 no Bonde Paulista.
Por isso, este editorial é dedicado às Pizzas Literárias que descontraem, estimulam os escritos e revelam grandes talentos.
Um alimento para o corpo e para a alma...
Que assim continue...

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - SETEMBRO 2019

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

VOLTEI

Por: Maria do Céu Coutinho Louzã
RELAÇÕES PÚBLICAS

De onde? Para onde? Perguntarão.
Havia escolhas. Muitas. Porém
Entre quantas se apresentaram,
Era muito difícil escolher.

Voltei com sérias promessas
De não mais me entristecer.
Olharia com atenção o sol nascer.
Com toda a luz na sua plenitude,
E também o seu poente divino,
Talvez  triste, quando se despede
Ao ver a noite se aproximar! 

Apreciaria melhor as chuvas cantantes
Que inundam de alegria minha alma. 
E todos os jardins agradecidos
Enfeitam-se de flores mais cedo.

Voltei mesmo sem perceber,
Que deixava para trás
Sonhos e desejos, os quais
Se desfizeram como nuvens 
Levadas por ventos ingratos.

Voltei a pensar que te encontraria
Novamente a me esperar todos os dias 
Naquela mesma praça silenciosa, 
Onde os pássaros em revoada
Buscavam no lindo arvoredo,
Abrigo ao anoitecer.

Mas não. Percebi que voltar 
Era somente um sonho. 
E eu triste vi, que só podia
Viver de sonhos irrealizáveis.

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