domingo, 29 de setembro de 2019

O MEU BAÚ

Por: Josias Pereira dos Santos
CARDIOLOGIA

Coisas da alma tenho eu guardadas
Num baú da saudade, envelhecido.
Mas que se adapta bem para as sagradas
Recordações de um tempo já perdido.

Recolhi todas elas espalhadas,
Recupero-as com amor enternecido, 
E me renovo delas suscitadas
O coração há muito umedecido.

Neste baú, difícil é escolher
Uma lembrança,  aquela que me traia
E me leve ao remorso de a perder.

É mentira... se bem eu as espraia
Cada uma por si é um bem querer
Que revive a minha alma que desmaia.   

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

NINHO PERDIDO

Por: Mário Santoro Junior
PEDIATRIA

       O seu consultório era no andar alto de um prédio, no centro de um bairro nobre da cidade. Ali ela trabalhava diuturnamente, em período integral. Meses antes dos fatos aqui narrados, caro leitor, ela resolvera substituir o sistema de ar condicionado do consultório. Modernos aparelhos foram instalados, muito mais eficientes do que aqueles antigos que ali estavam, modelo dito de parede. Não obstante resolvera, também, mantê-los no local, pois sua remoção exigiria um esforço a mais. Com o passar dos dias começou a perceber ruídos que, ao que parecia, vinham daqueles dispositivos, agora não mais funcionantes. Ruídos estes que foram rapidamente aumentando em intensidade, dando a perceber que era chilrada de pássaros. Verdadeira algazarra a ponto de atrapalhar o atendimento de seus pacientes, pois, médica atenciosa, era bastante diligente em suas funções. Por diversas vezes tentou afugentá-los, mas sem sucesso. Concluiu que era necessário remover as referidas máquinas. Aproveitou uma semana em que por ter que atender outro compromisso não estaria no consultório. Contratou profissionais que retiraram o velho e desgastado aparelho e em seguida repararam a parede além de terem efetuado o novo revestimento dela.
Na data aprazada voltou às suas atividades e gostou do que viu. Porém notou que ao final da tarde, todos os dias, no parapeito de sua janela surgiam três passarinhos que, como espreitando para dentro do consultório, rapidamente fugiam quando ela se aproximava deles. Foi então que lembrou de haver tido sido informada de que, quando da retirada do velho aparelho, havia um ninho de pássaros contendo estes três ovos. Assim, pensou, estariam eles a procura do ninho perdido?
  Num dia em que estava particularmente alegre, pois mais um neto havia chegado à sua família – e a chegada de um neto representa a vida que se pereniza por meio de nossos descendentes- percebeu, como sempre ao final da tarde, que os três passarinhos estavam no parapeito da sua janela. Foi então que ela notou que eles não mais piavam. Tristeza profunda pensou, a ponto de calarem seu canto? E, de repente, afloraram do mais profundo de seu inconsciente sentimentos confusos, uma mistura de culpa, dor e arrependimento. Teria ela sido a causa do que para ela pareceu ser uma tragédia?
Rapidamente lágrimas furtivas rolaram na sua face e ela se prostrou diante da imagem da Santa de sua devoção, imagem que há muitos anos a acompanhava. Baixinho orou e pediu perdão a Deus.
Na tarde seguinte e em muitas outras que se sucederam ela não mais os viu em sua janela.
Aos poucos ela, então, compreendeu sua mensagem.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

MAGIA & ELEVADOR

Por: Sônia Andruskevicius de Castro
MEDICINA INTENSIVISTA

Magia

Um dia 
Tirei da cartola
Um sol amarelo
Que joguei pro alto
E se prendeu no céu.

Depois
Lentamente
A primavera 
Vestida de flores.

Ainda tirei da cartola
O canto de um rouxinol
E um pássaro invisível
Que realmente voou entre as nuvens.

***

Elevador

Com o cabelo escondeu o rosto
Com o desvio do olhar, a lágrima.
Lutando com seus mistérios
Em poucos minutos
Envelheceu alguns anos.
Uma mulher chora de tristeza
Pensamentos silenciosos
Passeiam pelo elevador.

sábado, 14 de setembro de 2019

FALANDO DE RUGAS

Por: Lúcia Edwiges Narbot Ermetice
DERMATOLOGIA

      Desde tempos imemoriais o homem busca o Elixir da Eterna Juventude, bem como a Pedra Filosofal, que transforma qualquer metal em ouro. Eterna juventude e beleza, sonhos da Humanidade.
Nos tempos de antanho, talvez fosse mais fácil manter o aspecto jovem: morria-se jovem! Não havia tempo para que as marcas do existir aparecessem. Ainda assim, utilizavam-se artifícios para embelezar, poções para cuidar da pele. Quem nunca ouviu falar dos banhos de leite aos quais se dedicava Cleópatra?
       Neste século XXI, a expectativa de vida aumentou. Melhorias na Higiene, obras de Saneamento Básico, progressos científicos e tecnológicos na Medicina, propiciam vida mais longa aos que a eles têm acesso. Vive-se mais e, assim, o Tempo agora tem tempo para deixar suas marcas.
       Quem vive mais, é óbvio, envelhece. E o homem quer viver mais, mas não quer envelhecer, isto é, ter a aparência de velho. Por isso, sai à luta para buscar recursos com que resolver o paradoxo.
      Não à toa, uma das indústrias que mais se desenvolveu, foi a da Cosmética. Auxiliada por sua companheira também desenvolvi-díssima, a Publicidade, anuncia seu produtos. “O creme X elimina suas rugas, devolve sua juventude, em apenas sete dias. Experimente e comprove!” Quem não deseja milagres? E o creme X vende mais que pão quente.
        Ora, cuidar do corpo é um dever. Afinal, ele é o instrumento para a interação com o mundo.
      Diziam os antigos: “Mens sana in corpore sano.” O problema, nos nossos dias, é que a mente ficou insana no quesito cuidar do corpo, e a vaidade predomina. Chegou-se às raias do exagero.
      Caras “botocadas”, preenchidas, até deformadas. Muitas enfeiadas, tornadas irreconhecíveis. Sem expressão, sem indivi-dualidade, sem identidade.
    Inevitável o questionamento: como se sentem estas pessoas quando se olham ao espelho? Reconhecem-se ou não?
      Será que vale a pena modificar-se tanto, recusar-se a aceitar o Tempo que se escoa? Cuidar-se, enfeitar-se, sim. Mas há que haver o equilíbrio. Envelhecer é uma das leis da Natureza, e estas não admitem recursos a instâncias superiores. Cumprem-se e pronto, doa a quem doer.
      Rugas, manchas, são marcas que a Vida, em seus embates e alegrias, deixou no corpo humano. São a prova da coragem e da luta no viver, o símbolo da sobrevivência. A única alternativa que o homem tem para não envelhecer, é morrer jovem.
       Na vã tentativa de afastar a velhice, o ser humano busca ao menos apagar seus sinais externos. E haja cremes, procedimentos, cirurgias, seja o que for que lhe prometa o milagre da eterna juventude!
       Mas, há um grande motivo pelo qual o homem não quer aceitar o envelhecer: a velhice traz junto com ela, companhia inevitável, o temível fantasma que nos assombra a todos: a senhora Morte.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NOITE DE LUAR


Por: Flerts Nebó
REUMATOLOGIA
in memoriam 
1920 - 2017

Quando a Lua surgiu, por trás da serra, toda a natureza noturna se alegrou. Era mais uma nova noite e os pirilampos, com seu intermitente iluminar, nos faziam lembrar dos bons tempos onde a luz da iluminação noturna das cidades eram fracas ou inexistentes e desse modo podíamos admirar o faiscar das estrelas longínquas.

Era o Cruzeiro do Sul, as Três Marias ou a Vespertina,  que com seus albedos, nos deixava extasiados ao mirá-las.

As estrelas cadentes, que riscavam o céu num rápido passar e com eles iam nossos pedidos a Deus.

O medo que tínhamos de apontar com nosso indicador alguma estrela, pois poderia nascer uma verruga na ponta do mesmo, fazia com que procurássemos indicar a “estrela” que sempre acompanhava a Lua, com a ponta de nosso queixo, procurando dizer qual era a que deveríamos ver, naquelas noites de luar. Oh!, que saudades...

Diziam que aquela estrelinha vermelha não era uma estrela... (que mentira...), mas que era um planeta, onde morava o deus da guerra. Seu brilho, embora não piscasse como as outras, era permanente e para mim era uma estrela colorida no fundo de um céu gostoso de se admirar.

A Lua ia declinando e pouco a pouco desaparecia aos primeiros alvores do despontar de um novo dia que amanhecia. Fora mais uma noite de luar... que beleza!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

PESADELO

Por: Maria Gertrudes Vagliengo Focássio
MEDICINA DO TRABALHO

      Espontaneamente penetra em meus sonhos, com certa frequência, o Heliópolis, Hospital onde iniciei a minha carreira como médica. Mas. o edifício é outro bem diferente, dentro do qual me perco, tomo o elevador errado, sigo pelo corredor oposto ao que me levaria à saída mais propícia.
Caso me abordem, desconheço a orien-tação espacial para conseguir informar; se os residentes me solicitam discutir um caso, olho para o paciente, trêmula, em intensa sudorese, gaguejo sem lembrar-me de nada a respeito daquele doente da minha enfermaria.
Consigo finalmente repelir esse sonho que me deixa extenuada e, imediatamente, uma porta imensa se abre, empurrada por uma bruxa enorme, pavorosa. Que me persegue. Em seu bolso está um mega crachá escrito: “Receita Federal”.
Corro apavorada, porém ela lança uma rede e me aprisiona, dizendo com sua voz medonha: “Você está literalmente na malha fina. Vai ser multada”.
Quero assumir que vou pagar, porém minha voz é inaudível…
Preciso empurrar esse pesadelo para longe, todavia estou presa na malha fina e não consigo fazê-lo, nem fugir.
Outro pesadelo entra voando pela janela, na forma de um terrível gavião das montanhas e me livra daquela rede com seu bico dilacerador.
Porém não consigo me recuperar do susto do sonho anterior, ao ler o enorme crachá frouxamente pendurado ao pescoço do gavião mal encarado: “CET”. Mas ele se apresenta pomposamente: DETRAN para os íntimos, como você.
— Eu já estava de saída – balbucio, ofegante.
— Não! Não pode me evitar! Veja quantas multas! Noventa pontos na carteira. Vão perder a CNH.
  E minha cabeça fervendo queria oferecer propina, contudo o medo é tanto que me retiro do sonho, trôpega cruzo a praça e estanco antes de atravessar outra rua. Um carro forte freia ruidosamente diante de mim e dele saltam dívidas que me rodeiam e se aproximam ameaçadoras.
— OK, Vou parcelar no cartão.
Saio correndo com a tocha olímpica e botas de sete léguas, adentro o mar, vou nadando com os golfinhos, voando com as gaivotas, até colidir com um foguete identificado com a inscrição “NASA”.
Por favor, implorei, leve-me até um sonho mais “light, cor de rosa e musicado”.
  O foguete me deixa diante de uma vala cheia de dragões apavorantes, porém do outro lado, acenando-me, vislumbro meu príncipe encantado, cavalgando seu corcel branco, mas não pode me alcançar.
Súbito ele grita: — Pégaso!
Imediatamente surge o cavalo alado, meu herói pula-lhe na sela e ambos voam sobre a vala, chegando incólumes.
Quando meu amado segura minhas mãos e me beija, aparece diante de nós um flamboyant ornado com flores douradas luminescentes.

domingo, 1 de setembro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 322 - SETEMBRO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 322- Setembro de 2019

Editorial: 

Pizza Literárias

Se muitas vezes “tudo acaba em pizza” para a SOBRAMES São Paulo ela foi o começo e desde o início é sinônimo de agradável confraternização. 
Convém lembrar que em 16 de setembro de 1988 a SOBRAMES São Paulo foi fundada na Pizzaria Ilha de Cós, na Vila Clementino, incentivada pela regional do Rio de Janeiro. 
Em 20 de junho do ano seguinte, surgiu a primeira Pizza Literária e a partir de então reuniões mensais sucederam-se, consistindo em um dos atrativos paulistas quando os filiados e convidados se agregam para a deliciosa degustação e para apresentarem seus textos em versos e prosas.
O sucesso é tão grande que muitos sobramistas de outras regionais programam visitar a cidade de São Paulo em data que coincida com a da Pizza Literária para poder apreciá-la. Ela também inspirou encontros similares em outros estados. 
Reuniões ininterruptas, sempre na terceira quinta-feira de cada mês (salvo feriado).
Nem mesmo a triste surpresa ocorrida em 2004 foi motivo de interrupção.
Sim! Em abril daquele ano, ao chegarem na pizzaria Livorno, os sobramistas foram surpreendidos com o local lacrado por motivo de falência. Decepcionados, porém não desanimados, um grupo decidiu pelo menos jantar na pizzaria Bonde Paulista onde se descobriu um salão propício para continuar as reuniões.
E lá estamos comemorando neste mês de setembro 350 Pizzas Literárias sendo 186 no Bonde Paulista.
Por isso, este editorial é dedicado às Pizzas Literárias que descontraem, estimulam os escritos e revelam grandes talentos.
Um alimento para o corpo e para a alma...
Que assim continue...

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - SETEMBRO 2019

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

VOLTEI

Por: Maria do Céu Coutinho Louzã
RELAÇÕES PÚBLICAS

De onde? Para onde? Perguntarão.
Havia escolhas. Muitas. Porém
Entre quantas se apresentaram,
Era muito difícil escolher.

Voltei com sérias promessas
De não mais me entristecer.
Olharia com atenção o sol nascer.
Com toda a luz na sua plenitude,
E também o seu poente divino,
Talvez  triste, quando se despede
Ao ver a noite se aproximar! 

Apreciaria melhor as chuvas cantantes
Que inundam de alegria minha alma. 
E todos os jardins agradecidos
Enfeitam-se de flores mais cedo.

Voltei mesmo sem perceber,
Que deixava para trás
Sonhos e desejos, os quais
Se desfizeram como nuvens 
Levadas por ventos ingratos.

Voltei a pensar que te encontraria
Novamente a me esperar todos os dias 
Naquela mesma praça silenciosa, 
Onde os pássaros em revoada
Buscavam no lindo arvoredo,
Abrigo ao anoitecer.

Mas não. Percebi que voltar 
Era somente um sonho. 
E eu triste vi, que só podia
Viver de sonhos irrealizáveis.

domingo, 25 de agosto de 2019

UMA MULHER VESTIDA DE BRANCO

Por: Wladimir do Carmo Porto
ECONOMIA

       Lá estava ela. No meio do salão. O som do triângulo, da zabumba e da sanfona ribombava, saindo das caixas de som.
      Vestida de branco, figura um tanto velha, desgastada pela vida. Entre as pregas da cintura, sobressaía uma barriga acentuada. Rosto impassível, distante, dançava com gestos lentos de mãos e pés. Talvez o peso da idade. O vestido rendado lembrava, vagamente, vestido de noiva. Era uma semi-noiva. Noiva da vida.
       Rodopiava, alheia ao ambiente. Sozi-nha. Era um universo apartado da vida circundante. Fazia com as mãos, gestos graciosos, acompanhando a música. Olhos semi-cerrados. Volteios e mais volteios. Era o centro do mundo. Seu mundo.
      Naquele isolamento e alheamento efême-ro, batia um coração, pulsante de aflições, nostalgia e esperanças. Transparecia plenitude, quietude, em paz consigo mesma.
      E ali estava ela, no meio da multidão, numa noite de São João. Ela e suas circuns-tâncias. Era uma mulher vestida de branco.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

MULHER, SER SUBLIME

Por: Alcione Alcântara Gonçalves
PSIQUIATRIA

A Mulher branca, de origem Europeia,
A Mulher negra, de origem Africana,
A Mulher amarela, de origem Asiática,
Com tez matizada, são Mulheres Glorificadas!

Mulher Asiática, Europeia ou Africana,
Tua força extrapola fronteiras Americanas!
De polo a polo neste Planeta,
Promoves miscigenação com seu gameta!

Mulher! Sol que nos esquenta!
Bendito Colo, que nos acalenta!
Seio Benigno, que nos alimenta!
Útero Protetor, que nos sustenta!

A Mulher é um ser divinal,
Que o SENHOR nos deixou,
Para completar este belo Casal!
Uniu-se ao Homem e a humanidade formou.

Mulher é sensibilidade e Amor!
Só tu podes o Homem gerar, 
Tornando-se MÃE deste SER milenar,
Que na DOR do parto, soubestes sublimar!

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

DOCE, COM AMOR

Por: Delfim Silva Pires
CARDIOLOGIA

       A história que vou contar provavelmente não é novidade e acredito que muitos de vocês já a conheçam.
E não tem importância o fato de ser uma história já conhecida, sua importância, para mim, decorre da maneira como a conheci.
Uma vez, há muito tempo atrás, no tempo em que eu era ainda criança, estávamos todos à mesa: meu pai, minha mãe e os filhos. Éramos seis filhos naquela época.
Minha mãe disse-nos: “Vou contar-lhes uma história”.
Éramos doidos por histórias, vivíamos pedindo que nos contasse histórias, rogávamos pelas suas histórias. Como éramos muitos filhos e todos pediam histórias, muito frequentemente ela nos contava histórias repetidas, então contávamos o final da história rapidamente, e dizíamos: — Tá vendo? Essa história já é velha, história repetida não vale.
Então imaginem vocês nossa curiosidade.
Imaginem. Nós nem havíamos pedido e ela se ofereceu para contar história, essa devia se mesmo das boas e novinha; não devíamos conhecê-la.
Ficamos todos em silêncio, para ouvir sua história. E ela começou assim:
“Havia uma família muito pobre e muito unida.
Certa vez, a mãe dessa família tendo um único pêssego, deu-o a filha caçula e disse:
Coma, só tenho esse, está bem maduro, e vai te fazer bem.
A menina guardou-o e, ao avistar o pai, deu-lhe o pêssego dizendo:
Pai, você deve estar cansado e eu guardei este pêssego para você.
Por sua vez o pai deu o pêssego para o filho, e o filho deu-o à mãe.
Então a mãe reuniu toda a família e disse:
— Hoje à tarde, dei um pêssego à Maria, ela guardou-o e deu ao pai, o pai deu-o ao Antônio, e o Antônio deu a mim. Portanto esse pêssego alimentou a todos, deu-nos muito amor, nós bem o merecemos. Assim sendo, repartiu entre todos”.
Estávamos todos embevecidos com a história e, ao mesmo tempo em que terminava a história, ela tirou uma pequena travessa do fogão, colocou-a sobre a mesa dizendo:
— Ganhei hoje este doce da vizinha, sei que ele é bem pouco para todos nós, mas é o que temos e, se vocês se lembrarem da história, perceberão que dá para todos e ainda há de sobrar para o resto de vossas vidas.
Passados tantos anos, ainda me lembro da travessa de doce, e ele me fez tão bem, que ainda hoje guardo seu gosto. Não podendo repartir o doce com vocês, reparto a história que tanto me emocionou.

sábado, 10 de agosto de 2019

MULHER 60 +

Por: Amália Percelman
CARDIOLOGIA
     
       Hoje comprei um body.
O que vem a ser isso?
Um modelador, um redutor de medidas, um traje para reposicionar certas estruturas, uma peça de roupa para mascarar imper-feições, como um culote indesejado, uma barriguinha teimosa.
  Via de regra é para esconder, poucas vezes para mostrar, raríssimas para expor. Pois comprei um body cheio de transparências e decotes para mostrar que posso agradar, nem que for a mim mesma, que tenho sensualidade, nem que for para o espelho, que me sinto segura, nem que for debaixo da roupa.
Me dei esse presente pois acho que mereço um bem que me faça sentir desejada. Um body, gotas do meu perfume predileto e pronta para ser feliz! 
Que importa se tenho 60 +? Perfeito ninguém é, o que faz a diferença é quem você é, o que pensa a respeito de si mesma, qual sua próxima meta e como vai se posicionar frente às adversidades. 
Com coragem para se mostrar? Por dentro e por fora?  
Vá em frente, se desnude.

domingo, 4 de agosto de 2019

UMA HISTÓRIA NASCIDA EM NOVEMBRO


Por: Alitta Guimarães Costa Reis
PSIQUIATRIA
 
       Ela era baixinha, bem educada. Cabelos grisalhos bem penteados, ondas mantidas com fixador, duas alianças no anular esquerdo, sorriso tímido encimando a gola branca com rendinhas, blusa azul clarinha, saia escura de lã cobrindo os joelhos, sapatos fechados de calcanhar bem estruturado, brinquinhos delicados como seu perfume, unhas cuidadas, sem esmalte. Uma “lady”. Estávamos na mesma repartição, esperando. Levantei-me para tomar café, perguntei se ela queria que eu trouxesse. “Não, minha filha”, disse ela, “gosto muito, mas meu médico me proibiu de tomar café”. Vim com meu café e me sentei, e logo conversávamos como velhas amigas. A conversa fluía tão fácil que fomos ficando entusiasmadas, encantadas com a descoberta de tanta afinidade. Após cerca de vinte e cinco minutos, ela foi chamada, levantou-se, me abraçou, deu-me um beijo no rosto e agradeceu muito, pedindo que Deus me aben-çoasse. Logo fui chamada também e nos perdemos uma da outra: eu gostaria de ter trocado pelo menos um número de telefone...
No outro ano precisei ir à repartição de novo, e o senhor que havia me atendido mais de uma vez pegou o telefone e disse: “Adivinha quem está aqui...” Logo chegou outro senhor, veio direto ao meu encontro e disse: “Eu queria agradecer o que fez pela minha mãe. Ela faleceu há meses, disse que a conheceu aqui e que vocês tiveram uma ótima conversa, uma das melhores que ela teve na vida. De que vocês tanto fala-ram?” Sinceramente, demorei um pouco para me lembrar do acontecido, mas logo me veio à mente a figura da bondosa senhora; da conver-sa não me recordei, para desapontamento do senhor. Ele disse que ela se lembrava de que eu gostava de café. Que queria que ele me entregasse uma coisa, mas ele ficou preocupado, porque era coisa usada e um pouco antiga. E se eu não gostasse? Mas ela insistiu, dizendo que eu era uma pessoa compreensiva e que iria entender direitinho o presente. “Ela me fez ver que a minha vida teve sentido”, ela contou, “foi realmente um encontro de almas irmãs”. Então ele guardou o presente e tentou me achar, mas do meu nome ela não se lembrava. Pela descrição conseguiu me localizar, e ficou esperando que eu voltasse. Disse que o presente não estava ali, se eu podia esperar. Não, não podia. Sugeri que enviasse pelos Correios. “Não é uma boa ideia”, ele disse. Fui chamada nova-mente por um funcionário da repartição, e depois procurei uma toalete. E nos desencontramos. Dois meses depois voltei, era horário de almoço, tinha que esperar e resolvi comer alguma coisa. Fui até a lanchonete mais próxi-ma. De repente eu ouvi: “Não saia daqui!”
Era ele, o mesmo senhor. Disse que voltaria em alguns minutos, o que realmente aconteceu. Tornou a agradecer, e me entregou uma bolsa novinha em folha, com um objeto dentro cheio de plásticos em volta para proteger. Tornou a pedir desculpas pela simplicidade do presente, e disse: “Minha mãe usou isso por vários anos, era especial para ela, presente de pessoa muito querida. Obrigada por deixá-la tão feliz”. Lágri-mas nos olhos, me abraçou e me deu um beijo no rosto, de forma exatamente igual a sua mãe havia feito no primeiro e último encontro que tivemos. E saiu, precipitadamente, como um homem que se recusava a ser visto chorando. Emocionada também, fiz uma breve oração para a mãe dele, enquanto começava a abrir a bolsa e afastar os plásticos. E lá estava o meu presente, que agora é usado orgulhosamente em minha cozinha: uma linda e bem conservada cafeteira.
_____
*Terceiro lugar no concurso de prosas da X Jornada Nacional da SOBRAMES e XV Jornada Médico-Literária Paulista (Agosto 2019 - SP) 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O BANDEIRANTE - nº 321 - AGOSTO de 2019

O BANDEIRANTE - edição 321 - Agosto de 2019

Editorial: 

Gratidão

O tema deste editorial não poderia ser outro: gratidão. Ao terminar a Jornada eu sinceramente me senti agradecida.
Agradecida por ter convivido um fim de semana de alto astral no aconchego de versos e prosas. 
Agradecida pelo dom de escrever e constatar que os talentosos amigos sobramistas também se aprimoram cada vez mais na arte literária.
Sessões literárias envolventes. Muitos textos fazendo nossos olhos brilharem. A cada página virada dos Anais, uma janela se abria e esquecíamos as preocupações do dia a dia para mergulharmos no universo que cada texto vinha nos conduzir.
Agradecida pelos inúmeros comentários positivos que recebi e pelo trabalho em equipe da comissão organizadora.  
Agradecida por reconhecer que cada sobramista inscrito também foi determinante para o sucesso da Jornada, criando um ambiente autenticamente fraterno.
Amizades que vencem distâncias. Rostos finalmente conhecidos, o que antes se limitavam às mensagens virtuais.
Harmonia de quem valoriza as afinidades e respeita as diferenças.
A vida é feita de momentos. E com certeza a Jornada registrou muitos momentos memo-ráveis. Voltamos para nossas atividades coti-dianas revigorados pela calorosa confraternização que a Jornada proporcionou.
Por tudo isso, hoje, ao escrever este editorial, meu coração se preenche de gratidão.
E eu me sinto plenamente agradecida.
Hoje e sempre... 

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - AGOSTO 2019

quarta-feira, 31 de julho de 2019

A ONDA

Por: Josef Tock
OFTALMOLOGIA

A onda que quebra no mar
está prestes a se dobrar.
Eis a força que cresce,
e agiganta envolvendo nossos corações.

O vento que derruba as palmeiras
força as ondas gigantes
que devastam as orlas da praia
e do instinto humano.

O sol que seca a terra
transformando o solo em placas quebradiças, 
são sentimentos fragmentados,
a espera das ondas fluviais.

A lua que a noite nos ilumina
e faz as ondas subirem e aplainarem, 
molha a areia seca,
no espocar das ondas que se alevantam.

As quatro fases do dia
agora estão paradas,
acompanhando a fundo
e surfando o meu pensamento.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

À PROCURA DA VIDA IDEAL

Por: Nelson Jacintho
ORTOPEDIA

Saí na rua à procura
De uma vida ideal,
Vi o amor, vi a candura,
Vi todo bem, todo mal...

Vi o sorriso da criança,
Vi o abraço do amigo,
Vi o nascer da esperança
Nos olhos de um mendigo... 

Vi a pujança do forte,
E vi do velho a fraqueza,
Dinheiro comprando a sorte,
Ganância dando a pobreza...

Vi a alegria na chegada,
Tristeza, na despedida,
O carinho da amada,
O desprezo da perdida...

Vi a vida maculada,
O sofrimento, a agonia,
Vi a lágrima atrasada
No palhaço, que sorria...

Ao me olhar no espelho
À procura do meu eu,
Recebi grande conselho:
“Quem não plantou, não colheu...”

terça-feira, 23 de julho de 2019

AMOR PERFEITO

Por: Aldo Miletto
PSIQUIATRIA
(in memoriam)
1919 - 2008

Um mil, dois mil, três mil quilômetros distante, 
Estás mulher de mim tão longe, neste instante 
Mas meu pensar trafega rápido, qual som, 
Encurta o espaco e põe no teu, meu coração!

Proclamo, te amo, clamo com amor gigante 
Se minha voz não chega, a voz de Deus garante! 
Hás de vibrar, ao retumbar desta paixão 
E reviver, revivenciar essa emoção,

Que o tempo nunca apaga, quando nasce e cresce 
É assim que meu amor se eternizou no peito!
Se tropecei, caí, me levantei, parece,

Para não mais sofrer, não ser mais contrafeito 
E assim poder dizer, mais uma vez em prece: 
Querida, eu te amo tanto. És meu amor perfeito

quinta-feira, 18 de julho de 2019

BOTÕES

Por: Camilo André Mércio Xavier
ORTOPEDIA

Botões coloridos
Donos de encantos e segredos,
Se espalham nas quebradas da imaginação...

Esfuziantes e chamativos,
Me fazem lembrar:
Que eles não são ambíguos,
Nem contraditórios,
Estão posicionados para funcionar!

Como não se opõem à rotina
Abotoados aprisionam,
Soltos libertam.

Tiranos ou submissos,
Rápidos ou lentos,
Dependendo da ocasião,
Os olhos dos buracos dos botões,
Focam e revelam
O que se passa mais fundo...

domingo, 14 de julho de 2019

LINHA DO TEMPO

Por: Carlos José Benatti
GINECOLOGIA

Artobanus era um político em ascensão, pois diferentemente dos outros,  fazia reflexões sobre conceitos fundamentais da democracia.
– Odila, fico perplexo quando vejo pessoas totalmente incapazes de votar por ignorância de conhecimentos comezinhos, sociais e políticos. Como organizar um grupo competente e formar uma elite dirigente se não temos uma elite de eleitores? 
– Senador, os vários idiomas são um grande empecilho de entendimento entre os povos e as nações são criadas não por limites geográficos, mas justamente na fronteira de pessoas que falam línguas diferentes. Essa diversidade é que lhe deixa perplexo.
– Exatamente, Odila. Fico perplexo de não enxergar onde está a reserva moral da nação.
– Senador, nunca entendi bem o seguro-desemprego, pois basta se cadastrar para receber uma quantia razoável mensal, o difícil é o seguro–emprego, isto é, você colaborar para o engrandecimento da empresa para garantir seu emprego. Mas não fazer nada se transformou num excelente meio de ganhar tempo...
– Odila, a estratégia depende de metas bem definidas. Você que tem clarividência entende bem isso.  Não vê as coisas, mas as sente.
– Senador, acho que o problema das nações é o da justiça. Um dia desses fui ao cinema assistir a um filme chamado “Três enterros”, que fala bem dos equívocos das pessoas. Como é possível existir justiça com tanto equívoco?
– A justiça, Odila, é um suco saído de um liquidificador em que foram colocados verdades e mentiras. A propósito, Odila, dia destes vi sua foto no jornal  e  você estava muito bonita. Gostei da entrevista.
– Pessoa bonita não tem foto feia, senador.
O celular tocou, o senador pediu licença para atender e a seguir pediu licença para se retirar. Pagou e foi embora. Era a quarta vez que o senador vinha e em nenhuma delas ficou mais de cinco minutos. Político só aparece quando a gente chama, pensou jocosamente Odila...
          Do livro “Os segredos da Cartomante”

quinta-feira, 11 de julho de 2019

COLOMBO E A FITA ADESIVA


Por: Guaracy Lourenço da Costa
CIRURGIA PLÁSTICA
(in memoriam)
1935 - 2018

Cristóvão Colombo nasceu num dos vales de Gênova, na Itália e, junto com seu irmão Bartolomeu, gostava da navegação. Foi nesse gosto que ele procurou os Reis Católicos da Espanha para expor seu plano de descobrir novas terras no ocidente e depois partir para a libertação de Jerusalém.
Descobriu a América e foi festejado na Espanha ao retornar, recebendo do Rei os títulos de Almirante e de Vice-Rei. Ficou por ali uns tempos, sem imaginar que a espanholada do povo estava com inveja e com raiva dele.
Certa tarde de sábado, ele estava numa taberna jogando caxangá, quando entraram uns 15 a 20 pescadores que o rodearam de forma zombeteira. Um deles, mais ousado, disse a Colombo: “Não queira você dar uma de gostoso aqui no país que nem é seu; você não fez nada de especial, a América já estava lá e qualquer um que fosse praqueles lados a descobriria, não precisava ser você, tá?”
O experiente Colombo estava com 72 anos na época e não iria querer enfrentar os pescadores no braço. Pediu ao dono da cantina um ovo cozido e perguntou aos pescadores quem seria capaz de colocá-lo de pé sobre a ponta mais fina.
Ninguém conseguiu, Colombo colocou o ovo em pé da forma que todos sabem e o ofensor retrucou: “desse jeito qualquer um coloca o ovo em pé!”  Colombo virou-se pra ele e disse calmamente: “Pois é fácil depois de ver como eu fiz; agora que já descobri a América, até um pescador como qualquer um de vocês já sabe que, navegando para o leste, encontrará as terras que achei... Se me dão licença, tenho um compromisso com meu amigo Américo Vespúcio; logo vocês irão saber de novas descobertas que faremos; Adeus!”
A história do ovo é clássica para significar descobertas que, depois de consumadas, parecem simples. O Dicionário do Aurélio assim define: “Ovo de Colombo é uma coisa fácil de realizar,  mas em que não se pensou antes de vê-la realizada por outra pessoa.”
Entre nós Médicos, há milhares de descobertas que se enquadram no rol dos ovos de Colombo: técnicas cirúrgicas, novos medicamentos, novas síndromes, vacinas, até anti-sépticos.
Há dois ovos de Colombo da Medicina que aprecio muito. O primeiro é aquele lance de encher uma luva cirúrgica com água, amarrá-la e colocar debaixo dos calcanhares de pacientes em coma para evitar escaras ali.
Na década de setenta, li numa revista sobre um ovo de Colombo que havia sido idealizado, destinado ao diagnóstico dos oxiúros.
Como todos sabem, os oxiúros são pequenos vermes semelhantes a pequenos fios de linha, cujas larvas descem ao ânus durante a noite e começam a pinicar. Às vezes descem também durante o dia, causando um vexaminoso prurido.  
Quando o paciente vê os vermes adultos saírem nas fezes, ele conta pro Médico e já recebe a receita cabível. O problema está no diagnóstico dos oxiúros para aqueles que somente têm a bandida da coceira anal.
O que li na revista foi para  diagnosticar os casos só de coceira:   De manhã, antes de fazer a higiene, o paciente pega um pedaço de fita adesiva tipo Durex, encosta no ânus e gruda em seguida numa lâmina de microscópio. No laboratório, os técnicos vão ver se encontram  larvas de oxiúros  na fita e está feito o diagnóstico.
Naquela época, fui num sábado à tarde visitar um casal de amigos na Vila Xavier, em Araraquara.  Daí a pouco,  apareceu por lá um jovem de vinte e poucos anos que estava namorando a filha do casal. Quando ele saiu, ouvi a mãe dizer pra filha, enquanto me fazia um cafezinho: “Larga mão de namorar esse cara, ele não tira a mão do fiofó, só coça, só coça, que coisa horrível!”
Fiquei com dó do rapaz, cujos pais eu conhecia. Procurei por ele no dia seguinte e perguntei discretamente se ele tinha oxiúros. Moço simples, ele nem sabia o que era isto.
Expliquei-lhe sobre os referidos bichos e sobre o uso da fita adesiva. Dei a ele uma lâmina de microscópio, expliquei como colar e falei pra ele pôr o produto num saquinho, e me trazer, que eu levaria ao laboratório pra ele. 
Dois dias depois, ele me procurou para contar o que havia acontecido, meio rindo e meio sem graça.
Envergonhado, ele não havia contado pra ninguém da família sobre o exame esquisito que lhe havia mandado fazer.  De manhã, ele foi ao banheiro com o rolo de Durex, puxou um pedaço enorme e, com muito nojo, segurando numa ponta e na outra encostou-o pelo rego afora para colher as pretendidas larvas.
Antes de cortar o pedaço para colá-lo na lâmina de vidro, o telefone tocou e ele colou a ponta da fita na beirada da pia, deixando o rolo pendente.
A conversa levou alguns minutos. Quando ele retornou ao banheiro, não viu mais o rolo da fita adesiva. Esquecendo-se do segredo que estava mantendo, ele começou a gritar pela casa: “Onde estão meus oxiúros? Onde estão meus oxiúros?”  A mãe dele veio correndo e ele consertou a frase perguntando pela fita adesiva. A mãe respondeu: “Acho que sua irmã colocou na gaveta da escrivaninha; hoje é aniversário do Jorginho, namorado dela; vi ela agora há pouco embrulhando o presente dele...”  
Disse-me o jovem ao final: “Pois é, Doutor Guaracy, se eu tinha esse tal de oxiúros nas tripas, já tô livre deles porque eles foram tudo lá pra casa do Jorginho...”


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