sábado, 4 de julho de 2020

PIZZA LITERÁRIA ON LINE

A Pizza Literária é uma das atividades marcantes da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores São Paulo, reunião mensal iniciada em 20 de junho de 1989 e que agrega sobramistas e convidados para uma agradável degustação enquanto textos se apresentam em versos e prosas.

O evento ocorreu de forma ininterrupta até fevereiro de 2020 e inspirou encontros em outras regionais da SOBRAMES.
Em 18 de junho de 2020, porém, respeitando as diretrizes preventivas contra a pandemia covid 19, realizou-se a primeira Pizza Literária Paulista por meio de videoconferência.
Um marco para a profícua e bela trajetória da SOBRAMES SP.

A edição mensal de "O Bandeirante" continua sendo postada nas redes sociais e enviada por email, divulgando os textos de nossos filiados, comprovando a importância da Literatura (e das artes em geral) nesses tempos tão difíceis.  

CONTATOS: sobramessp21@gmail.com

terça-feira, 12 de maio de 2020

O Bandeirante -nº 330 - maio de 2020

O BANDEIRANTE - edição 330 - Maio de 2020

Editorial: 

Escrever em tempo de crise

Em uma crise mundial sem precedentes, a maioria da população permanece confinada em casa, questionando: o que fazer com tanto tempo disponível?
Nós, sobramistas, habituados com o ato de escrever, encontramos nele um meio de extravasar o medo, a inquietude e a insegurança diante do futuro.
Ora experiências individuais registradas como desabafo, ora se desligando da realidade, deixando fluir a imaginação.
Tá certo que muitos de nossos filiados continuam trabalhando, enfrentando o coronavírus na luta constante com a morte. Mas, talvez, também estes, no escasso tempo livre, possam registrar em algumas linhas as suas dores, aliviando o cansaço.
Por outro lado, assim como existe benefício para quem escreve, o leitor igualmente acolhe os textos na tentativa de encontrar respostas ou, simplesmente, para estarem conectados com o mundo.
Se o contato físico é restrito, a divulgação de ideias se acentuam.
Compartilhamento.
Pensamentos criativos, orientações, mensagens positivas, questionamentos, reflexões... Esperança...
Não por acaso, a Sobrames Sergipe organizou o e-book “Diários da Quarentena”.
A Sobrames SP, por sua vez, mantém o cronograma da edição de sua consagrada Coletânea “A Pizza Literária – décima sexta fornada”, aberta aos sobramistas de todas as regionais.
Assim, ciente da importância de cada um fazer a sua parte, convidamos os sobramistas a divulgarem seus escritos em suas redes sociais. Uma forma especial de contribuir para superar esse período tão difícil.
Sim! Escrever é uma arte... É um dom... E, em alguns momentos, pode ser a salvação...

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - MAIO 2020

sexta-feira, 24 de abril de 2020

CHUVAS



Por: Lúcia Edwiges Narbot Ermetice
DERMATOLOGIA


Chuva mansa.
Deslizam suas lágrimas pela vidraça.
As minhas, pela face.

Vento suave.
Lá fora geme suas mágoas.
As minhas, dentro.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

CONGRESSO NACIONAL ADIADO



Tendo em consideração a instável situação sanitária mundial com a vigência da pandemia do Novo Coronaviru, em entendimento com o confrade Dr. Raimundo José Arruda Barros, Presidente do XXVIII CONGRESSO SOBRAMES, programado para setembro, este foi adiado sine die, aguardando o desenrolar da situação para marcação de uma nova data. Apoiamos a decisão em prol da preservação da saúde de todos. 

Arquimedes Viegas Vale
Presidente Nacional da SOBRAMES.


segunda-feira, 20 de abril de 2020

SOMBRAS AO ENTARDECER



Por: Aida Lúcia Pulin Dal Sasso Begliomini
ENGENHARIA

Silenciosamente caminhamos, lado a lado.
Passos lentos e cansados.
Sombras enormes se formam.
Corpos delgados desproporcionais,
brincam e se tocam.
Pernas se entrelaçam,
braços se aproximam e se afastam.
À frente a imensidão branca,
das dunas áridas e perfeitas.
Atrás o sol lança seus últimos raios, 
se pondo lentamente, 
numa explosão de cores 
A leve brisa que vem do mar
se junta ao silencio que envolve o entardecer
Paramos e observamos extasiados,
a perfeição do momento.
Humildes percebemos a nossa insignificância, 
perante a força da natureza.
Nossas sombras se movimentam outra vez.
No rastro que deixamos
ficam as marcas de nossos pés descalços.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

UMA EMOCIONANTE HISTÓRIA SANITÁRIA


Por: Carlos Augusto Ferreira Galvão
PSIQUIATRIA

Ainda que pesassem os dez anos que não ia a Belém do Pará, mesmo ver a admiração estampada no rosto de meus velhos mestres, afinal o antigo pupilo vinha representando São Paulo no primeiro evento da Sobrames paraense, significando assim ter liderado velhos ícones da medicina brasileira, não foram estas as maiores emoções daqueles dias e sim o desfecho da apresentação de meu trabalho de nome “A Cidade Encantada”, na II Jornada Nacional da Sobrames, que aconteceu em 2003.

É fácil escrever sobre Belém, a cidade dos mil encantos. A nostalgia engasgou-me e o fato é que terminei de ler o texto de forma bastante molhada, sendo acompanhado por lágrimas de muitos dos que me ouviam. Um silêncio emocionado de alguns segundos seguiu-se terminando com a pergunta da jovem médica que presidia a sessão literária, menina de vinte e tantos anos, que me atingiu como se fosse um soco emocional: -”Tudo bem Carlos Galvão... Teu texto dispensa comentários, mas tem algo que quero te perguntar desde que soube que virias para nossa jornada; Quem é Silas dos Santos Galvão, e o que ele representa para ti?”

Silas dos Santos Galvão, meu pai, médico formado pela faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia em 1944, especializado em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo em 1950, exerceu sua atividade profissional no estado do Pará como sanitarista do ministério da saúde, até falecer aos 55 anos de idade. E agora uma médica, pouco mais que uma garota, seguramente nascida depois de sua morte trinta anos antes, pergunta-me quem era meu pai. Respondi e, emocionado, perguntei o porquê da pergunta.  –”É que sou a responsável pela Esquistosomose mansonica na Secretaria da Saúde, e um dia resolvi pesquisar quem já tinha andado por este caminho, e o pioneiro foi teu pai”, esclareceu e jogou-me a uma espécie de nocaute afetivo com mais uma pergunta: -”E quem era o acadêmico de medicina que o acompanhou em seus últimos trabalhos?”. Deus do céu! Que velhas lembranças...

A Esquistossomose mansonica, doença grave, muito incapacitante e muitas vezes mortal, não é uma doença americana; atravessou o Atlântico nos navios negreiros, vinda da África alojada nos intestinos dos negros e espalhou-se por quase todo o país, pois encontrou ajuda de um caramujo de nome Bionphalaria glabata e de outra entidade tão perniciosa quanto o pequeno molusco: O Estado nacional e seu eterno descaso para com tudo o que diz respeito ao povo brasileiro. Então se tornou endêmica no sul, sudeste, centro oeste, nordeste, mas poupou a Amazônia. Várias teorias tentam explicar o fenômeno, que vão desde a baixa penetração escravagista no norte, passando pelo isolamento da região até ao grande volume hídrico, que dificulta a procura do “Miracídio”, larva gerada no ovo do parasita, pelo hospedeiro intermediário: o caramujo.

Em meados da década de sessenta do século passado, Silas dos Santos Galvão detectou o surgimento de ovos de Shistisoma mansoni em fezes de crianças de Belém do Pará, que nunca tinham saído da cidade. Ele já andava preocupado pois, com a abertura da rodovia “Belém-Brasília”, levas de pessoas de regiões endêmicas chegariam e poderiam trazer a moléstia, o que de fato aconteceu.

Estava eu no primeiro ano de medicina na Universidade Federal do Pará, quando meu pai expôs sua grande preocupação: tinha planos de descrever os primeiros focos da Esquis-tossomose mansônica na cidade, mas esbarrava em poucos recursos para os exames, levan-tamentos sanitários, etc., e perguntou de que forma a velha Escola de Medicina da Univer-sidade Federal do Pará poderia ajudar.

A adesão foi total. A cadeira de Parasi-tologia cedeu seus laboratórios e ensinou-nos a preparação e feitura dos exames de fezes bem como a identificação dos ovos do parasito, e conseguimos fazer um amplo levantamento nas crianças, identificando muitas contaminadas, percentual em torno de quarenta por cento. A cadeira de Doenças Tropicais do quarto ano também se interessou e ajudou bastante nos levantamentos sócio-sanitários. Verificamos que a doença já se alastrava em áreas alagadas da cidade de Belém.

Com tal ajuda, Silas Galvão brilhan-temente descobriu, descreveu e, posteriormente, saneou os primeiros focos de uma doença grave que chegava a Belém do Pará, mostrando que embora não possua o Bionphalaria glabata, Belém do Pará tem o Bionphalaria stramínea que se prestava a eliminar as “Cercárias”, larvas aptas a penetrar na pele dos indivíduos, iniciando assim um novo ciclo da doença e que esta larva, tanto quanto a sua preceptora o “Miracídio”, havia se adaptado à água ligeiramente salobra da costa belenense.

Foi emocionante sentir que Belém do Pará não tinha esquecido Silas dos Santos Galvão depois de três décadas de sua morte. Em seu tempo ele foi um radar sanitário daquela cidade e faz parte da história da medicina de lá. Ser filho dele e fazer parte desta história é o maior orgulho de minha vida.

domingo, 12 de abril de 2020

TELEFONEMA



Por: Delfim Silva Pires
CARDIOLOGIA

O celular tocou; no meu caso, o toque é um western italiano. Atendi 

— Moisé é a Dora, a Dora, Moisé.

Dizia rápido por cima do meu alô, que, decerto, nem ouvia, tão certa estava de estar com Moisés. Sua voz era entusiasta, cheia de vida, vibrante, comia o “s” de Moisés, como se dessa forma encurtada, estivesse mais próxima do Moisés; ao mesmo tempo, pronunciava a Dora com a sílaba Dó bem aberta, fazendo o mesmo com o Zé de Moisé.

Pela entonação e intimidade, parecia-me que a Dora era só de Moisés e ela o adorava. Quando dizia — É a Dora, até parece que eu ouvia a continuidade: a Dora que te adora, a tua Dora; tamanho o encantamento que havia na voz da Dora. Mesmo com todas essas sensações e sentimentos, tive que dar continuidade a ligação.

Alô, aqui é fulano de tal, não tem ninguém com esse nome. Ela baixou o tom e ainda disse:

— Moisé, a Dora, Moisé, em um tom cada vez mais baixo até se tornar um sussurro e desligar.

Eu fiquei com uma vontade imensa de ser o Moisé da Dora. A Dora devia ser uma mulher muito cheia de si, muito segura, que se dava tão simples e completamente ao seu Moisé, como se não houvesse no mundo outras possibi-lidades, que não o seu Moisé.

Há quanto tempo eu não recebia ou ouvia um chamado com tanta ternura, com tanta vibração...

Que vontade que aquela ligação não terminasse nunca, ainda que eu não fosse o Moisé.

Mesmo que nada fosse pra mim, ouvir aquela voz era muito bom, queria reter o encantamento daquela voz, não queria acabar com o que ela despertava em mim.
Minha realidade era infinitamente mais pobre do que meus sentimentos, do que meus sonhos.

Devia voltar para o isolamento do meu plantão no Sábado de Aleluia...

É, deve ser isso, como todos estão comemorando a Páscoa com suas famílias, estar só fica ainda mais solitário.

Que pena, foi um engano. Engano a ligação, mais que isso, engano dos meus sentimentos.
De qualquer forma, obrigado Dora, ainda que sem querer ou saber, despertou  em mim tais sentimentos! Pra você, para o seu Moisé, e para todos que possuem bondade no coração:

Feliz Páscoa!

terça-feira, 7 de abril de 2020

O SENTIDO DA VIDA



Por: Antonio Soares da Fonseca Junior
CLÍNICA GERAL

I - Quem sou Eu?

Se quem está ao meu lado eu ignoro
Se fechei os meus ouvidos ao seu apelo
Se não sei realmente por quem choro
Se antes não ouvi e também não quero vê-lo

Se a minha mão em sua queda não lhe dei
Em sua doença não doei o meu conforto
Se palavras amigas lhe neguei
Se ao seu barco fechei meu pobre porto

Se todas essas dúvidas me consomem,
Fui espectro de homem. Não fui homem.
Não talhado realmente para isto

Não reconheci um irmão no semelhante
Quem trazia em su’alma e no semblante
A verdadeira face do meu Cristo.


II - De onde Vim?

Eu vim ao mundo nascido do Amor
O plano de Deus: Um homem, uma mulher,
A obra da criação do meu Senhor
Que dispõe de ambos assim como bem quer

Um homem, uma mulher, um útero, uma origem
Por mais humildes que sejam, são seus Pais
A mãe do Grande Deus – uma menina virgem
Era pobre, simples, humilde e muito mais

Casou-se apenas com um pobre carpinteiro
Homem de Fé, bom justo e verdadeiro
E mais uma vez o plano de Deus se expande

Apesar de ser o Criador do Mundo
Usou de um paradoxo bem profundo:
Precisou de dois pequenos pra ser grande


III - Para onde Vou?

Após cumprir minha missão terrena
Após cumprida toda minha sina
O fim da minha vida entre em cena
E a morte fatídica este final assina

O corpo segue sempre para a tumba fria
Quando dele a vida plena se esvai
O Espírito que o anima vai com alegria
Para a mansão dos justos, de volta para o Pai

No Eclesiastes, assim como compete
No capítulo doze e seu versículo sete
Está a grande máxima que já aconteceu:

Acabam-se o sonho tolo e a quimera
E o corpo volta à terra como era
E o Espírito volta a Deus que o deu.

sábado, 4 de abril de 2020

O Bandeirante nº 329 - ABRIL de 2020


O BANDEIRANTE - edição 329 - Abril de 2020

Editorial: 

Literacia Familiar

Março de 2020 será lembrado pela pandemia do coronavírus que fragilizou a saúde física, emocional e financeira do mundo inteiro. 
Perdas irreparáveis e notícias contra-ditórias ainda geram dúvidas, medo e reflexão.
Será possível visualizarmos aspectos positivos nesta crise global? Evidente que sim.
Os cuidados básicos de higiene foram enfatizados e o zelo pelos nossos idosos, incrementado. Além disso, entramos em contato com o nosso “eu” e intensificamos o convívio familiar.
Descobrimos novos meios de passar o tempo confinados em casa e, nesse sentido, a Internet e o celular assumem uma conotação ampla, auxiliando a cumprirmos o dis-tanciamento social sem nos isolarmos totalmente.
Resgatamos jogos lúdicos para distrair as crianças, retomamos o prazer de preparar a própria comida e, com certeza, comprovamos o poder da literatura quando nos desligamos, por alguns momentos, da realidade e mergulhamos no mundo mágico dos livros e da contação de histórias.
Para nós, sobramistas, que temos o privilégio de expressar sentimentos por meio da escrita, uma oportunidade de finalizar aquele texto que não havia sido completado por falta de tempo, embora muitos dos nossos filiados continuem trabalhando.
Ontem, eu vi no noticiário moradores de um prédio cantando, cada um na sua sacada, para em seguida aplaudirem os médicos. E aqui eu estendo a gratidão para todos os profissionais que garantem o básico para a sobrevivência.
Hoje, 27 de março, ao escrever este editorial, a tristeza se mescla com a fé na bênção Urbi et Orbi do Papa Francisco diante da praça de São Pedro vazia, mas acompanhada por todos os meios de comunicação, unindo as diversas partes do mundo.
O que acontecerá daqui para frente? Uma incógnita!
O tempo, porém, irá confirmar que somente pela união seremos capazes de preservar o nosso bem mais precioso: a vida.

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - ABRIL 2020

sábado, 28 de março de 2020

UM TROFÉU

Por: Josias Pereira dos Santos
CARDIOLOGIA

Vaguei ao léu, perdido nos meus dias
Tão inútil de amor era a procura.
Perambulei indigno nas porfias 
Que minha alma travava entre loucura.

Perambulando errei por muitas vias
Em busca de um amor a ter por cura.
E nessas esquisitas agonias
Eu vivia uma trama de amargura.

Mas tu apareceste em meu caminho 
Como um presente advindo lá do céu
Pra corrigir de vez meu desalinho.

E fico a meditar... se estive ao léu 
Foi pra te encontrar com teu carinho
Que o destino me trouxe por troféu.

terça-feira, 24 de março de 2020

JOVENS MULHERES


Por: Camilo André Mércio Xavier
ORTOPEDIA

Guerreiras, perseverantes
assumindo ideias novas
donas de suas horas
ganharam o mundo
mantiveram-se jovens
fizeram escola

isso é tudo o que vale
continuem formosas
de espírito e de ação
pelo belo presente
meu coração vibra
e beija enternecido
suas abençoadas mãos

sábado, 21 de março de 2020

DIÁLOGO


Por: Josef Tock
OFTALMOLOGIA

Estou de passagem
por uma plêiade de estrelas,
a bordo da nave espacial
fitando horizontes cósmicos.

Estou de passagem
sem fazer conjecturas,
procurando informações
à existência de outras vidas.

Coletando fragmentos de Sol
um pedaço daqui
se adere a outro ali,
iluminando minha vigília.

Àquela estrela colorida
juntarei no aconchego
das sombras evanescidas,
os sonhos e as réstias de luar.

Na escuridão do espaço
reunirei todas as estrelas
para com elas dialogar.

quarta-feira, 18 de março de 2020

A MULHER E O PODER


Por: Maria do Céu Coutinho Louzã
RELAÇÕES PÚBLICAS

Cena nº 1
Muito cedo pela manhã desce do ônibus uma mulher ainda jovem que, com a ajuda do motorista, baixa um carrinho-cadeira com uma criança. Esta, não muito pequena, tem uma deficiência física séria e semblante estranho. Estão próximos a um Centro de Reabilitação para onde ela se dirige, empurrando valentemente a cadeira, mas com certa dificuldade, pela calçada irregular.

Cena nª 2
Sete horas da noite. Em uma avenida de São Paulo. Um trânsito infernal como costuma ser. Num cruzamento, com sinal de trânsito, uma jovem morena, um pouco mais gorda do que magra. Em um dos braços – com uma amputação abaixo do cotovelo – carrega uma lata pendurada: um fogareiro improvisado, com carvão em brasas vermelhas. Com a outra mão segura cartuchos com amendoim, que vai oferecendo aos motoristas que param quando o farol fecha. Da cabeça desce um fio do auricular, que deve ser o rádio que a acompanha. Ela corre por entre os carros oferecendo valentemente o amendoim torrado. Fecha o sinal. Ela para, volta para a calçada e imediatamente começa a dançar. Parece acompanhar a música que deve estar ouvindo. Requebra com jeito. Parece cantar sempre olhando para os lados e para o farol. Aguarda o momento de iniciar a sua corrida em busca de fregueses, talvez para completar o seu sustento. Parece feliz.

Cena nª 3
Num cruzamento de avenida movimentada, uma família estacionada na calçada: o farol fecha e o que parecia ser o pai ia acercando-se dos carros para pedir ajuda. Três crianças se divertem, correndo de um lado para outro. A mãe e um menino, talvez com menos de um ano, sentados em um cobertor estendido no chão. Com um picolé na mão, a mãe vai oferecendo-o ao pequeno e também às outras crianças, que se aproximavam para dar umas lambidas, com-partilhando assim, aquele único sorvete. O sinal abriu e segui meu roteiro e deixei para trás mais uma história de vida.

Cena nº 4
Uma senhora ainda jovem para os anos que tem, bem vestida e penteada acaba de receber a faixa que representa o poder que lhe foi dado, por votos democráticos, em eleição para presidente do seu país, o maior da América do Sul e que está entre os maiores do planeta. Após o discurso de posse, vitoriosa e elegantemente, passa em revista a tropa que lhe deverá prestar obediência. A sua posse é vista por todos os meio televisivos e mais ao longe, uma multidão a aplaude insis-tentemente.

Cena nº 5
Em Abu Dhabi – Emirados Árabes, em visita protocolar duas mulheres caminham lado a lado. Visitarão um templo. Uma, a anfitriã, descalça, com roupas longas e um manto cingindo a cabeça de maneira a cobrir bem os cabelos. Ao seu lado, uma rainha de mais de oitenta anos. Há quase 60 anos recebeu o poder de reinar em um país ocidental, de inúmeras tradições. Também descalça (embora de meias), traja sobre a sua indumentária um casaco longo e, um lenço grande, amarrado sob o queixo, cobre-lhe o chapéu e os cabelos brancos, de acordo com costumes da terra que visita.

A algumas mulheres é dado o poder de chefe de estado, herdado, que deverão exercer por toda a vida, no seu país, sobre os seus súditos. Reinarão por herança, da maneira que lhes é imposta: por tradição e esperada pelos seus súditos.

A outras o poder lhes é dado conforme as leis de seus países: foram eleitas, por voto direto do seu povo. Assim exercerão esse poder, por tempo determinado, da melhor maneira, que a população confiante espera.

Mas por que não nos lembramos do poder, não como autoridade, mas como virtude?

O poder de uma mãe, que com sacrifício, reúne todas as suas forças, para diariamente sair de seu lar (será talvez em uma favela), carregando um filho deficiente, em busca de ajuda para sua reabilitação, para poder ter uma vida melhor. Lutam muito, numa luta silenciosa, buscando, com amor, auxílio para que os filhos sobrevivam e sejam felizes.

Onde encontrar tanto poder de amor na mãe que, vivendo uma vida errante, talvez sem um lar decente para abrigar a família, consegue adoçar momentaneamente, a alegria de seus filhos, em meio ao tumulto de uma cidade grande. E que – diante das vicissitudes – tem o poder de manter a família unida.

Aquelas que não encontrando oportuni-dade de trabalho vão à luta no dia a dia, superando uma deficiência física. Precisam lutar contra as adversidades da cidade grande, mas não desistem. Com uma força interior e de alguma forma, com criatividade trabalham hones-tamente. Conseguem sobreviver, encontrar momentos de alegria, cantando e desafiando a sua limitação e, quem sabe, serem felizes.

É impossível medir o quanto existe de poder como virtude na mulher que usa o seu coração, sem medir forças, com disposição firme e constante, para lutar nas dificuldades que a desafiam no seu dia a dia. E dessa maneira, aquelas que não encontrando oportunidade de trabalho, vão à luta no dia a dia e quem sabe com alegria. São essas e outras mais, que guardam, num coração pequeno, um grande poder de lutar  contra adversidades  todos os dias de suas vidas.

Não será mais forte esse poder na mulher, que é na realidade um sentimento de sobrevivência e de luta silenciosa e sem tantos espectadores observando?

domingo, 15 de março de 2020

COISAS QUE VIVI


Por: Pedro Durães Serracarbassa
OFTALMOLOGIA


Saudade do tempo
em que as máquinas eram de escrever
Dos amigos que perdi no caminho
Dos vizinhos que se mudaram
Da escola de porta aberta
e suas longas escadas

Dos amores que imaginei
e das mulheres que fingi amar
De dançar ingenuamente frente
a televisão
Da coleção de selos que me fez
reconhecer o mundo

De escrever estórias de começo
e fim sabidos
De procurar discos raros no centro 
De esperar meu pai chegar
e de não saber que um dia ele partiria
Da mão dada de minha mãe no parque
que hoje não reconheço mais

Do mar de horizonte sem fim
Do dinheiro contado
pra bala e pro gibi
Dos jogos de bola na rua
quebrando vidraças
Do bairro que tudo ali continha

Tudo parecia tão simples
O tempo corria mais lento
Como não viver do passado
se o presente esmaga e se apressa
em apagar o futuro.

quarta-feira, 11 de março de 2020

UM FATO RECORDA O OUTRO


Por: Luiz Jorge Ferreira
CLINICA GERAL

Após ler um texto de Fernando Canto, em que ele traz nas recordações um pouco do Carnaval de Macapá, fui levado até ao princípio dos anos 60, mais precisamente 62, em o período de maior frequência da garotada da minha geração moradora nas imediações da Sede Escoteira Veiga Cabral, no bairro do Laguinho, local em que muitos esportes eram praticados; e sob a batuta do Chefe Humberto, também, as artes: encenações de cordões juninos, peças teatrais e espetáculos musicais.

Por época de quase fevereiro de 1962, a recordação nos leva até o Bloco Caçula do Laguinho. Era um Bloco Infantil criado a partir da observação de Seu Paulino, pai do Joaquim Ramos – o Quincas – exímio passista, que com outros meninos, do lado de fora da Sede Escoteira, no espaço entre a Sede e o Campo de Treinamento do São José, munidos de latas vazias de Cera Poliflor e velhas frigideiras já sem uso, batucavam e obedeciam ao apito por assobio do Lelé; batucavam, cantavam e criavam
Sambas, muitos até copiados do Boêmios do Laguinho, ou dublês de alguns sambas enredo do Rio.

Seu Paulino colocou ordem na casa. Fez os garotos obedecerem ao posicionamento, criou paradas para a batucada fazer um breque, conseguiu fantasias para as Pastoras, Porta Estandarte e Mestre Sala e uniformes para os batuqueiros, tudo muito organizado.

Íamos já depois de muitos ensaios, às Batalhas de Confete, que aconteciam em vários bairros inclusive no próprio Laguinho, defronte a Casas Comerciais de importância renomada, por toda cidade em festa.

O Caçula do Laguinho, por ser formado por crianças na faixa dos 10 a 13 anos, tinha o acompanhamento dos pais ou responsáveis; D. Josefa, era uma dessas pessoas, com muitos dos seus filhos e filhas sendo participantes: Pedro Ramos, Joaquim Ramos, Neck e algumas das suas filhas.
No Segundo ano de Desfile, no ano de 1963, o Bloco já criava seus Sambas, coletiva-mente com Nonato, Luiz, Lelé, Saçuca, Pedro, Zeca, Tomé, Munjoca, Arlindo, Queiroz, Joaquim, Zé Paulo, Sacaquinha, seu Rô...  As irmãs, as primas, e as amigas, engrossavam o coro.

Os Caçulas do Laguinho fizeram a alegria dos pais dessa petizada Carnavalescamente precoce. O pai do Saçuca – seu Sussuarana –, providenciava os couros para os instrumentos de percussão, e as caixas de madeira para criar os tambores. O Gabi, o Zé Cueca ou o Cecilio davam um jeito de arrumar.

Afinar era fácil: uma fogueira, e pô-los a esquentar seus couros, e baquetas na mão, batendo de leve e ouvindo o som apurar no tom.

Destes participantes do Caçula, amigos de infância, muitos munidos de seus Sambas, com o som dos seus repiques no ar, não estão mais conosco. Porém muitos destes enveredaram pelo caminho da Arte e ainda nos proporcionam alegria com suas criações.

Foi só ler o texto do Fernando e parece que me arrumei na casa do Lelé. Desci a Av. Ernestino Borges: frigideira na mão, pés tirando poeira da rua e toda a felicidade na cara sorridente, nascendo as primeiras espinhas.
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