domingo, 1 de março de 2020

O Bandeirante nº 328 - MARÇO de 2020


O BANDEIRANTE - edição 328 - Março de 2020

Editorial: 

Homenagem às mulheres

Março registra merecidas homenagens às mulheres que há muito vem inspirando músicos, poetas e prosadores.
Para Carlos Drummond de Andrade, é próprio da mulher o sorriso que nada promete e permite tudo imaginar.
Mulher que é princesa encantada da quimera (Florbela Espanca) com irrecusável poder de atração, portão do corpo e da alma (Walt Whitman). 
Surpresa do ser (Fernando Pessoa).
Mulher que é um catavento e vai ao vento que soprar (Machado de Assis).
Que é como a própria lua, tão cheia de pudor que vive nua (Vinicius de Moraes).
Para Victor Hugo, Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
Mulher com graça dos olhos onde chora e ri um sonho (Paul Verlaine).
Que para falar de sua vida, tem de abaixar as quase infantis pestanas e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas (Cecília Meireles).
Para Pablo Neruda, o coração de uma mulher é o que faz o mundo girar.
Que quando fala, dos seus lábios voa uma aura suave, trescalando amores (Dante Alighieri).
Leda serenidade deleitosa que representa em terra um paraíso (Luís Vaz de Camões).
Mulher que é filha, mãe, esposa, compa-nheira, profissional, amiga, conselheira...
Que merece não apenas homenagens, mas também respeito e a mais sincera gratidão.

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - MARÇO 2020

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

IDEIAS FUGITIVAS

Por: Sérgio Gemignani
PSIQUIATRIA

Uma ideia que vem e foge rapidamente, se esconde na imensidão de ideias e se finge de esquecimento. É uma boa ideia, mas se julga ainda verde, imatura, pouco elaborada, como se pudesse ser de outra natureza que não oriunda de induções e deduções. Mergulha novamente entre percepções recentes e inconsequentes, hodiernas, cotidianas, para não ser pinçada, escolhida entre as boas, as melhores ideias que alguém pudesse ter tido. Tem futuro, é quente, mas se sente insegura, tímida, discrepante do lugar-comum, estranha, original. 
E, isso a assusta e como se tivesse vida própria, se apaga.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

MENINO DE RUA

Por: Mélida Francisca Velasco Cassanello
CARDIOLOGIA

Menino da rua 
Dos olhos profundos
Onde estão teus pais?
Menino da rua 
Dos olhos profundos
Onde está tua escola?
Menino da rua
Dos olhos profundos
Onde estão teus governantes?

Menino da rua
Dos olhos profundos
Onde está teu presente?
Onde está teu futuro,
Menino da rua
Dos olhos profundos?
Quantos dias de fome 
Sem um pão para comer

Menino da rua 
Dos olhos profundos
Quantas noites sem lua 
Quantas noites de frio 
Menino da rua 
Dos olhos profundos
Quantas noites sem teto
Menino da rua
Dos olhos profundos
Sem caminho sem horizonte
Sem presente sem futuro 

Menino da rua 
Dos olhos profundos
Vamos fechar os olhos
Vamos dormir
Amanhã quando acordar
Quem sabe alguém 
Se acorde de ti 
E te dê um teto para morar
Uma família que cuide de ti
Uma escola para estudar

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

NOSSO JARDIM

Por: Nelson Jacintho
ORTOPEDIA

Venha, mais uma vez, passear
pelo jardim que nós plantamos!
Quantas rosas, quantos cravos,
quantas margaridas cultivamos!
Quantas vezes ouvimos os sanhaços
e os sabiás soltarem seu gorjeio!
Como cantavam de peito cheio!
Quanto beija-flor
por aqui passou cheio de amor!
Como passavam a beijar a cada flor!
Os canários da terra!
Como eram lindos os canários da terra!
Ouvi dizer que moravam na serra,
mas vieram para cá por causa do nosso jardim!
Quantos ninhos fizeram à sombra dos jasmins!
Venha...  Por falta de tempo ou de motivo
nosso jardim está um pouco envelhecido!
Venha comigo!
Vamos, de novo, replantá-lo, de novo cultivá-lo
para que, de novo, possamos desfrutá-lo!
Jardim é como o amor!
A cada dia temos de plantar uma flor!
Venha! Venha comigo!
Não deixemos murchar o nosso amor!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA COLETÂNEA 2020

Escolha a capa ao inscrever-se.


Não deixe de participar desta obra que já é consagrada no cenário literário da Sobrames em todo o Brasil. O novo volume da série de coletâneas da Sobrames-SP já está sendo preparado e tem lançamento previsto para outubro de 2020. "A Pizza Literária - décima sexta fornada" é uma obra de edição cooperada e deve reunir textos literários de autores da SOBRAMES paulista.

Para participar, os autores devem preparar os seus textos de acordo com as regras de edição e enviar os seus originais e ficha de inscrição para a redação da editora Rumo Editorial. Este blog contém em suas páginas as diversas informações necessárias para que os autores possam enviar seus trabalhos.


https://coletaneasobrames2020.blogspot.com/

sábado, 15 de fevereiro de 2020

NOVO ANO VELHO

Por: Izabella Cristina Cunha
COLOPROCTOLOGIA

No último dia 
Que é qualquer dia 
De um dia qualquer 

Brotou 
Um dilema 
Ardor e um poema 
Premissas da fé 

Nasceu a esperança 
De um futuro em dança 
Ou bailes ralé 

No último dia
Cá rego agonias
Que transformo em pés

De plantas-tormento
Que ao longo, lamento.
Ou faço sapés

Inundo ou seco
Adubo ou renego
Sem esforço sequer

O último dia 
Dos demais judia 
Se aquém estão

Caracolo feitos 
Esmurro os defeitos
Em prol da estação 

Traz hora arredia 
Contém ousadia 
De jurar em vão 

Ou de ser a rédea 
Dos trotes que em média 
Na vida trarão

O último dia 
Que quer ser a guia 
Que vida requer 

Carrega a alegria, 
Encanto e magia 
Se ornas de axé 

Calejo blasfêmias  
E lanço poemas 
Não como os de ré 

Ciscando à frente 
Emano correntes 
De luz, paz até 

No último dia
Que é qualquer dia
Que é qual quer Dia
Que é o que é

Cá checando os sonhos
Tão só te proponho
A seguir de pé

Os votos que tenhas
Há pedras
Que venha!
Nus, dias quaisquer

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

NOSTALGIA

Por: Alcione Alcântara Gonçalves
PSIQUIATRIA

Hoje, se canto a tristeza,
É por uma incerteza,
Pelo nosso amor,
Que não teve fim.

Se na melancolia deste momento,
Vislumbro aqueles bons tempos,
Revivendo um amor, que o
Desamor, não pôde dar fim.

Amando o amor que em ti encontrei,
Relembro o amor que a ti dediquei,
Não me conformando em saber,
Que este amor morreu.

Se morreu dentro de ti,
Continua aceso em mim,
Embora mascarado pela tristeza,
E, por tantas incertezas,
Que mergulhando no meu âmago,
Procura se esconder,
Neste meu inconsciente sem fim.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

ALGUNS AFORISMOS DO BENATTI

Por: Carlos José Benatti
GINECOLOGIA

*Cada pessoa tem uma história que totalmente desconhecemos, mas arrogantemente a julgamos...

*A vida passa muito rápido quando nela não há comemorações.

*Quer guardar dinheiro? Aprenda a comprar com os pobres.

*O medo de ser criticado criou a moeda de dupla face...

*A inteligência artificial será o apocalipse do emprego.

*Quando não há reflexão, um erro se segue ao outro.

*Arrogantes não sabem dizer obrigado... São sempre ingratos...

*Todo cego é magro. Comemos com os olhos, a boca é só ferramenta.

*Quando vemos líderes falarem em vingança é porque a paz está indo embora
e o ódio assume o protagonismo, o que é sinal de que a loucura começa a se insinuar...

*Sempre que se parte de uma premissa falsa, algo vai dar errado!

*A São Silvestre de 2019 mostrou que não olhar para trás pode custar uma vitória. 

*Hoje todas as informações vão para as nuvens, onde nosso cérebro já estava há muito tempo.

*Carma é o direcionamento inexorável do alinhamento do DNA da constelação familiar e de dívidas do passado.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

NASCE A MESTRA

Por: Alitta Guimarães Costa Reis
PSIQUIATRIA

Ao completar cinquenta anos de magistério, dedico esse texto 
a todos os meus mestres e a todos os meus alunos, com gratidão.

“Sou formada, como professora, desde 1969. Estudei muito. Lecionei em todos os níveis de ensino. Uma honra!
Lembro-me do dia em que realmente entendi a importância de ser professora. Foi quando recebi um cartão especial.
Sete anos atrás, eu havia entrado em classe do ensino médio, substituindo um professor que havia faltado. A aula era sobre o Japão. Eu havia lido sobre o “milagre japonês” e estava bem entusiasmada. Eram muitos alunos em sala, eu precisava usar um microfone. No fundo, sentado desajeitadamente numa cadeira, havia um moço magro, de pernas cruzadas, desenhando com muita rapidez, com uma caneta esferográfica azul. Quando me aproximei, vi que ele desenhava um samurai. Estava perfeito, nos mínimos detalhes. Ele me viu, fechou rapidamente a apostila, como se esperasse ser repreendido. Então eu disse: “Que lindo!”
Na hora do intervalo, ansioso e ainda hesitante, ele me trouxe suas apostilas e compartilhou comigo sua arte. Centenas de desenhos bem feitos, num preenchimento obsessivo de espaços. Um dos desenhos me chamou a atenção: tentando impedir uma enorme tesoura de se fechar, com braços e pernas estendidos, estava um homem, sangrando muito, com um semblante de dor. Era de arrepiar. Então ele me explicou que o pai dele estava na UTI, muito mal. E que, além da preocupação pela sua saúde, temia que a mãe, ele e o irmão passassem fome, se ele viesse a morrer.
E eu disse: “Fome? Com isso que você sabe fazer?”
Facilitei o contato dele com uma pequena fábrica, e durante anos vi, passeando pela cidade, os inconfundíveis desenhos dele, estampados em dezenas de camisetas.
Eu me mudei, perdi o contato, e sete anos se passaram.
E agora eu estava com o cartão em mãos, desenhado por ele.
Quando abri, vi que era uma carta de agradecimento e um convite. A família estava bem. Ele me agradecia muito, e me convidava para uma exposição própria, na capital. Comunicava também, muito empolgado, que havia ganho uma bolsa para o exterior, e que em breve viajaria. E completou: “Toda a minha vida mudou quando a senhora falou aquilo, que o meu desenho estava lindo”.
Emocionada, refleti então sobre o poder que eu tinha. Que responsabilidade! A palavra certa mudara tudo na vida dele. Eu estava muito feliz, porque tive oportunidade de ajudá-lo, e porque agora ele tinha paz e um propósito na vida.
E, naquele dia, profundamente grata a D’us, entrei em oração, sentindo que, realmente, eu me tornara mestra”.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O BANDEIRANTE nº 327 - FEVEREIRO de 2020

O BANDEIRANTE - edição 327 - Fevereiro de 2020

Editorial: 

Recomeço

A cada três meses, a diretoria da SOBRAMES SP escolhe um tema para os textos apresentados na Pizza Literária. O objetivo é exercitar a criatividade, além de, quem quiser participar, concorrer a um vale brinde.
Nesse mês de fevereiro, o tema é “Recomeço”, reforçando a ideia de que o ano só começa de fato após o Carnaval.
Não há como duvidar que todo começo implica em iniciativa, fé e dinamismo.
Acontece que “recomeço” vai mais além. A própria palavra pressupõe um antecedente inacabado, uma falha ou um distanciamento.
Por isso “recomeço” exige coragem, esperança e uma visão ampla da situação, evitando os deslizes anteriores.
Quem já não se propôs a recomeçar exercícios físicos, uma dieta ou um relacio-namento afetivo?
Para nós, sobramistas, esse mês de fevereiro é também uma ótima oportunidade para rever os escritos guardados na gaveta e novamente se programar para finalizá-los e, quiçá, publicá-los.
Mas, por enquanto, a curiosidade se concentra na Pizza Literária e na grande magia de, a partir de um mesmo tema, criar textos de óticas e estilos diversos, todos muito interes-santes.
Pensando à frente, que tal já irmos preparando alguns textos para a edição da Coletânea SP 2020? Sem esquecer o Congresso SOBRAMES no Ceará, é claro!
As portas estão sempre abertas...

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - FEVEREIRO 2020

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

ALVORECER!

Por: José Rodrigues Louzã
GINECOLOGIA
(in memoriam)
1929 - 2015

Clareia nosso dia muito lentamente...
Pássaros pouco a pouco a se agitar...
Ouvimos o sabiá alegre a trinar,
E o canário a dobrar insistentemente.

Os bem-te-vis a acusar, soberanos.
Maritacas em bando a assobiar.
Todos eles começando a voar
Nas árvores, jubilosos e urbanos.

Música de aves logo ao alvorecer,
Mesmo nas cidades em que vivemos,
Com tão pouco verde na natureza,

Ainda conseguem nos oferecer
E com elas, felizes convivemos,
Ao saudar o amanhecer  com beleza!

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A MAÇÃ E O PARAÍSO

             
Por: Josyanne Rita de Arruda Franco
PEDIATRIA
             
                          Um convite ao pecado                             
Ofereceu-se em maçã.
Fruto que foi recusado, 
Sem intenção de descaso,
Apenas oferta vã.    

Vestidos no paraíso...
Almas desnudas, acesas!
Na pele o sol a pino...
Nos olhos rios salinos...
No peito, nuvem de estrelas.

Em silêncio repousando,
Antes que fosse tarde
A fresca maçã do desejo
Aguardava ensalivar-se
Em bocas pedindo beijos.

Eva enganava a verdade
Disfarçando, com beleza, 
Os tristes olhos da vontade
De Adão, que arfava saudade,
Ancorado em outra presa.

Libido, ternura, deleite!
Adornando o ventre livre,
Um conflito: recusa ou aceite?
Eva disse: aproveite,
                                    Impulso tem o que vive...                                  

 Eva perdeu-se de Adão
 Que vive no paraíso
 Entre flores, fruta e pão,
 Cercado de solidão...
 Sem o viço das sandices.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A IMPORTÂNCIA DAS ACADEMIAS DE LETRAS NA TRANSFORMAÇÃO DO SER HUMANO

Por: Helio Begliomini
UROLOGIA

“Quem não vive para servir não serve para viver”. (Máxima popular.)

As academias sobrevivem desde tempos imemoriais. São mais que bimilenares. Tem-se que a primeira delas originou-se com Platão (427-348 a.C.), no ano de 327 a.C. Ele se reunia com seus discípulos para discussões filosóficas – origem de sua renomada Escola –, no mesmo local em que teria morrido o herói Akademus, galardoado pelos deuses com a intocabilidade de seus domínios e em cujo sítio fora construído um templo à deusa da sabedoria e da inteligência, Atena.
 Por inspiração e por atavismo, seus seguidores cultivavam os valores da in-teligência, da sabedoria e da beleza e permeavam seu relacionamento com as virtudes da fraternidade, solidariedade e lealdade.
Embora muito distante da hodierna era da informática, o aparecimento da academia mescla o mundo real com o etéreo ditado pela substanciosa e fértil mitologia grega.
A academia de então nada mais era do que o embrião das universidades que viriam a se formar na Europa medieval dos séculos XII e XIII, particularmente na Itália e na França.
O grupo aglutinado ao redor de Platão e, ao longo dos séculos subsequentes no seio de outras instituições congêneres, tinha como denominador comum o anseio pelo conhe-cimento, pelo entendimento ou ciência e, por conseguinte, pela verdade. Esses mesmos ideais e anelos distinguiam seus membros dos cidadãos comuns, irmanando-os naturalmente em confrarias, ainda que não se jactassem com esse nome.
É próprio do ser humano viver em sociedade e defender seus territórios, mesmo que sejam de ordem cultural. Assim, com os membros das academias surgia naturalmente a necessidade de se proteger e de se querer bem. 
As academias, que desde priscas eras começavam a arregimentar entre seus membros, cada vez mais, um grupo seleto de participantes – uma massa pensante crítica e influente, nem sempre condizente e, por vezes, contrapondo-se com os interesses dos governantes –, não resistiram ao poder e a interferência do mando político, sendo, a tradicional Academia de Atenas supressa, em 529 d.C., pelo imperador romano Justiniano I (483-565).
Observa-se que as academias surgiram da necessidade inata que plasma o ser humano de se aprofundar no conhecimento, através do exercício da razão, para, em seguida, interagir e interferir com a vida em sociedade.
De nada vale segregar o conhecimento adquirido ou a verdade encontrada (deduzida), por vezes a duras penas, dos demais membros da sociedade, alijando-os das benesses deles advindos, ainda que eles não estejam preparados para compreendê-los ou utilizá-los.
As academias ressurgiram com plena força na transição entre a Baixa Idade Média e a Idade Moderna, particularmente nos séculos XV e XVI, com o Renascimento, e tiveram na Academia Francesa, fundada, em 1635, pelo cardeal Richelieu (1585-1642), seu paradigma, o qual as têm norteado até os tempos atuais.
Dentre as prerrogativas que caracterizam as academias dos tempos modernos está o número restrito de participantes – limitados tradicionalmente em quarenta – e, a vita-liciedade, ou seja, a eleição de um novel acadêmico só pode ocorrer com a morte de um titular.
Assim, ao longo do tempo, os pertencentes às academias foram alcunhados de imortais. E a “imortalidade” lhes deve ser familiar, não no que tange a materialidade e a efemeridade de seus corpos, mas sim, ao alcance e a importância de suas obras e feitos.
Felizmente, hoje em dia, há um grande número de pessoas que poderia pertencer às academias. Pelo graduado contingente disponível, sobremodo em grandes cidades, e pelo tradicional afunilamento no ingresso em tais sodalícios, não seria nenhum atrevimento dizer que há, até, proporcionalmente, maior número de talentos fora do que dentro dessas entidades.
É natural que tais prerrogativas limitam muito os eleitos e que critérios nem sempre técnicos, mas subjetivos, políticos, de amizade e de benemerência, dentre outros possam prevalecer, por vezes, na escolha de um candidato.
Verdade também é que nem todos os elegíveis têm o espírito acadêmico de viver e de compartilhar seus feitos em grupo, em coletividade. Embora a excentricidade e a vaidade sufoquem ou arrefeçam os predicados de alguns acadêmicos, para outros, apesar de seus méritos, tornam-se fatores impeditivos de pertença a tais silogeus.
Isto posto, merece reflexão serena, ao mesmo tempo em que profunda, por parte das academias – lato sensu –, de seus dirigentes e de seus membros, uma vez que tais instituições não devem ser tidas como fossilizadas, démodé, inertes e marginais. Ao contrário, precisam disponibilizar sua cultura, seu conhecimento, seus virtuoses ao bem comum social, interagindo e melhorando seu entorno, tão amplo quanto possível, tal qual a propagação de ondas numa superfície líquida.
As academias de letras pelo seu próprio mister devem interagir com suas comunidades, escolas, faculdades, universidades, bibliotecas e instituições congêneres, oferecendo programas de palestras, conferências, cursos, tertúlias e instituindo concursos literários, a fim de promover o cultivo do vernáculo, a divulgação da cultura e o fomento pelo saber.
No contexto hodierno há dois fatores que se lhe antepõem nesse desiderato: um intrínseco e outro extrínseco. O primeiro deles deve-se aos parcos recursos que perpassa a quase totalidade das entidades culturais neste país, contribuindo para abortar projetos sequer concebidos, gestados ou paridos. A esse fator acrescenta-se o desgaste que a todos acomete pela azáfama da vida moderna, tornando quaisquer que sejam as ações diletantes, portanto, não-remuneradas, como secundárias ou não-prioritárias. E vários acadêmicos não têm ficado imunes a mais este percalço dos tempos atuais.
Na esteira desse pano de fundo deve-se citar que, como fator extrínseco, vive-se numa sociedade marcada pelo utilitarismo, prag-matismo, materialismo e hedonismo que, por sua vez, desconsidera ou ignora os valores do espírito e da cultura. Paradoxalmente, a mentalidade reinante do self-service e do descartável contrapõe-se ao interesse pelo estudo, pelo aprofundamento, desvalorizando o sacrifício, o sentimento e o altruísmo.
É neste contexto, minado por forças antagônicas internas e externas, que as atuais academias de letras – verdadeiros oásis culturais –, regra-geral, se encontram. Curiosamente, é também nele em que elas devem encontrar o substrato de seu plano de ação, ou seja, mostrar o porquê de suas existências, transformando realidades e humanizando ambientes.
Nada mais oportuno do que lembrar o lema da Academia das Ciências de Lisboa fundada, em 1779: “Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria”, traduzido por “Se não for útil o que fizermos, a glória será vã”.
A fim de que o ideal do conhecimento, ciência, sabedoria, beleza e verdade mate-rializado na vetusta Academia de Platão, mas inerente a todo homem, não esmoreça, os hodiernos acadêmicos e seus sodalícios de letras deverão labutar contracorrente e em desvan-tagem, haurindo energias e vitalidade de seus precursores, a fim de suavizar a fantástica saga humana.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

MEIA NOITE MÁGICA

Por: José Hugo de Lins Pessoa
PEDIATRIA

Carlos abriu a porta do apartamento, 21:00 horas, um grande silêncio. Desde que separou da Patrícia, voltar para a casa vazia é o pior momento do dia. Colocou uma dose de uísque no copo, sentou-se no sofá de três lugares, tirou a gravata e bebeu lentamente toda a bebida. Hoje o trabalho no escritório tinha sido diferente, dia do seu aniversário, recebeu parabéns dos colegas e surpreso ouviu o chefe dizer: depois do almoço tire a tarde de folga, presente de aniversário. E pensou: trinta e sete anos, já estou próximo dos quarenta. Colocou outra dose, olhou o apartamento e sentiu uma enorme tristeza, pensamentos pesados, a mente nublada. Lembrou um verso do grande poeta Paulo Bomfim: “Minha cidade amanheceu coberta de nuvens. Empino um pensamento colorido e...”, não conseguiu terminar, ficou emocionado. O poeta procurava “notícias do sol”, ele precisava de notícias da Patrícia.
Colocou outra dose no copo, tirou os sapatos e escolheu uma posição mais cômoda no sofá. Sofá que ele dividia com a Patrícia todas as noites quando chegava do trabalho, antes do jantar. Alguns dias pulavam o jantar, até a hora do café da manhã. Imerso em recordações, ouviu nitidamente a voz da Patrícia dizer as três palavras que homem nenhum esquece. Não eram simplesmente palavras, palavras todas as pessoas podem dizer. A Patrícia falava com sentimento. Para ela as palavras, todas as palavras, eram carregadas de verdade e de emoção. Com esses pensamentos ouviu o telefone tocar e ficou com esperança de que fosse ela com cumprimentos do seu aniversário, tinha esperado o dia todo por isso.  Pegou o telefone e disse alô, ouviu a voz do seu amigo Flávio dizendo: parabéns. Conversaram 3 minutos, Flávio perguntou: onde passou à tarde, liguei no escritório me disseram que você não voltaria hoje, a Sandra preparou um jantar para comemorar seu aniversário. Agradeceu muito, esse era um casal amigo, grande amigo, há mais de 10 anos. Nos últimos três meses, desde a sua separação da Patrícia, eles sempre o convidavam para jantar na casa deles. A conversa acabou com a promessa de marcarem um almoço.
Levantou-se, foi tomar um banho para ver se conseguiria dormir. Deitou-se no meio da cama, rolou de um lado para outro e não conseguiu conciliar o sono. Voltou a tomar outra dose de uísque, e olhou o relógio. Eram 23:15 horas. Pensou no trabalho que começava às 8:00 horas e adormeceu. De repente, ouviu a campainha da porta tocar.  Meia-noite.  Abriu a porta. Patrícia, exuberante, em um vestido azul, entra no apartamento e, citando Paulo Bomfim, diz: “À meia-noite, os ponteiros se amam”. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O BANDEIRANTE nº 326 - JANEIRO de 2020

O BANDEIRANTE - edição 326 - Janeiro de 2020

Editorial: 

Ano novo: o que muda?

Que mágica é essa que, ao badalar da meia noite, começando um novo ano, consegue fortalecer até a mais tênue esperança?
O calendário define, o relógio confirma, os astros se alinham e nós acreditamos que um ciclo se finda para imediatamente iniciar outro, trazendo grandes expectativas.
Acontece que a vida flui tal qual um rio... E como afirmou Fernando Pessoa em seu poema “Ano Novo”: “Nada começa. Tudo continua”.
Ferreira Gullar, por sua vez, considerava que o Ano Novo “Não começa nem no céu nem no chão do planeta: Começa no coração.”
Ambos consideravam que a mágica da virada não existe, mesmo porque se continuarmos com hábitos velhos, tudo permanecerá inal-terado.
A vida só muda se nós a fizermos mudar. 
Um dos destaques evolutivos do ser humano é justamente essa capacidade de promover mudanças. E isso acontece porque ele sonha. Mas apenas sonhar não basta. Cabe a cada um de nós investir e batalhar pelo que acreditamos.
Embora clichê, nesse janeiro de 2020 ainda estão brancas as páginas do livro das novas histórias que iremos escrever. Histórias do cotidiano de nossas vidas, proporcionando experiências, aprendizado e gratidão.
E para ganhar, de fato, um Ano Novo, sempre é válida a mensagem de Carlos Drummond de Andrade:
“Tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.”

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - JANEIRO 2020

sábado, 28 de dezembro de 2019

O RELÓGIO ART-DECÒ

Por: Sérgio Perazzo
PSIQUIATRIA

O que tem em comum uma caneca de estanho, uma valsa de Debussy e um relógio art-déco? Aparentemente nada.
Visto pela fresta da janela, pelo lado de dentro, esse resto de sol, vindo do poente, bate que bate em cheio na caixa do relógio, tangenciando a alma. Retificando cada movimento circular dos ponteiros e com isso aplainando o espírito e desdobrando o dia no seu suspiro final, arremate dos males, ressurreição das boas coisas, de permanente lembranças. Uma overture em sol maior.
Relógio que foi presente de aniversário ali, pelos idos de 1938, design art-déco combinando com os lustres do teto e a luminária daquele canto, como era moda, a tampa de vidro que se abria toda manhã ou quase toda manhã, pra dar corda com a chavinha fixada na fechadura, permanentemente, a portinhola de vidro abaulada permitia abrir e fechar sem arranhar o vidro.
Desde que me entendo por gente, era o pai que dava a corda no relógio, sempre deixando dez minutos adiantado, tal o medo de chegar atrasado seja onde for, eliminando com este estratagema, a angústia do tempo, as coisas de última hora. Eu esperava o arremate. Dada a corda, o relógio tocava um pequeno trecho de uma valsa de Debussy como sinal de dever cumprido e se calava ao mesmo tempo que o café se tomava na caneca de estanho que eu imaginava ser rescaldo de velhas estalagens, daquelas com viga no teto e cortina florida na janela, com direito aos Três Mosqueteiros e tudo, transportando o colar da rainha, espadas na bainha.
Era uma casa de vila distante meia quadra da Ponte de Tábuas, entre o Jardim Botânico e a Vila Hípica. Sempre me pareceu uma visão de braços abertos e um chão antiderrapante mesmo se grama molhada que nos permitia, nós, crianças, correr em segurança até o portão por onde entravam as visitas, movimentando as tardes de domingo.
Só uma vez me lembro que escorreguei. Corria para receber o padrinho. Era carnaval e estava fantasiado de holandês. Fantasia de cetim com botões dourados, mais uma proeza de minha mãe que a cada ano inventava uma fantasia nova: pirata, caubói, cigano, marinheiro, tirolês, rumbeiro, escravo de Bagdá e, dessa vez, holandês, a única que repetiu dois anos seguidos. Acho que morrera uma bisavó em pleno carnaval e não houve ânimo para invenção nova, falta de dinheiro não era. Só sei que a calça do holandês, azul, o colete era vermelho e a camisa branca,  ganhou um remendo caprichado para dar conta do tamanho da perna que tinha crescido de um ano para o outro. Mas o tamanco de madeira, de bico arrebitado, tamanco holandês, era o mesmo e estava bem apertado no pé. Sai correndo em busca do padrinho no portão. Escorreguei dessa vez, ralei o joelho e a fantasia bem na hora de ir à matinê com meus irmãos e a prima. Confesso que chorei. Mais pela fantasia e pelo vexame que pelo joelho. É claro que a mãe engenhosa que era, pintou o arranhão com mercúrio cromo e costurou os joelhos da fantasia deixando duas cerziduras que ficaram como cicatrizes marcando essa viagem de velhos carnavais, tulipas bordadas, colo de mãe e abraço do padrinho. De resto, o salão de baile onde deságuam todas as lágrimas, todos os dez minutos adiantados da minha vida marcados pelo velho relógio e o cachimbo de holandês, adereço da fantasia pendurado na boca, que saiu meio torto, meio tremido na desbotada fotografia de um fevereiro perdido em art-déco e calendário de folhinha.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

NATAL DE 2018

Por: Evandro Guimarães de Sousa
PNEUMOLOGIA

Nas semanas que antecederam o último Natal encontrei, na frente de um conhecido shopping de São Paulo, um gigante boneco vestido de Papai Noel e, pasmem, no lugar de sua conhecida e tradicional vestimenta vermelha com pele branca nos punhos e na gola, estava usando uma camiseta branca com estampa de bolas vermelhas.
Aí, fiquei matutando. Será que as altas temperaturas registradas na região da Lapônia durante este ano, interferiram na indumentária do bom velhinho? Ou talvez, teriam as despesas com a ração das renas, os honorários do Veterinário, o custo do IPVA do trenó ou os encargos trabalhistas de seus ajudantes motivado a venda do seu uniforme natalino tradicional?
Quando voltei ao shopping na véspera deste Natal, o Papai Noel já estava convenientemente trajado com sua roupa vermelha e branca, inclusive com o conhecido gorro, apesar do calor insuportável que tem feito nesta cidade. Descobri, então, que na minha passagem anterior os decoradores estavam na fase inicial de colocar sua vestimenta e, felizmente, o boneco ficou pronto de acordo com a tradição para alegrar a criançada que lá passava.
Depois do Natal, para minha surpresa, ao passar novamente em frente ao mesmo shopping, observei que Papai Noel agora estava vestido com uma camiseta verde, em posição de yoga, todo zen e rodeado de palmeiras artificiais.
Nada mais justo que um descanso, depois da exaustiva distribuição de presentes por este mundo afora na véspera do Natal. Imaginei ele, agora, curtindo uma praia à sombra de palmeiras, sorvendo uma água de coco geladinha para se refrescar, não antes de se besuntar com protetor solar!
Sabemos que o verde representa a esperança que todos nós temos para 2019. Esperança de um país melhor, mais justo, com melhorias na educação, no atendimento aos pacientes, com mais segurança e com políticos dedicados à causa pública e não mais atuando em benefício próprio.
Portanto, tenho certeza de que ele usou roupas no tom verde durante o Réveillon da passagem para 2019, assistindo a tradicional queima de fogos na praia de Copacabana.
Também acho que o vi no meio da multidão, durante a posse do atual mandatário desta nação, trajando vestes nas cores verde e amarelo, mesmo porque não seria recomendável utilizar seu costumeiro traje vermelho. Nesse dia, Papai Noel, com toda sua sabedoria secular, logo sacou que o melhor mesmo era se vestir adequadamente e garantir seu passe livre no céu de Brasília, para as costumeiras entregas de presentes no Natal de 2019. Concordam comigo?

sábado, 21 de dezembro de 2019

FAGULHAS

Por: Márcia Etelli Coelho
MEDICINA DO TRABALHO

(dedicado a Lygia Fagundes Telles)

Eu sou meio tom, crepúsculo, incerteza.
Às vezes sobrado, por vezes, porão.
Encontro no simples a minha grandeza.
Ciranda de pedra, eu sou solidão.

Menina que escolhe as próprias histórias, 
que antes do baile é bem mais feliz.
Coração ardente, inventando memórias. 
Noturnas histórias... Não sei ser matriz.

Nos poucos achados e muitos perdidos, 
escrevo uma crônica em cada viagem.
Mistério e segredos de beijos partidos 
nos vastos jardins de uma praia selvagem.

Quando há Lua cheia, as horas são nuas.
Convivo com armas e vozes fraternas.
Sou chama que logo se torna fagulhas,
fagulhas que sonham com luzes eternas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

VESTIDOS DE LUZ

Por: Marcos Gimenes Salun
JORNALISMO

Olha o tronco daquela árvore!
Olha o papai-noel de plástico!
Olha outro naquele telhado!
Olha alí um de verdade! 

Estão todos vestidos de luz.
Há um mar dessas pequenas centelhas 
piscando.
São milhares, são milhões, acendendo, 
apagando.
Nas portas, nas mulheres, nas vitrines
Nas janelas, nos pacotes, nos meninos...
Veja só como brilham esses meninos!
Estão lindos assim, vestidos de luz!
São milhares nas esquinas, cintilando,
Refletindo esse brilho, circulando 
Entre os carros que refletem 
a cidade vestida de luz.

Olha o panetone naquela loja!
Olha a bicicleta que eu te falei!
Olha o brinquedo movido a pilha!
Olha a tv colorida e também vestida de luz!

Há um turbilhão de apelos faiscando.
São milhares, são milhões, acendendo, 
apagando.
Nas vitrines, nos pacotes, nas janelas
Em mil bocas nas esquinas e favelas.
Há no ar a perspectiva de uma festa
Acendendo, apagando, refletindo, 
iluminando.
Há meninos nas esquinas esperando
Um pouco mais do que o simples brilho
da cidade vestida de luz.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

DEPRESSÃO

Por: Roberto Antonio Aniche
ORTOPEDIA

A solidão caminha pelas ruas sonolentas, silenciosa pela noite adentro. Não pergunta nomes, não bate nas portas nem precisa que elas se lhe abram. A solidão caminha silenciosa, como a névoa que alcançou todos os primogênitos, mas muito mais cruel, sem se preocupar em quem cairia em suas armadilhas.
Como um animal peçonhento esgueira-se pelas sombras, age e ataca no silêncio quando se torna ainda mais forte, longe da luz. A solidão é uma dama de veludo que sem o menor pudor beija a face desprotegida com o beijo maldito que envolve e dissolve todos os sonhos da vida.
Não há limites em sua busca frenética pela desgraça, vai de pensamentos a alcovas, de palavras a silêncio, da vida e da morte, sempre, independente de quem seja, abalar o coração, derrubar a alma. E de repente a solidão invade a distância e o tempo, torna as pessoas sem rosto, sem voz, sem sonhos.
...
Sozinho no banco da praça, debaixo da luz amarela de um poste antigo, o homem pensa em como se deixou iludir, como perdeu seus momentos de lucidez que o levariam ao paraíso etéreo que almejara desde menino. Gostaria de falar, mas não havia quem o ouvisse, não havia pessoas ao seu lado, nem na praça nem em qualquer outro lugar.
Envolvido pela névoa ele descobriu que não tinha mais palavras, as perdera todas no caminho de tantos anos até chegar àquele banco da praça. Ninguém o notava, tornara-se invisível como a avó de um texto lido no passado. Deixara-se tornar invisível, a solidão o tornou invisível num ataque de surpresa na linha do tempo de sua vida.
Era noite, como convém à solidão para entrar no coração das pessoas, envolvê-las em seus próprios pensamentos escuros tornando-as cada vez mais, seres únicos num mundo coletivo, tão únicos que não mais se enxergam.
Olhou para a luz amarela do poste e uma garoa fina começou a cair tornando a atmosfera mais fria, mais úmida, mais triste. Ninguém havia notado a sua ausência que já se tornara um tempo quase que eterno, ninguém havia notado a falta de sua voz contando estórias, pouco ou nada se lembravam de seu sorriso.
E quando ele buscava alguém na lembrança a tristeza o envolvia mais ainda, ele havia se tornado anônimo em sua própria casa, um paria do tempo perdido. Levantou-se e começou a caminhar, passos lentos, em direção a qualquer lugar. Lembrou-se de uma frase que dizia que a quem não tem um destino, qualquer caminho serve.
Talvez aquela rua jamais sentiria seus passos novamente, a lua encoberta não se lembraria mais de tê-lo visto, seus livros não seriam mais folheados buscando uma frase sequer.
Lentamente, encurvado e com os ombros caídos foi caminhando em direção a lugar nenhum, ou ao fim de todos os seus caminhos. Não havia mais nada a fazer, nada mais a dizer, nada mais a pensar. O coração se contraiu amargurado enquanto a tristeza tomava conta dos seus pensamentos.
Era um desconhecido numa fotografia velha e amassada. Nenhum recado, nenhuma saudade. Não restava mais nada a fazer, a não ser andar. Esgotara a sua cota de sacrifícios, esgotara todas as suas tentativas de se encontrar e encontrar tantas outras pessoas, não havia mais ambição, iniciativa ou sonhos. Ninguém perde o que não tem e ele tinha a certeza de que, depois de perder tudo ele atingira o estado do nada, apenas isso, um nada no meio da multidão. Lembrou-se do tempo de menino e um soluço doloroso emergiu de seu âmago. Parou, voltou-se e olhou na direção de onde viera.
E não viu nada, porque não havia mais nada. Mais nada…

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