quinta-feira, 14 de março de 2019

AGORA


Por: José Alberto Vieira
ANESTESIOLOGIA

O passado reclama um tempo não mais é possível.
O futuro chama a preocupação inútil e vazia.
O agora nos abraça amorosamente.
Apeamos o fardo das experiências vividas e das que jamais viveremos.
Repousando na música silenciosa de um instante,
Na percepção ampliada dos sentidos,
E na mente livre dos fatos criados por nossos pensamentos.
Nenhum lugar onde ir, nenhum tempo a esperar
Dizemos ao pretérito e ao porvir olá, até breve e obrigado.
Respiramos, sorrimos e seguimos em frente.
Vivendo os milhares de agoras.

***

RIO PREGUIÇAS


Por: Manoel de Jesus de Sousa Lisboa
DIREITO


Muitos poetas cantaram o rio de sua cidade, de seu estado, de seu país.
Fernando Pessoa:
“O Tejo é mais belo que o rio que
corre pela minha aldeia...”
Luiz Jorge Ferreira cantou: “Panacuera, Rio da minha vida”.
Adailton Milhomens da Silva:
“Não sei o que é o mar,Minha Terra não tem mar:
Mas tem o Rio Preto,
Que é mais lindo que o mar”.


Barreirinhas tem mar, mas passa lá longe.
Depois do Caburé, e do povoado Atins.
No entanto, quem banha a minha cidade é o Rio Preguiças,
Cujas águas turvas guardam mistérios indecifráveis.
O Rio abraça a cidade como se quisesse por no colo.
Em seguida como quem não se desgruda de um grande amor,
Segue o seu curso indo desaguar no mar.
Rio Preguiças quantas vezes quando criança,
Tomei banho e nadei em tuas águas!
Água que mata a sede dos ribeirinhos, e dos citadinos!
Tuas águas nunca haverão de morrer.
Os teus filhos irão cuidar de ti,
Não permitirão que nada de ruim te aconteça.  
Jamais quero ouvir alguém dizer:
“As águas deste rio um dia foram limpas,
nelas tomei banho, pesquei, nadei, passeei de canoa...”.
Porém, uma grande tristeza desaba sobre mim,
Toda vez que ouço frases correlatas
sobre os Rios Tietê e Pinheiros, em São Paulo.
Suas águas que passam pela metrópole estão mortas.
Foram trucidadas, asfixiadas e estranguladas pelo progresso.
Com a chegada do turismo amiúde em Barreirinhas,
Tomara que o Rio Preguiças não tenha o mesmo destino
dos rios das cidades grandes.
Eu me preocupo com o futuro do Rio Preguiças,
A mansidão de suas águas o faz seguir imponente,
Lambendo as areias de suas margens.
Fazendo os manguezais e as plantas florescerem.
À tardinha garças, sabiás, pipiras, macacos...
Compõem a fauna e a flora numa mesma irmandade.  
Rio Preguiças tu sempre serás fonte interminável de vida!
Inspiração para os casais enamorados.
Teu curso mira e atinge o Oceano Atlântico,
Destemido, altaneiro, majestoso, único e ainda,
Embala o frescor da juventude que um dia passou por mim!

***

TEMPO


Por: Amália Pelcerman
CARDIOLOGIA


Tem coisas que levam tempo. Tem coisas que o tempo leva.
Vi estas frases estampadas no muro de entrada da Casa Cor de São Paulo, em um junho quente de 2018. As frases vinham acompanhadas de um trabalho artístico, uma faixa artesanal de crochê multicolorido embaixo da primeira frase e uma série de balões coloridos acima da segunda frase.
Esta cena me inspirou e despertou sentimentos. Achei significativo e comecei a fazer associações.
Muitas coisas levam tempo para ser executadas, às vezes mais tempo para se realizar. Às vezes estas conquistas duras, sofridas, demoradas nos levam a êxtases maiores e voos mais altos. Costumam ser mais perenes, nem sempre nos trazem felicidades imediatas mas quando trazem são para sempre.
As coisas que o tempo leva são sopros de alegria, muitas vezes efêmeros, certas vezes esquecidos. Podem ser coisas sem importância alguma ou essenciais, como amigos. Se não os cultivamos se vão como balões ao sabor dos tempos e dos ventos. O que é fundamental não pode ser levado pelo tempo, tem que ser conservado, mesmo que para isso seja necessário empreender esforço pessoal, empenho e coragem.
Coragem sim, para revolver lembranças doces e tristes, passar a limpo decisões certas e erradas e não deixar seu tempo levar.
Vamos fazer o tempo trabalhar a nosso favor e deixá-lo levar embora só os balões que não valeram a pena.
Fiz um balanço pessoal das coisas que o Tempo levou e as que deixou.
Levou embora a inocência e deixou a experiência, levou a idade e deixou a solidariedade, levou as dores e deixou os amores.

***

PROMESSA DE CARNAVAL


Por: Wladimir do Carmo Porto
ECONOMIA


É Carnaval! Estrugem os tambores. O batuque profundo e ensurdecedor reverbera nos corpos suados dos foliões. A cadência é comandada pelos gestos nervosos e o apito do mestre do Maracatu. As variações do batuque magnetizam a multidão aglomerada nos passeios e mesinhas da Rua dos Judeus, próxima ao Marco Zero de Recife, onde estou em companhia de dois irmãos.
Numa mesa, à nossa frente, uma família. Ele, homem troncudo e barbudo, parece um viking. Duas filhas adolescentes, magrinhas, serelepes. A mulher, figura desgastada e aborrecida, sentada na cadeira oposta a do marido. O homem olha, fixamente, uma loura escultural, um pouco gorda, que rebola languidamente, ao som dos tamborins, sob os olhares atentos de dois rapazes que lhe fazem companhia. A mulher, de olhar severo, policia o marido que aparenta uma indiferença que não existe.
Duas mesas adiante, à minha esquerda, vejo uma morena alta, bem proporcionada, voluptuosa, com short curto vermelho, pondo à mostra suas coxas torneadas. Seu companheiro, um velho com bengala, chapéu de palha com a aba frontal dobrada, tendo estampada, entre lantejoulas e purpurina, a bandeira de Pernambuco. Veste calção e camisa regata. Olhar absorto, figura um tanto ridícula, mostra-se indiferente à alegria que contagia a todos. Uma de suas mãos repousa tranquilamente, entre as coxas da mulher, enquanto degusta uma dose de whisky.
A batucada atinge o ápice, com todos os instrumentos de percussão tocando simultaneamente. É contagiante. A cadência eletriza a multidão, que se põe a gingar. A morena, como que atingida por um raio, sobe numa cadeira iniciando um rebolado frenético, sensual, libidinoso. Os seios parecem saltar da blusa semi-aberta. As sandálias douradas faíscam com os movimentos nervosos dos pés.
É uma mulher plena de desejo, exposta. Exibe-se. Sabe o fascínio que exerce. Nossos olhares se cruzam. Vejo seus olhos brilhando de desejo. A dança torna-se inebriante. Seu corpo se contorce de forma estranha. Observo extasiado. Até que enfim, exausta, senta-se sorridente. Recompõe os cabelos revoltos, com os dedos. Sutilmente, esboça um sorriso. Correspondo com o olhar, rindo da desfaçatez. Fita-me dissimulada, enquanto o velho paga a conta, levanta-se com dificuldade e retira-se. Trocamos um último olhar e a vejo desaparecer, sedutora, no meio da multidão.
Em seguida, saímos do local e, ao passar pela mesa onde ela se encontrava, vejo, sobre o tampo de mármore, entre confetes e serpentinas, um boné carnavalesco de papelão, com um nome e número de telefone.


***

A MELHOR ESCOLHA


Por: Sérgio Pelegrini Marun
OFTALMOLOGIA

Chegamos ao sexto ano da faculdade, as emoções do fim do nosso sonhado curso na flor da pele. A faculdade tinha condições de manter vinte alunos para o internato, os demais seriam colocados, no Hospital Municipal de São Paulo, quarenta, e nos hospitais Ana Costa e Santa Casa de Misericórdia, em Santos, os últimos trinta e seis.
Era uma decisão muito difícil, os alunos seriam sorteados e poderiam optar por um dos quatro hospitais, na ordem do sorteio. Estávamos tensos, os interesses pessoais, as necessidades e as obrigações assumidas falando muito mais alto que o próprio coração amante de Botucatu.
Desespero e mesmo pavor tomavam conta de cada um de nós todos, e de mim em particular. A decisão marcaria o início de uma vida nova, a incerteza e o desconhecimento dos locais indicados, somados à necessidade de estar próximo da família, como apoio à jovem esposa que iria passar inumeráveis dias e noites, puseram-me em um pânico velado.
Tomei a decisão que me pareceu mais acertada. Iria optar pelo Hospital Municipal de São Paulo e concorrer no sorteio a uma das quarenta vagas.
Finalmente o dia do sorteio, nomes e opções sendo anunciadas, vagas sendo preenchidas; o Municipal era o mais escolhido e já estava ficando completo, eu ainda fora do sorteio. Última vaga e fiquei fora, que pânico, sensação total de perda, desespero e finalmente, por ironia, talvez, fui o seguinte sorteado.
Não estava em condições de tornar nenhuma decisão, o desespero tomara conta de mim, não me havia preparado para aquela eventualidade, entraria em pânico caso não tivesse uma voz amiga calmamente sugerindo, sussurrando: “Escolhe a Santa Casa que depois troco com você”. Sem pensar, escolhi. Era o colega João Messetti, que saiu sem mais conversa, pois já havia feito sua escolha pelo Municipal.
Calmo, porém ainda preocupado, procurei o Messetti na escola e perguntei-lhe em que condições faríamos a troca, quanto teria de pagar pela gentileza, e ver se eu teria condições de realizar a troca, pois tinha ouvido conversas de outras trocas e talvez o dinheiro de que dispunha não fosse suficiente.
Ouvi sonora e solene descompostura, que nunca esquecerei.  “Que burro você é, Pelelé, não consegue ver um amigo fazer um gesto de amizade, sem querer colocar dinheiro no meio para tentar estragar tudo. Vi sua preocupação, seu desespero e resolvi ajudar pelos nossos bons tempos, por nossa amizade”.
Depois da troca de vagas tivemos um ano de muito trabalho no internato e só voltei a ver o amigo João Messetti já formado, nas comemorações festivas do fim de curso. Juntos fizemos residência de Oftalmologia na Santa Casa de São Paulo e continuamos amigos, companheiros por estes quarenta anos.


***

sexta-feira, 1 de março de 2019

O BANDEIRANTE - Nº 316 - MARÇO 2019


O BANDEIRANTE - edição 316 - Março de 2019

Editorial: 

Com um livro nas mãos

No final de 2018, pela primeira vez, não recebi nenhum cartão de Natal. Em compensação foram dezenas de mensagens por e-mail e whatsapp, inclusive de amigos do Facebook que eu sequer conheço pessoalmente.
É natural que a tecnologia promova renovações de costumes. Mas o que dizer dos e- books que progressivamente vem ameaçando a supremacia dos livros físicos? 
É certo que os livros digitais facilitam as pesquisas, permitem aumentar o tamanho das letras e resolvem o dilema do pouco espaço disponível das casas para guardá-los.  
Essas comodidades, porém, não substituem o prazer de tocar um livro físico. Com ele se pode sentir o aroma do papel, a textura de cada folha e exercer a magia de emprestar, presentear, compartilhar. E, se ele for especial, especial mesmo, ocupará um lugar de destaque na cabeceira do nosso quarto. 
Um verdadeiro companheiro que instrui, diverte, emociona e nos transporta para lugares só concebidos pela imaginação.
O livro físico vai mais além. Ele permite deixar a nossa marca, rabiscar, frisar algum trecho, fazer anotações no rodapé, como se nós fôssemos parceiros dos autores desta obra. Reler estas anotações, algum tempo depois, promove indescritível sensação. 

No final de 2018 eu também não enviei nenhum cartão de Natal, mas presenteei com alguns livros, colaborando com a campanha de salvar as livrarias de uma possível falência. Minha frequente intenção de presentear com livros, com certeza, é bem mais ampla e visa garantir que as futuras gerações possam, assim como eu, sentir o prazer de ter um livro nas mãos. 

Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - MARÇO 2019

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

LEMBRANÇAS


Por: Hildete Rangel Henger
CLINICA GERAL
(in memoriam)
1936 - 2016

Naqueles dias que se foram
E me parecem tão perto

Tudo acontecia perfeito e imutável...
O clic clic da chuva lá fora
Um tic tac do relógio
Aqui dentro

O canto do sabiá laranjeira
Nas madrugadas
O cheiro do café
Pelas manhãs
Evocavam aconchegos...

Não precisava ver-te nem ouvir-te
Para sentir-te perto
Tua presença entrava nos meus poros
Como sol pela janela aberta...

Em cada parede da casa
Ficou um silêncio
cheio de palavras
Que não mais serão ditas

nos degraus das escadas
O eco dos teus passos
Que não mais ouvirei

E dentro de mim
Um vazio que não dá para traduzir
Com nenhuma palavra
Em nenhum idioma...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O PINCEL DE BARBA



Por: Manlio Mario Marco Napoli
ORTOPEDIA

No fundo do corredor do 3° andar, ala B, do Instituto de Ortopedia e Traumatologia, havia a sala 323, dormitório dos plantonistas do Pronto Socorro, onde também funcionava, desde meados dos anos 50, o chamado Grupo de Banho.
Era ali que nós Assistentes do Instituto nos reuníamos diariamente, após a faina nos ambulatórios, salas de gesso e centro cirúrgico, atividades que nos ocupavam toda amanhã.
Nessa sala se discutiam os grandes problemas do Instituto, mesmo os que já haviam sido submetidos as altas esferas administrativas e técnico-científicas. Também os trabalhos e casos discutidos nas reuniões semanais eram dissecados, criticados, aprovados ou não. Qualquer trabalho ou apresentação que não fosse aprovada pelo Grupo, certamente não seria aceita pela comunidade ortopédica.
Do grupo participavam muitos Assistentes e o seu Chefe, querido e ao mesmo temido, porém respeitado, era o saudoso Dr. Batalha.
Entre os assíduos frequentadores havia um ilustre descendente de lusitanos, como o Batalha.
O Chefe era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, geralmente lá pelas treze ou quatorze horas, mesmo assim, sob a insistência e impaciência dos demais.
Certo dia, o Batalha fazia a barba e atrás, "filando" o espelho se encontrava o outro ilustre lusitano.
De repente, o Batalha percebe que seu companheiro trazia o pincel de barba não lavado e, em alguns pontos de sua extremidade, havia restos de espuma de sabão.
Simplesmente com poucas gotas de água, a espuma reapareceu e o rosto foi recoberto rapidamente.
Surpreso, Batalha abriu o diálogo, que na verdade foi um monologo- "Então, seu Lage, você há tantos anos convivendo conosco, jamais fez referência ao seu método de economizar sabão de barba. Bonito, hem? Isso é que se pode chamar traição! ".
Entre risos e admoestações, sem nada dizer e sorrindo levemente, Lage terminou de fazer a barba. Como era seu hábito, rapidamente saiu.
Batalha, entre os comentários dos demais, jurou que jamais lavaria seu pincel de barba a partir de então.
Devo confessar que também eu, há mais de trinta anos, tenho deixado a espuma secar em meu pincel de barba!

***

SEXAGENÁRIA



Por: Lúcia Edwiges Narbot Ermetice
DERMATOLOGIA

Desde agora quase tudo
me será permitido, 
pois volto a ser criança 
e resgato a ingenuidade 
e o não ter medo do ridículo. 
De hoje em diante, 
por motivo de minha
recém conquistada liberdade 
de ser velha-criança, 
continuo a ter a esperança 
que nunca perdi, 
a sonhar todos os sonhos 
que nunca deixei de sonhar, 
a cantar, ainda que desafinada, 
todas as canções que quiser, 
inclusive e sobretudo as fora de moda. 
Não rompo laços 
porque nunca estive amarrada. 
Insisto e persisto, como sempre, 
a viver em paz comigo mesma, 
com o mundo, 
com o riso e a alegria. 
Hoje é só uma data, 
apenas um dia
entre o ontem e o amanhã, 
somente símbolo a confirmar 
que o importante, 
o real, o verdadeiro, 
é amar e ser feliz.

***

FERIR



Por: Maria Gertrudes Vagliengo Focássio
MEDICINA DO TRABALHO
gertrudes.tuty@terra.com.br

Como a erosão gera, na terra, a falésia,
a dor imprime uma chaga no coração
A alma fendida desaba, em poesia
e lágrimas musicadas, compondo a canção.

Enquanto a gaivota sobrevoa região ignota,
inóspita, inserida no universo insano,
os olhos tristes choram a derrota;
são tantas gotas que formaram o oceano.

Qual a brisa que serpeia entre os coqueiros
torna-se vendaval que revolve o mar,
um pequeno deslize entre companheiros
pode rompimento e dor acarretar.

Lágrimas das nuvens borrifam as plantinhas,
mas podem tornar-se poderosos temporais.
Uma palavra inconveniente nas entrelinhas,
consegue às vezes criar distâncias abissais.

O ser humano que magoa, indiferente,
ressaltando discutíveis atributos seus
causa no outro um queloide incandescente;
distancia-se mais e mais de Deus.

***

LUA NUA



Por: Josyanne Rita de Arruda Franco
PEDIATRIA
josyannerita@gmail.com

Um colar azul-turquesa
feito mar que desconheço.
Corais cor de laranja
a enfeitar pulso e cabelos.

Túnica verde-esmeralda 
vestindo mata distante...
E um anel bem lapidado
fingindo ser diamante

Deitada na minha rede,
abandonada ao que sou...
Ardente alma talhada
para os mil planos do amor.

Sentindo na madrugada
os beijos no meu pescoço,
sou espasmo na empreitada
do balde que afunda no poço.

Na proa dessa canoa
que encontra meu rio-mar,
sou apenas lua nua
te oferecendo o luar.

E antes que algum eclipse
nos afete a lunação,
adentrarei a floresta
e tu voltarás ao sertão...

*** 


A PRAIA DO TRIKE



Homenagem a todos Pilotos deste Encontro
Por: Delfim Silva Pires
CARDIOLOGIA
delfimpires@hotmail.com

Numa certa manhã, surgiu no horizonte; aliás, primeiro ouviu-se um ronco de motor. À medida que o ronco do motor se aproximava, via-se uma asa à distância; à medida que se aproximava, distinguiam-se cores exuberantes. Essa aeronave aproximou-se da praia, fez um rasante, estudou o terreno, fez dois ou três círculos completos. Iniciou uma aproximação do extremo da praia e fez um pouso suave. Ali nunca ia alguém, a não ser algum barquinho. Veio em minha direção e ultrapassou cerca de trinta metros, não sem antes fazer uma ventania que me levantou a saia (refrescando-me inteira). Demorou um tempo até que desceu meu príncipe encantado, meu explorador dos céus e agora dono daquela praia; e, a partir daquele instante, da minha vida! Veio tirando as luvas, desabotoando o blusão de couro, passando a mão pelos cabelos que começavam a ficar grisalhos. Quando começou a falar, minhas pernas ficaram bambas. Que voz linda!
— Sabe me dizer onde estou?
— Você está na sua praia.
— E qual é o nome desta praia?
— Como chama a sua aeronave?
— Aquilo é um trike.
— Pois então, a partir de hoje, esta é a praia do trike, que era só minha e agora também é sua!
— Tem mais alguém nesta praia?
— Claro, tem a minha família, meus pais e minhas irmãs. E você, que a partir de agora também é dono disso aqui.
— Por que você me trata assim, oferecendo-me seus pertences?
— Porque estava há muitos anos a tua espera.
— Como assim? O que sabe a meu respeito? Como sabia que eu vinha? Desde quando você sabia que eu vinha?
— Calma, tem o resto da tua vida para saber todas as respostas; algumas posso te dizer agora, e, aos poucos, acaba sabendo tudo! Minha mãe, desde criança, disse-me que meu marido vinha do céu, que um dia meu príncipe encantado surgiria voando. Como esta praia é inacessível, nem sei se ela dizia isso a sério ou se era brincadeira! O fato é que eu, desde criança, ia pela praia às manhãs e às tardes esperar meu príncipe encantado! E tinha certeza que um dia isso aconteceria! Para mim aconteceu: amei-te assim que o vi arrancar aquelas luvas e sussurrar: Onde estou?
— Você chegou levantando a minha saia. Por tudo isso é meu príncipe encantado! Agora preciso saber de você: se acha que pode me amar, venha que vou lhe mostrar minha mãe e toda minha família. Mas cabe a você consultar teu coração e decidir: se quer ficar ou se vai embora levando consigo a lembrança que tem agora, uma praia do trike.
— Na verdade, venho de uma terra onde não temos mar e as terras são planas, podemos voar a poucos palmos do chão durante quilômetros, onde os campos parecem desenhados pelas mãos do homem. Os campos ganham simetria com as plantações. Não sabia o porquê, mas havia alguma coisa que me fazia querer voar sobre o mar. É muito bom voar sobre o mar, não temos turbulência e as águas adquirem cores que vão do azul ao verde, e são de uma transparência que não se percebe aqui do chão. Agora sei por que aprendi a voar; soube disso no momento que vi esta praia. Valeu a pena voar para conhecer este cantinho do céu, pensei. Ao fazer o rasante vi você e me apaixonei pelo jeito que correu!
— De agora em diante, vamos construir nossa história juntos! Entramos em casa e eu gritando pela minha mãe.
— Mãe, ele veio de trike, o príncipe chegou!
E era tanta gritaria que vieram todos. A mãe perguntou:
— Já beijou o moço, minha filha?
Ao que o pai disse:
— Igualzinha à mãe. Todos se olharam e ninguém entendeu, a não ser o pai e a mãe que desandaram a rir. Ao que ele explicou: quando aqui cheguei, vim numa canoa e sua mãe também me esperava na praia, assim como vocês. E entramos na maior alegria pela casa afora.
A mãe dela nos interrompeu e disse:
— Minha filha, beija o moço para ver se vai dar certo! Então, minha filha, vá lá pra fora, beija o moço e volta com ele!

*** 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O BANDEIRANTE - nº 315 - FEVEREIRO 2019




O BANDEIRANTE - edição 315 - Fevereiro de 2019

Editorial: 

Jornadas
Curioso como a palavra “jornada” pode desencadear diferentes ideias de acordo com os reais interesses de cada pessoa. Para o empresário, ela designa o trabalho desem-penhado no decorrer de um período. Para quem está de férias, representa a viagem ou caminhada que pretende percorrer. Para o fã televisivo, virá à mente a série com a nave Enterprise “audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve”.
E para nós, sobramistas? Com certeza, o termo jornada sempre reativará agradáveis lembranças de encontro, confraternização e intercâmbio literário.
E é por isso que a SOBRAMES SP inicia o ano preparando a XV Jornada Médico-Literária Paulista que em 2019 agregará também a X Jornada Nacional.
Se em 2018 festejamos o Jubileu de Pérola da regional paulista, em 2019 será comemorado o cinquentenário da edição da coleção “Médico, Santo e Pintor”, escrita pelo Dr. Eurico Branco Ribeiro.
Programada para o período de 01 a 03 de agosto de 2019, pretendemos acolher sobramistas de todas as regionais para apresen-tarem seus textos em prosa e versos, além de prosseguir incentivando os estudantes de Medicina com a realização da II Intermed Literária Paulista.
As inscrições encontram-se abertas até o dia 17 de maio. Reconhecemos que o prazo é curto, mas necessário para a correta organização dos textos que irão compor os Anais e para que os avaliadores possam escolher os merecidos premiados.
Convidamos, então, todas as regionais a prestigiarem esse evento se inscrevendo e divul-gando as informações enviadas por email. Aguardamos a todos com o aconchego de sempre.   
Márcia Etelli Coelho
Presidente da Sobrames-SP

Leia a edição completa clicando no link a seguir:
O BANDEIRANTE - FEVEREIRO 2019

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